A tua fé na Palavra de Deus é supersticiosa ou inteligente? (2)

C. R. Stam

 

ENTENDES TU O QUE LÊS?

     Quando um Etíope se assentou a examinar o capítulo 53 de Isaías, tentando sondar o seu significado, o Senhor chamou Filipe, tirando-o duma grande campanha evangelística, para que fosse ter com ele e lhe explicasse a passagem.

     “E, correndo Filipe, ouviu que lia o profeta Isaías, e disse: Entendes tu o que lês?” (Actos 8:30).

     Já alguma vez ocorreu ao leitor que apenas pode crer numa determinada porção da Palavra de Deus depois de a compreender?

     Não fique chocado com esta asserção. Pense nela.

     Para realmente crermos no que Deus disse temos de primeiro compreender o que é que Ele disse.

     É verdade que podemos crer numa passagem apesar de poder haver muitas coisas acerca dela que não compreendemos. Podemos não compreender a sua lógica, ou como reconciliá-la com outras passagens, ou até como é que a declaração em si pode ser assim - e crer nela apesar disso. Mas se não compreendermos o que a passagem diz, como é que podemos crer nela?

     Podemos crer de coração que um determinado versículo é Palavra de Deus sem o compreendermos, mas não podemos crer no versículo se não compreendermos o que diz.

     Ilustremos:

     Eis um homem que vem a correr para me dizer que a minha casa está a arder.

     Se o compreendo tanto posso crer como duvidar da sua palavra. Porém, se não compreendo o que disse, como é que posso crer ou duvidar dele? Mais, posso muito bem crer que o que uma pessoa disse é a sua palavra, e não crer nela!

     Lembremo-nos então e nunca nos esqueçamos que Deus não fica satisfeito com a nossa mera crença de que a Bíblia é a Sua Palavra, Ele quer que creiamos nela como Sua Palavra. E uma tal fé só pode vir depois duma compreensão inteligente daquilo que Ele disse.

     Por outras palavras, é Seu desejo que, compreendendo plenamente o que Ele disse, creiamo-lo de coração.

 

COMPREENSÃO ESPIRITUAL

     Todavia não deve ser suposto que uma pessoa de intelecto médio ou até mesmo superior pode alcançar uma compreensão inteligente da Palavra de Deus, pois lemos na própria Palavra:

     “O  homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente" (1 Cor. 2:14).

     Era por isso que o Apóstolo Paulo orava tão fervorosamente para que os crentes a quem ele ministrava tivessem “compreensão espiritual” a fim de compreenderem as gloriosas verdades que ele foi comissionado a proclamar.

     Não será que nos deveremos unir a ele em oração por nós mesmos e por todos os crentes, e não será que deveremos orar fervorosamente, para na verdade podermos ser aprovados por Deus, obreiros que não têm que se envergonhar, que manejam bem a Palavra da verdade?

     Mais, se, de acordo com 2 Tim. 2:15, Deus aprova os Seus obreiros por "manejarem bem a Palavra da verdade", não deveremos começar por "aprovar as coisas excelentes, (ou, que diferem)" (Fil. 1:10, Outra versão), notando cuidadosamente a quem é que a passagem foi escrita, e quando e porquê?

     Se não obedecermos a este princípio básico da interpretação da Bíblia seremos obrigados a encontrar passagens, nas Escrituras, que são completamente incompatíveis e contraditórias.

     Por exemplo, Salomão diz, "Vai ter com a formiga, ó preguiçoso; olha para os seus caminhos, e sê sábio" (Prov. 6:6-8). Argumentando com o argumento de que nem sempre é verão - que os temporais do inverno são certos, ele aconselha os sábios e os diligentes a fazerem provisões para o futuro, dando a entender que os que não o fazem são preguiçosos e loucos.

     Não obstante isso, O Senhor, no Seu sermão da montanha, ensinou precisamente o contrário, exortando os Seus seguidores a não se preocuparem com as necessidades do amanhã e dizendo, “Considerai os corvos, que ... não têm dispensa nem celeiro, e Deus os alimenta” (Lucas 12:22-34).

     Ou, mais resumidamente:

     Salomão diz: Considera a formiga. Ela armazena para o futuro.

     O Senhor diz: Considera os corvos. Eles não armazenam para o futuro. Apesar disso Deus cuida deles.

     Teremos que admitir aqui uma contradição no ensino das Escrituras? Ou, como certo comentador, somos fanáticos ao ponto de fecharmos os olhos perante as dificuldades, "e procuramos extrair as lições que podemos, de ambas as passagens"?

     Uma coisa é certa. Não podemos praticar ambos os programas ao mesmo tempo.[1]

     Outro exemplo: logo no primeiro livro da Bíblia a circuncisão é ordenada com a declaração enfática de que qualquer macho que não for circuncidado seria “extirpado” do povo de Deus (Gén. 17:11-14). No Velho Testamento também é ensinado que mesmo os Gentios que desejavam aproximar-se de Deus tinham de respeitar este concerto e submeterem-se à circuncisão (Ver Isa. 56:6,7).

     Não obstante isso, Paulo escreve aos crentes Gálatas, dizendo, “Eis que eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará”.

     Será uma outra contradição?

     De forma alguma. Paulo escreveu muito depois de Moisés e foi comissionado a introduzir uma nova dispensação“a dispensação da graça de Deus”. (Efé. 3:1,2).

     Paulo não contradiz os escritos de Moisés. Ele admite que o concerto da lei esteve já em vigor, quando diz:

     “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar.

     “De maneira que a lei nos serviu de aio, par a nos conduzir a Cristo, para que pela fé fossemos justificados.

     “Mas, depois que a fé veio, já não estamos debaixo de aio” (Gálatas 3:23-25).

     Assim, ao reconhecer-se as mudanças dispensacionais no programa de Deus; ao se reconhecer “as coisas que diferem”, resolvem-se facilmente problemas, doutra forma difíceis. E - à parte do grau de incredulidade - a única alternativa a esta compreensão inteligente das Escrituras é uma “fé” tão cega e supersticiosa que nem é digna do nome; uma “fé” que impõe o seu próprio significado àquilo que tem sido claramente escrito; uma “fé” que substitui a vontade de Deus pela vontade do homem e interpreta os factos bíblicos com fantasias humanas.


[1] Ver o panfleto do autor, “A Formiga e o Corvo”.

- Cornelius R. Stam
(Continua)

A tua fé na Palavra de Deus é supersticiosa ou inteligente? (1)
A tua fé na Palavra de Deus é supersticiosa ou inteligente? (2)
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