A tua fé na Palavra de Deus é supersticiosa ou inteligente? (3)

C. R. Stam

 

OS RESULTADOS DUMA INVESTIGAÇÃO MAIS COMPLETA

     Estamos bem cientes de que existem os que se têm agarrado de tal forma a certos "versículos tão preciosos" (sobre os quais têm edificado as suas próprias ideias) que o dizer-lhes que um desses versículos não tem o significado que pensam, parece-lhes um sacrilégio. Leia-lhes um desses versículos juntamente com o seu contexto, explique-lhos à sua luz, independentemente de quão lógico e razoável e bíblico possa ser o argumento, sentirão que se lhes está a roubar uma bênção.

     Na realidade, muitos hesitam em enfrentar os factos e estudar tais versículos à luz dos seus contextos; hesitam em inquirir mais profundamente o que é que Deus na realidade disse, por causa deste temor de se lhes roubar a bênção.

     Porém, esse temor não tem fundamento.

     Primeiro de tudo, a verdadeira fé encontra-se fundamentada na revelação de Deus e não na imaginação do homem. Se uma investigação mais a fundo provar que um versículo tem um significado diferente daquele que imaginamos, o nosso desejo de que a nossa interpretação continue de pé não alterará o verdadeiro significado do versículo! Nem alterará o curso da fé agarrado tão tenazmente à ideia que temos do seu significado, porque tal interpretação parece ser preciosíssima! Nós não precisamos de dizer a Deus o que a Sua Palavra diz, ou quer dizer.

     Na verdade, o conhecimento de que o crente tem a mente de Deus, só por si, deve dar-lhe um sentimento de confiança e gozo. Ter a mente de Deus é compreender o que Ele disse.

     No grande reavivamento sob Esdras, a Palavra foi cuidadosamente lida e explicada ao povo, com o seguinte resultado:

     “Então o povo se foi a comer, e a beber, e a enviar porções, e a fazer grandes festas: PORQUE ENTENDERAM as palavras que lhes fizeram saber” (Neem. 8:12).

     É sempre esta a experiência dos que compreendem a Palavra de Deus e a aceitam com fé.

     Mais ainda, é um facto bendito, o facto de um exame mais profundo de qualquer passagem das Escrituras que se não compreende, invariavelmente revelar algo mais bendito do que aquilo que se pensava que a passagem continha!

     Há anos o escritor aplicou a si certos mandamentos do sermão da montanha, que, de facto, não se referiam de forma alguma a ele. Quando ele aprendeu a verdade acerca desses mandamentos não achou ter sido roubado de alguma bênção (ainda que, na verdade, o tivesse sentido a princípio). Pelo contrário, ele só então começou a compreender a razão desses mandamentos e de tanta coisa do programa do reino do Senhor ter parecido tão completamente impossível de se levar a cabo. E com essa compreensão ele começou a ver como é que a mensagem e programa Paulinos se ajustam perfeitamente "a este presente século mau".

     Isto não significa que os seus padrões morais e espirituais tenham de ser diminuídos devido a haver certos mandamentos do Senhor que ele não pode obedecer. Pelo contrário, ele aprendeu que apesar das bênçãos do reino na Terra terem temporariamente dado lugar às trevas deste século, o crente mais humilde nos nossos dias pode, pela fé, ser elevado acima deste pobre mundo, às regiões celestiais à mão direita de Deus, para ser ali abençoado com todas as bênçãos espirituais!

     Roubado? Na verdade, não! A aprendizagem da verdade acerca destes versículos tem-no grandemente enriquecido, pois ele não somente passou a compreender mais claramente o carácter do reino que um dia será estabelecido na Terra, como passou a compreender também mais plenamente as bênçãos maiores que Deus conferiu aos que, neste tempo da Sua rejeição, confiam em Cristo.

     E é assim sempre.

     Na parte restante deste artigo consideraremos alguns casos típicos, examinando mais aprofundadamente versículos que se têm tornado "preciosos" devido a uma errada interpretação dos mesmos. Ao considerarmo-los à luz dos seus contextos e de outras passagens com eles relacionadas, veremos se a compreensão inteligente do que Deus tem na realidade dito nos trará perda ou ganho.

 

PASSAGENS MAL INTERPRETADAS

SALMO 2:8

     “Pede-Me e Eu Te darei as nações por herança, e os fins da terra por Tua possessão”.

     O escritor nasceu numa família missionária e ouviu muitos candidatos ao campo missionário citarem esta porção do Salmo 2:8 como uma promessa missionária - uma promessa que em resposta à oração os pagãos seriam ganhos para Cristo. E ainda hoje os missionários usam esta passagem da mesma forma, enfatizando especialmente as palavras "Pede-me".

      Que a promessa foi feita ao Senhor Jesus Cristo não é geralmente revelado em tais casos, mas mesmo quando este facto é reconhecido, a promessa ainda continua a ser aplicada à obra missionária neste século.

     Contudo, uma vista de relance ao contexto provará a qualquer inquiridor honesto que esta promessa não tem nada a ver com este século ou com a dispensação da graça de Deus.

     Os que têm usado esta passagem como uma promessa missionária podem certamente não ter considerado muito cuidadosamente as palavras que se seguem imediatamente. Pegam num versículo completamente fora do seu contexto e tomam-no para si, simplesmente porque os tem tocado como uma "bela promessa missionária". Porém, com o seguinte, este versículo soa assim:

     “Pede-Me e Eu Te darei as nações por herança, E OS FINS DA TERRA POR TUA POSSESSÃO.

     “TU OS ESMIGALHARÁS COMO UMA VARA DE FERRO; TU OS DESPEDAÇARÁS COMO A UM VASO DE OLEIRO”.

     Será que isto soará o "ganhar" os pagãos para Cristo? Certamente que não. O quadro aqui é de juízo e não de graça - de subjugação e não de reconciliação.

     Na realidade, todo o contexto é de juízo.

     Os primeiros quatro versículos do Salmo expressam estupefação perante a loucura da rebelião do homem contra Deus e o Seu Ungido e descrevem um Deus ofendido a rir-se perante os seus esforços vãos de progresso sem Ele. E o versículo 5 continua a dizer:

     “ENTÃO LHES FALARÁ NA SUA IRA E NO SEU FUROR OS CONFUNDIRÁ”.

     A isto segue-se, no versiculo 6, a voz do Pai, que diz:

     “EU PORÉM UNGI O MEU REI SOBRE O MEU SANTO MONTE DE SIÃO”.

     “Porém” - a despeito dos Seus inimigos - Ele estabelecerá Cristo como Rei.

     A isto o Seu Filho responde nos versículos seguintes:

     “RECITAREI O DECRETO: O SENHOR ME DISSE: TU ÉS MEU FILHO, EU HOJE TE GEREI.

     “PEDE-ME E EU TE DAREI AS NAÇÕES POR HERANÇA, E OS FINS DA TERRA POR TUA POSSESSÃO.    

     “TU OS ESMIGALHARÁS COM UMA VARA DE FERRO; TU OS DESPEDAÇARÁS COMO A UM VASO DE OLEIRO”.

     A isto o Espírito Santo responde por Sua vez com uma palavra de aviso e exortação aos reis e juízes da Terra a fim de que cessem a sua rebelião e confiem em Cristo para que não pereçam "quando em breve se inflamar a Sua ira".

     A dádiva das nações a Cristo, então, refere-se à subjugação das nações e não à conversão de indivíduos.

     Para que nenhum dos nossos leitores ponha isto ainda em dúvida, indicamos-lhes a última passagem nas nossas Bíblias onde estes versículos são aludidos - Apo. 19:11-21.

     Uma vez mais o quadro é todo de juízo. O Senhor aparece na Sua verdadeira entrada triunfal, não "dócil" e assentado num jumento, mas

     “EIS UM CAVALO BRANCO: E O QUE ESTAVA ASSEUTADO SOBRE ELE CHAMA-SE FIEL E VERDADEIRO; E JULGA E PELEJA COM JUSTIÇA” (Ver. 11).

     Os Seus olhos são “como chama de fogo”. Ele está “vestido duma veste salpicada de sangue”. Os exércitos que estão no céu seguem-no.

     “E DA SUA BOCA SAÍA UMA AGUDA ESPADA, PARA FERIR COM ELA AS NAÇOES; E ELE AS REGERÁ COMO VARA DE FERRO; E ELE MESMO É O QUE PISA O LAGAR DO VINHO DO FUROR E DA IRA D0 DEUS TODO PODEROSO.

     “E NO VESTIDO E NA SUA COXA TEM ESCRITO ESTE NOME: REI DOS REIS, E SENHOR DOS SENHORES” (Vers. 15,16).

     É a isto que o segundo Salmo se refere, e enquanto não virmos isto não poderemos começar a apreciar as maravilhas da dispensação da graça de Deus.

     O juízo de Israel e das nações será - e é - a resposta de Deus à rebelião do mundo. Na profecia não existe qualquer indício acerca dum período de graça. De acordo com a profecia a rejeição de Cristo seria seguida pelo derramamento da ira de Deus, O Salmo 110 diz:

     “DISSE O SENHOR AO MEU SENHOR: ASSENTA-TE À MINHA MÃO DIREITA ATÉ QUE PONHA OS TEUS INIMIGOS POR ESCABELO DOS TEUS PÉS” (Ver, 1).

     Também na grande profecia de Joel 2, Pentecostes é seguido pela grande tribulação.

     Na profecia é sempre assim, pois os profetas não só nada disseram como nada sabiam acerca da mistério do propósito e graça de Deus.

     O facto que tanto nos comove é que Deus, na sua infinita misericórdia, tenha interrompido o programa profético, suspendido o juízo profetizado e introduzido a dispensação da graça, sob a qual os Seus inimigos em toda a parte recebem como dádiva a oferta da reconciliação pela graça, por meio da fé no Cristo rejeitado.

     Acerca disto aprendemos, não nos Salmos mas, nas epístolas do apóstolo Paulo, a quem esta dispensação foi primeiramente confiada. (Ver Efé. 3:1-4). E é esta maravilhosa oferta de reconciliação que nós devemos proclamar nos nossos dias aos pagãos. (Ver 2 Cor. 5:18-21).

- Cornelius R. Stam
(Continua)

A tua fé na Palavra de Deus é supersticiosa ou inteligente? (1)
A tua fé na Palavra de Deus é supersticiosa ou inteligente? (2)
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