A tua fé na Palavra de Deus é supersticiosa ou inteligente? (1)

C. R. Stam

 

O COMPLEMENTO DA GRAÇA

     Existem duas palavras que caraterizam duma forma especial os tratos de Deus com os homens na presente dispensação - duas grandes palavras. Uma é a palavra graça e a outra a palavra ; graça de Deus para com o homem e do homem para com Deus; graça conferindo salvação gratuitamente e aceitando-a alegremente. Cada uma delas é essencial à salvação - a graça da parte de Deus e a da nossa parte.

     Para a salvação Deus não requer obras, nem rezas, nem lágrimas; Ele não exige um bom “cadastro”, nem um bom carácter, mas tão somente fé. Ele quer que os homens confiem n'Ele. Não obstante o passado, ou mesmo o presente, Ele salva graciosa e gloriosamente todo aquele que confia n'Ele.

     “Ora, sem fé é impossível agradar-Lhe: porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que Ele existe, e que é galardoador dos que O buscam” (Heb. 11:6).

     Ele não força a salvação dos descrentes; Ele oferece-a para que a aceitem, pois a graça e a fé andam juntas. Uma é o complemento da outra. A graça ; a fé recebe.

     "PORQUE PELA GRAÇA SOIS SALVOS, POR MEIO DA FÉ ...” (Efé. 2:8).

 

A FÉ VEM PELO OUVIR

     Todavia, a fé em Deus deve necessariamente começar com fé na Palavra de Deus. Não pode haver fé em Deus fora da revelação Divina.

     Ouve-se algumas vezes dizer “ver para crer”, mas isso é precisamente o oposto à verdade. É quando os homens não creem que pedem para ver - e depois de verem não necessitam mais de crer! “Porque o que alguém vê como o esperará?” (Rom. 8:24). “Porque andamos por fé, e NÃO por vista” (2 Cor. 5:7).

     A frase, “Ver para crer”, é em si uma indicação de incredulidade.

     “De sorte que a fé pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Deus” (Rom. 10:17 e cf. João 5:24 e Efé. 1:13).

     Nós cremos o que ouvimos (de Deus) e ouvimos o que foi dito (por Deus). Tomar Deus à letra na Sua palavra é o que é a fé.

 

FÉ INTELIGENTE Versus SUPERSTIÇÃO

     Com a onda de incredulidade que se ergue à nossa volta, está a tornar-se cada vez mais precioso o contacto com outros que têm fé em Deus - não meramente fé de que um Deus, mas fé em Deus, e na Sua Palavra.

     Contudo é um triste facto, o facto de a maioria de mesmo estes compreenderem realmente tão pouco da Palavra de Deus. Compreendem os factos simples, básicos, necessários à salvação, mas parecem ficar bastante satisfeitos como ignorantes das preciosas verdades que, se procurassem descobri-las, os tornariam obreiros que Deus aprova, que não necessitam de se envergonhar do seu serviço para Ele. (Ver 2 Tim. 2:15).

     Porém muitos, em vez de estudarem para conseguirem uma compreensão melhor da Palavra de Deus e se tornarem exercitados no seu uso, gloriam-se de não terem conseguido obter mais do que "as coisas simples"!

     E isto, depois das fervorosas orações de Paulo para que os crentes tivessem o espírito de sabedoria e de revelação no conhecimento d'Ele; os olhos do seu entendimento iluminados, a fim de serem capacitados a compreenderem e a conhecerem “o amor de Cristo que excede todo o entendimento” e serem “perfeitos e completos em toda a vontade de Deus”! Isto, depois de todo o seu labor e luta e conflito para que os filhos de Deus tivessem “a plena certeza da compreensão” e de toda a sua reprovação aos bebés carnais aos quais ele não podia pregar mais do que “Jesus Cristo, e Este crucificado”; aos quais ele só podia alimentar com leite porque não podiam digerir alimento sólido! (Ver 1 Cor. 2:1-7; 3:1,2; Efé.1:15-23; 3:14-21; Col. 1:9-12, 26-29; 2:1-3 e 4:12).

     É deplorável que muitos que se consideram muito espirituais não passem de meros emocionais que se deveriam envergonhar da sua indiferença para com a Palavra de Deus escrita em vez de se orgulharem do seu contentamento com as “coisas simples”, pois apesar de dizerem que possuem uma fé fervorosa em Deus, dificilmente se preocupam em descobrir o que é que Deus disse precisamente! Não meditam na Palavra de Deus de dia e de noite como David, nem como os profetas “inquirem e tratam diligentemente”, quanto ao seu verdadeiro significado.

     A consequência disto é uma “fé” que emana da mais crassa ignorância. Os factos são confundidos com os sentimentos e os desejos do homem com a Palavra de Deus, até que o que é suposto ser fé se transforma numa superstição cega que não pode fazer outra coisa senão desagradar e desonrar a Deus.

 

EXEMPLOS

     À nossa volta há exemplos de tudo isto.

     Recentemente, ouvimos alguém insistir numa má aplicação das Escrituras com a seguinte exclamação, "Se está na Bíblia creio!“

     Para os seus ouvintes tal declaração pode ter parecido evidenciar uma fé firme na Palavra de Deus. Contudo, na realidade, denunciava ignorância e superstição.

     A Bíblia (apesar de ser um registo exalado por Deus) não é meramente um livro de dizeres verídicos!

     O cavalheiro em questão esqueceu-se, ou não sabia, que a Bíblia regista um sem número de mentiras, que grande parte dela não é dirigida a nós, mas a outros de outras dispensações, e que as coisas ordenadas numa passagem podem ser positivamente proibidas noutra, como por exemplo a comparação de Levítico com Gálatas revela de imediato.

     É verdade que toda a Escritura é dada por inspiração de Deus e é proveitosa. De Génesis a Apocalipse, ensina-nos grandes lições morais e espirituais, De Génesis a Apocalipse, revela-nos a natureza e os atributos de Deus e inspira confiança sobre a Sua santidade, fidelidade e amor.

     Mas apesar de, nesse sentido, a Bíblia ser toda para nós, certamente que não diz toda respeito a nós. A ignorância deste facto básico conduzirá a uma confusão enormíssima.

     Quantos crentes há que usam a Bíblia como uma espécie de amuleto! Abrem-na ao acaso e ao acaso apontam para um versículo da passagem aberta, lendo-o para verem se porventura podem encontrar a guia do Senhor dessa forma. Se o versículo indicado não parece ter nada a ver com o seu caso particular tentam de novo, e assim repetidas vezes, até que “resulte”.

     Uma jovem senhora contou-nos certa ocasião a história da sua “chamada” para a obra missionária entre os Judeus. Depois de ter orado durante muito tempo pela guia do Senhor, num determinado dia, ela abriu a sua Bíblia ao acaso para ver se encontrava um versículo que indicasse a vontade de Deus para a sua vida. Quando a abriu os seus olhos fixaram-se na “velha passagem”,

     “Não ireis pelo caminho das Gentes, nem entrareis em cidade de Samaritanos;

     "Mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mateus 10:5,6).

     Ao ler estas palavras ela deduziu imediatamente que devia ser uma missionária para os Judeus!

     Aparentemente não lhe ocorreu que o mesmo mandamento proibia-a de testemunhar aos Gentios!

     Nós não duvidamos da sinceridade desta jovem e que o Senhor, tolerando graciosamente a sua falha, possa ter abençoado o seu ministério em alguma medida, mas um tal uso da Palavra de Deus não O honra e priva qualquer pessoa do manejo eficaz da Espada do Espírito.

     Muitos usam as “caixas das promessas” da mesma forma, na base de que “todas as promessas no Livro são minhas”.

     Uma mãe, num lar, decide eventualmente começar o dia com uma promessa. Ela tira então uma da caixa que diz o seguinte:

     “Não temerás espanto noturno, nem seta que voe de dia” (Salmo 91:5).

     Apreensivamente, de sobrolho franzido, ela murmura consigo mesma, "Estou desejosa por saber o que vai acontecer hoje!" Contudo, depois de refletir um pouco mais, conforta-se a si mesma ao lembrar-se de que o versículo diz, "Não temerás!".

     E, ah, um tal uso das Escrituras é muitas vezes encorajado de cima do próprio púlpito, por homens que deveriam ser ensinadores da Palavra.

     Há já algum tempo ouvimos um pregador itinerante exclamar:

     “Há alguns que dizem, 'Isto é para os Judeus e aquilo é para a Igreja. Isto é para nós e aquilo não é para nós.' Eu cá tomo a Bíblia toda!”

     É claro que tal declaração é enganadora.

     Ele quereria dizer que nós não devemos distinguir o programa de Deus para os Judeus do Seu programa para o Corpo de Cristo? Decerto que não. Quereria ele dizer que os que assim dividem a Palavra da verdade não creem em toda a Bíblia? Não, mas deu essa impressão. Ele desencorajou o estudo dispensacional da Bíblia ao implicar que tal estudo põe de parte certas porções da Bíblia. Certamente que declarações destas e outras afins tendem a privar os crentes do estudo definido da Bíblia com vista ao manejo correto da Palavra da verdade.

     E ah, existem outros - sim, no púlpito - que fazem declarações de completa ingenuidade. Parece ser um princípio eles tentarem viver em conformidade com qualquer versículo em qualquer parte na Bíblia, quando lhes é diretamente aplicável.

     O que quer que seja que a Bíblia diga, eles aplicam - ou tentam aplicar - a si mesmos, qualquer que seja o contexto; que é coisa com que não se importam. Se não fizer sentido, atribuem-lhe um sentido à sua maneira. 'Espiritualizam-na'. Se tal for manifestamente impossível, passam simplesmente para uma outra passagem que possa ajustar-se mais prontamente ao seu caso.

     Descobrindo “passagens preciosas” por todo o lado, não se importando com quando, porque, ou a quem foram dirigidas, edificam as suas próprias construções sobre elas e reivindicam-nas como promessas de Deus para eles!

     Pegar em declarações isoladas de escritos de homens e usá-las desta maneira significa desonestidade. É triste que hajam ensinadores bíblicos que façam o mesmo com a Palavra de Deus!

     Não nos enganemos! O uso da Palavra de Deus desta forma é completamente desautorizado, e se entre os leitores está alguém que se sinta culpado desta prática ilegítima que desonra Deus, rogamos-lhe, com amor Cristão, que a suspenda sem demora.

- Cornelius R. Stam
(Continua)

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