Encorajamento para dias difíceis (XIII)

Warren W. Wiersbe

 

Na fornalha da dor

     Há quase duzentos anos, Thomas Jefferson escreveu uma carta à sua amiga Srª Cosway, onde dizia, “A arte da vida está no evitar a dor.” Thomas Jefferson foi um grande homem e pensador brilhante, mas discordo. Quando ouvimos esta declaração, a princípio ela parece ser verdadeira. Nenhum de nós procura deliberadamente a dor nas nossas actividades diárias. Quando chega o tempo do nosso exame dentário semestral ou da nossa visita anual ao médico, realmente não desejamos pôr lá os pés. Afinal, o dentista pode ter de chumbar um dente, ou o médico pode ter de ordenar uma operação ou uma dieta! Geralmente falando, todos nós fazemos o melhor que podemos para evitar a dor.

     Mas quando dedicamos uma análise mais profunda à declaração, vemos que ela não está à altura dos factos da história. O próprio Thomas Jefferson pagou um preço para ajudar a conduzir a Revolução Americana! Para conquistarem a liberdade muitos dos patriotas daqueles dias perderam os seus nomes, as suas casas, as suas fortunas e, alguns, as suas vidas. A nossa liberdade foi adquirida com dor e morte; e a nossa liberdade foi protegida por dor e morte. A própria história mostra-nos que o progresso humano só pode ser conseguido quando alguém sofre por aquilo que é verdadeiro e correcto.

     Mesmo fora da história, a nossa experiência pessoal ensina-nos o absurdo desta declaração. As dores mais profundas não são físicas; são emocionais e espirituais. Todos nós temos experimentado a dor durante a peregrinação da nossa vida. Nós poderíamos ter evitado a dor, mas temos aprendido que as coisas mais importantes da vida normalmente envolvem sofrimento. Se as pessoas vivessem para evitar a dor, nunca quereriam crescer. Mas pense no que, exactamente, perderiam!

     Pegue na questão do nascimento humano. É verdade que temos métodos científicos modernos para proteger as mães, mas ainda há uma certa quantidade de dor. O próprio Jesus usou isto como ilustração do Seu próprio sofrimento quando disse, “A mulher, quando está para dar à luz, sente tristeza, porque é chegada a sua hora; mas, depois de ter dado à luz a criança, já se não lembra da aflição, pelo prazer de haver nascido um homem no mundo.”

     Pense, também, na dor e sofrimento que a mãe e pai experimentam quando procuram educar essa criança. O velho provérbio diz, “Quando pequenas, as crianças pisam os teus pés; mas quando se tornam mais velhas, pisam o teu coração.” Certamente que isto é verdade. No meu ministério tenho encontrado pais Cristãos dedicados cujos corações têm ficado partidos por causa da rebeldia dos filhos que falham em dar ouvidos às suas instruções e exemplo. Se toda a gente realmente vivesse para evitar a dor, ninguém se casaria e construiria uma família; no entanto as pessoas fazem-no permanentemente.

     Nós nunca devemos pensar que a dor é algo pecaminoso. Algum sofrimento surge por causa da desobediência; mas nem toda a dor é resultado do pecado. Se no jardim do Éden Adão tivesse tropeçado numa pedra, ele tê-la-ia sentido. É verdade que a dor da doença e do declínio físico é em última análise causada pelo pecado; mas até a dor da doença pode ter um bom resultado. Se nós nunca sentíssemos dor quando algo está mal nos nossos corpos, morreríamos por negligência. Uma dor algures no corpo é um sinal de perigo, e devemos estar gratos por ela.

     Mas para o Cristão crente, a dor tem ministérios muito mais elevados. Muitas vezes ouço pessoas dizerem que os Cristãos sofrem mais do que as outras pessoas, mas não tenho a certeza de que isso possa ser provado. Quando visito hospitais e lares, encontro muitas pessoas perdidas que estão a sofrer. De facto, creio que o Cristão dedicado provavelmente evita uma série de sofrimento físico que vem a uma pessoa que contamina e destrói o seu corpo através do pecado e do egoísmo.

     Quais são os ministérios mais elevados da dor? Bem, em primeiro lugar, a dor pode ter uma força purificadora. O apóstolo Pedro escreve em 1 Ped. 4:1, “...aquele que padeceu na carne já cessou do pecado”. Uma das traduções modernas apresenta assim, “Porque aquele que sofre no corpo deixa de ser dominado pelo pecado.” Uma vez passei por um sofrimento físico intenso, e isso teve muito claramente um efeito purificador no meu coração e mente. Fez-me ver muito mais claramente as coisas espirituais. As minhas prioridades foram reordenadas. É verdade que a dor, em si, nunca poderá conseguir isto; mas quando nos rendemos a Cristo e Lhe pedimos a Sua ajuda, a dor pode purificar-nos.

     Um ministério secundário da dor é o da comunhão com Cristo. Em Filipenses 3:10 Paulo escreve sobre “a comunhão dos Seus [de Cristo] sofrimentos.” Algumas pessoas revoltam-se contra Deus quando passam pelo sofrimento, mas isso não necessita de ser assim. Por meio da fé nós podemos ser atraídos para mais perto de Deus, quando passamos na fornalha da dor. Nenhum de nós experimentou tudo o que Jesus experimentou na cruz. A pessoa perdida não tem nenhuma ideia da maravilhosa alegria e paz que o crente experimenta no seu coração mesmo no meio de sofrimento constante.

     Um terceiro ministério da dor é trazer glória a Deus. Isto não significa que Deus nos faça sofrer deliberadamente só para que possa receber glória. Mas significa que Deus pode usar o nosso sofrimento para glorificar o Seu nome. Quando Jesus enfrentou a hora da Sua morte, Ele disse, “Pai, glorifica o Teu nome.” E Deus foi glorificado no sofrimento e morte do Seu Filho, e Deus honrou Cristo e ressuscitou-O dos mortos em grande glória. Visitei crentes em hospitais e lares cujas vidas estavam a glorificar Deus mesmo nos seus sofrimentos.

     A dor purifica. A dor atrai o Cristão para perto de Cristo. A dor glorifica Deus. Mas também nos devemos lembrar que a dor significa glória e honra amanhã. Paulo escreveu, “...as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada.” Deus nem sempre faz as Suas contas nesta vida. De facto, nenhum Cristão deve esperar receber muita recompensa neste mundo. Jesus disse, “No mundo tereis aflições.” Um dia um homem disse-me, “Não acredito no inferno, nem no céu. Tu tens o inferno ou o céu aqui na terra.” Este homem estava errado. A pessoa perdida tenta desfrutar deste mundo o melhor que pode porque é o único céu que ela alguma vez verá! “... Aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo.”

     Porém o Cristão aguarda pela glória do céu. Jim Elliot, um dos missionários martirizados no Equador, escreveu no seu diário: “Não é louco quem abre mão do que não pode reter para ganhar o que não pode perder.” Se sofrermos com Cristo hoje, isso só significa glória com Cristo amanhã. Para o Cristão, o melhor ainda está para vir.

     Já entregou a sua dor a Cristo e pediu-Lhe para a usar para seu bem e glória d’Ele? Sugiro que o faça pela fé. Deus não promete remover a nossa dor, nem mesmo aliviá-la; mas promete transformá-la e usá-la para os Seus propósitos eternos.

     O grande apóstolo Paulo padeceu a dor. Ele teve um espinho na carne, que lhe foi dado por Deus para o manter humilde e útil. Paulo fez o que qualquer Cristão teria feito – orou para que a dor fosse removida. Deus não atendeu à sua oração, mas respondeu à sua necessidade. Ele deu a Paulo toda a graça de que ele precisava para transformar aquela fraqueza em força, aquele sofrimento em glória. E Deus dar-lhe-á graça a si e a mim se tão-somente rendermos o nosso tudo a Ele.      
São os montículos que te fazem escalar
 Encorajamento para dias difíceis

Warren W. Wiersbe
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