A tua fé na Palavra de Deus é supersticiosa ou inteligente? (8)

C. R. Stam

 

Nenhuma Exceção nos Resultados

     Não somente não havia exceções no que respeitava ao "renunciar a tudo", como não havia igualmente nos resultados obtidos.

     Em todos os três registos da declaração que temos estado a considerar, é enfatizado que todos, sem exceção, que renunciassem a tudo, receberiam mais em troca. Mateus diz assim: “Todo aquele que tiver deixado ... receberá”. Marcos diz: “Ninguém há que tenha deixado ... não receba”. Lucas diz: “Ninguém há, que tenha deixado ... não haja de receber”.

     Nada poderia a ser mais claro. Sob este plano ninguém que fizesse o sacrifício deixaria de obter o resultado – “já neste tempo”.

     Agora, com toda a honestidade, ... estar-se-á a passar isto nos nossos dias com os nossos missionários e obreiros? Não existem centenas de homens e mulheres abnegados que se têm deslocado para lugares distantes e perigosos apenas para passarem toda a sua vida em privação e sofrimento contínuos? Certamente que eles aguardam as suas recompensas na vida vindoura, porém o ponto é que de acordo com a promessa que temos estado a considerar, “cem vezes mais” seria recebido "já neste tempo".

     O facto é que todos os que hoje fazem tais sacrifícios não receberão cem vezes mais em troca “já neste tempo”, nem receberão a vida eterna no mundo vindouro devido ao seu sacrifício. Esta promessa, apesar de ser totalmente verdadeira, não o é a respeito deles, simplesmente porque não lhes foi feita a si.

     Talvez a maior prova de que as condições descritas nesta passagem não se aplicam à presente dispensação se encontre na experiência de Paulo, que Deus usou para introduzir a dispensação da graça. Ele não renunciara a tudo por Cristo? Leiamos cuidadosamente o seu testemunho:

     “Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo.

     “E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como esterco, para que possa ganhar a Cristo” (Fil. 3:7,8).

     Terá o apóstolo recebido alguma espécie de recompensa durante a sua vida? Na verdade, não. Ele escreve aos Coríntios,

     “ATÉ ESTA PRESENTE HORA SOFREMOS FOME E SEDE E ESTAMOS NUS, E RECEBEMOS BOFETADAS, E NÃO TEMOS POUSADA CERTA” (1 Cor. 4:11).     

     Nem esta condição se alterou durante toda a sua vida, pois apesar de terem havido períodos em que ele foi refrigerado com o suprimento das suas necessidades temporais, ele suportou a maior parte do tempo sofrimento e privação até ao fim, até ser decapitado em Roma.

     Nós podemos ver logo que de acordo com o plano resumido pelo Senhor no Seu ministério terreno, os mansos, e apenas os mansos, herdarão a terra. (Mat. 5:5). Mas está claríssimo nas Escrituras que os mansos, hoje, não herdarão a terra. As condições diferentes para o estabelecimento do reino foram adiadas devido a Israel ter rejeitado Cristo e à Terra ainda se encontrar sob o controlo dos “mais baixos dos homens”.

     Sejamos honestos. Se a promessa do "cem vezes mais" já nesta vida, tivesse sido realmente feita a nós, teríamos de enfrentar o chocante facto de ela não ser verdadeira! Contudo, “Sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso”. Não foi o Senhor, mas homens mal instruídos, ainda que sinceros, que erraram, pois por muito que possamos aprender desta passagem - e há nela muito a aprender - a promessa foi feita a outros; não a nós.

     Nós não devemos tratar assim tão desonestamente a Palavra de Deus - tomar para nós algo que nos parece bom e aplicarmo-lo a nós, desrespeitando totalmente quer o contexto bíblico, quer passagens relacionadas, quer factos experimentais claros.

 

Onde a Promessa se Ajusta

     O estudioso cuidadoso das Escrituras notará que esta passagem, como outras que temos considerado nesta série de estudos, principia com uma palavra associativa, uma conjunção aditiva - a palavra "e". Certamente que esta palavra nos envia para os versículos anteriores. Encontramos neles Pedro a dizer,

     “Eis que nós deixámos tudo, e Te seguimos; que receberemos?” (Mat. 19:27).

     Isto era verdade, pois no começo do ministério do Senhor encontramos Pedro e os seus companheiros a abandonarem realmente tudo - a pesca (seu trabalho), entes queridos e tudo - para seguirem a Cristo.

     À pergunta de Pedro o Senhor responde:

     “EM VERDADE VOS DIGO QUE VÓS QUE ME SEGUISTES QUANDO, NA REGENERAÇÃO, O FILHO DO HOMEM SE ASSENTAR NO TRONO DA SUA GLÓRIA, TAMBÉM VOS ASSENTAREIS SOBRE DOZE TRONOS, PARA JULGAR AS DOZE TRIBOS DE ISRAEL.

     “E TODO AQUELE QUE TIVER DEIXADO CASAS, OU IRMÃOS, OU IRMÃS, OU PAI, OU MÃE, OU MULHER, OU FILHOS, OU TERRAS, POR AMOR DO MEU NOME, RECEBERÁ CEM VEZES TANTO, E HERDARÁ A VIDA ETERNA” (Mat. 19:28,29).

     Tem-nos sempre parecido estranho que aqueles que reivindicam o versículo 29 para si não vejam que as bênçãos desse versículo se encontram associadas ao reino de Cristo e dos doze sobre Israel. Se nós podemos alterar o significado do versículo 29 “espiritualizando-o”, não devemos fazer o mesmo com o versículo 28? (Gostaríamos de saber como é que espiritualizariam o versículo 28!). Se por outro lado, o versículo 28 se refere ao reino Messiânico, tal facto não terá peso na interpretação do versículo 29?

     Uma vez isto visto e reconhecido, a passagem torna-se razoável e clara.

     Não é evidente que a ganância de obtenção de coisas que caracteriza “este presente século mau” tem tornado toda a humanidade mais pobre? Enormes depósitos de riquezas jazem assim sem utilidade porque os homens se receiam uns aos outros. Também não é evidente que uma comunidade que possui todas as coisas em comum, em que todos dão o seu tudo aos restantes, será prosperíssima? Porém nós hoje não podemos fazer tal coisa, pois o Messias e o Seu reino foram rejeitados e os poucos desventurados que embarcassem num tal programa conheceriam depressa a pobreza e rir-se-iam deles como loucos.

     Porém no reino não haveria (nem haverá) exceções. Isto é visto no princípio dos Atos onde o reino estava a ser oferecido e os discípulos cheios do Espírito observavam o programa que o Senhor tinha estabelecido.

     “E TODOS os que criam estavam juntos e TINHAM TUDO EM COMUM.

     “E VENDIAM AS SUAS PROPRIEDADES E FAZENDAS, E REPARTIAM COM TODOS, SEGUNDO CADA UM HAVIA DE MISTER” (Atos 2:44,45).

     Algum deles terá ficado mais pobre devido a isso? Na realidade, não!

     “E ERA UM O CORAÇÃO E A ALMA DA MULTIDÃO DOS QUE CRIAM E NINGUÉM DIZIA QUE COISA ALGUMA DO QUE POSSUIA ERA SUA PRÓPRIA, MAS TODAS AS COISAS LHES ERAM COMUNS” (Atos 4:32).

     “NÃO HAVIA POIS ENTRE ELES NECESSITADO ALGUM; PORQUE TODOS OS QUE POSSUIAM HERDADES OU CASAS VENDENDO-AS TRAZIAM O PREÇO DO QUE FORA VENDIDO, E O DEPOSITAVAM AOS PÉS DOS APÓSTOLOS" (Atos 4:34).

     O chamado “Comunismo” dos nossos dias é um disfarce muito pobre deste maravilhoso estado de coisas. Os discípulos estavam já a começar a receber cem vezes mais o seu investimento!

     Notemos que “este tempo” e o “século futuro” são distinguidos um do outro tanto no registo da promessa, que o Senhor faz, em Marcos, como a que faz em Lucas. Durante a Sua ausência, enquanto estivessem a oferecer o reino, era requerida grande fé para se dar continuidade a uma tal vida de sacrifício e dar continuidade aos seus resultados. A plenitude da bênção seguir-se-ia mais tarde quando, no século futuro, Cristo começasse a reinar.

     Também com a sua vida de oração era assim. Foi-lhes prometido tudo o que pedissem em oração, crendo (Mat. 21:22). A apropriação duma tal promessa requeria na realidade fé, como o Senhor lhes tinha sublinhado. Porém aproximava-se o tempo em que

     “ANTES QUE CLAMEM EU RESPONDEREI; ESTANDO ELES AINDA FALANDO EU OS OUVIREI” (Isa. 65:24).[1]

     Certamente que isto se refere ao tempo quando o reino for estabelecido e Cristo reinar.

     Não apenas o contexto imediato, como também toda a passagem que temos estado a considerar derrama luz sobre o seu significado verdadeiro. O Senhor e os Seus apóstolos tinham estado a pregar “o Evangelho do reino” e a clamar, “Arrependei-vos, pois é chegado o reino dos céus” (Mat. 4:17; 9:35; 10:7). Eles não tinham estado a pregar “o Evangelho da graça de Deus”. Deus, que é rico em misericórdia, confiou esta mensagem a Paulo depois do reino ter sido rejeitado. (Atos. 20:24; Efé. 3:1-3). Isto é que confere tal significado à mensagem da graça.

     “PORQUE DEUS ENCERROU A TODOS DEBAIXO DA DESOBEDIÊNCIA, PARA COM TODOS USAR DE MISERICÓRDIA.

     “Ó PROFUNDIDADE DAS RIQUEZAS TANTO DA SABEDORIA COMO DA CIÊNCIA DE DEUS! QUÃO INSONDÁVEIS SÃO OS SEUS JUÍZOS E QUÃO INEXCRUTÁVEIS OS SEUS CAMINHOS” (Rom. 11:32,33).

     Verdadeiramente, “ONDE O PECADO ABUNDOU, SUPERABUNDOU A GRAÇA” (Rom. 5.20).             

     Assim, tanto o contexto imediato como o mediato devem ser tomados em consideração na interpretação de qualquer passagem das Escrituras, e especialmente na interpretação e aplicação de promessas, pois NÃO é verdade que “no Livro todas as promessas são minhas”, excepto no sentido de podermos aprender lições espirituais delas todas.


[1] Ver o panfleto do autor “A ORAÇÃO NÃO RESPONDIDA”.

- Cornelius R. Stam
(Continua)

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