A tua fé na Palavra de Deus é supersticiosa ou inteligente? (5)

C. R. Stam

 

LUCAS 12:31,32

“Buscai antes o reino de Deus, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.

“Não temas, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o reino”.

Eis aqui uma outra passagem que é mal interpretada quase universalmente, apesar de essa má interpretação ser, no seu carácter, mais geral do que especifica, e os resultados serem vagos e ambíguos.

Em princípio os termos “o reino” e “o reino de Deus", em si, não dizem respeito ao estabelecimento do reino do Messias sobre a terra, porém negamos que seja assim nesta passagem; e isto dizemo-lo com toda a certeza.

Em primeiro lugar, os que espiritualizam esta passagem e a aplicam aos crentes hoje, ensinando que a Igreja é o reino espiritual de Cristo na terra, têm que necessariamente encontrar dificuldades em ser consistentes com a sua interpretação aqui.

Será que nós deveremos buscar o reino, estando já nele?

E que significaria Ele com o dar-nos o reino?

Estas palavras são, assim, interpretadas duma forma geral.

Geralmente o versículo 31 é ensinado como significando que nós devemos buscar as coisas de Deus, precisamente como Paulo nos instrui a “buscar as coisas que são de cima”.

Contudo, com o versículo 32 a ideia é totalmente alterada para um pensamento de vitória espiritual, nomeadamente, que apesar dos crentes estarem em minoria, Deus auxiliá-los-á.

Porém isso não é consistente, pois estes dois versículos andam de mãos dadas. No versículo 31 o Senhor exorta os Seus discípulos a buscarem o reino de Deus, não as coisas de Deus, e no versículo 32 Ele promete que o Pai dar-lhes-á o reino, não uma vitória espiritual.

Pelas razões que a seguir discriminaremos, cremos que em ambos os casos o reino aludido é o prometido no Velho Testamento - o reino de Deus sobre a Terra, com Cristo como Rei.

Primeiro, isto concorda com o contexto.

Anjos, homens inspirados pelo Espírito e o próprio Senhor, tinham proclamado o estabelecimento do reino sobre a Terra há muito prometido. (Ver Lucas 1:32,33,67-75; 2:13,14,30-32; 11:2).

O próprio Senhor fez uma promessa especifica aos Seus doze apóstolos a respeito deste reino, impossível de se aplicar à Igreja deste século.

Mat. 19:28: “E Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo que vós, que Me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do Homem Se assentar no trono da Sua gloria, TAMBÉM VOS ASSENTAREIS SOBRE DOZE TRONOS, PARA JULGAR AS DOZE TRIBOS DE ISRAEL”.

Depois de João Baptista e do Senhor terem, em vão, procurado fruto na nação favorecida, o Senhor disse aos líderes de Israel,

“Portanto Eu vos digo que O REINO DE DEUS VOS SERÁ TIRADO, E SERÁ DADO A UMA NAÇÃO QUE DÊ OS SEUS FRUTOS” (Mat. 21:43).

Notemos cuidadosamente que este reino seria dado a “uma nação”, não às nações. Além disso seria dado a uma nação que desse os frutos do reino.

A que nação se referiria Ele? Decerto que a nenhuma das nações Gentílicas. Ele referia-se ao remanescente crente, o pequeno rebanho de Seus seguidores, sobre o qual Ele já colocara doze príncipes líderes. É por isso que em Lucas 12:32 Ele diz,

“NÃO TEMAS Ó PEQUENO REBANHO, PORQUE A VOSSO PAI AGRADOU DAR-VOS O REINO”.

E Ele cumprirá a Sua promessa. O reino TIRADO aos líderes de Israel incrédulos ainda será DADO aos doze apóstolos e ao pequeno rebanho “na regeneração, quando o Filho do Homem se assentar no trono da Sua glória”.

E esta interpretação também concorda com o contexto imediato, pois em Lucas 12 o Senhor exorta os Seus - que tinham deixado tudo para O seguirem - a nunca se preocuparem com as necessidades do amanhã. Ele chama a atenção deles para os corvos, que não têm dispensa nem celeiro e apesar disso são amplamente alimentados por Deus. Ele recorda-lhes que os lírios, sem trabalhar nem fiar, estão mais gloriosamente vestidos do que Salomão em todo o seu esplendor, e promete-lhes que de forma semelhante Deus cuidará deles.

Ora, apesar destas exortações nos certificarem a todos do cuidado terno e fiel de Deus pelos Seus, sob outras circunstâncias tais exortações encontrar-se-iam deslocadas.

Tudo isto foi dito tendo em vista o estabelecimento do reino que Ele agora os exortava a “buscar” com a promessa de que se eles O buscassem em primeiro lugar, todas as outras coisas lhes seriam acrescentadas. (Ver. 31, cf. Mat. 6:33).

Quando o Senhor enviou pela primeira vez os doze a pregar o Evangelho do reino, ordenou-lhes rigorosamente:

“NÃO POSSUAIS OURO, NEM PRATA, NEM COBRE EM VOSSOS CINTOS”  (Mat.10:9).

Além disso foi quando Pedro recordou ao Senhor "Eis que nós deixámos tudo e Te seguimos", que Ele retorquiu prometendo aos apóstolos doze tronos no reino.

E os discípulos são agora incluídos com os apóstolos quando os exorta a “buscar” o reino, certificando-lhes que é beneplácito do Pai a "dádiva" do reino a eles.

Não é significativo que os que aplicam prontamente Lucas 12:31,32 a si mesmos, raras vezes continuam, citando o que o Senhor continuou a dizer, a saber,

“VENDEI O QUE TENDES, E DAI ESMOLAS ...” (Ver. 33).

Aos seguidores do Senhor não somente lhes foi dito para proclamar o reino e para orar por este, como para igualmente o praticar. O versículo 33 harmoniza perfeitamente com os dois versículos anteriores, mas não parece harmonizar com as práticas dos que clamam estar agora a “buscar o reino”!

Em vez de explicarmos vagamente em aspectos gerais esta passagem, devemos reconhecer que esta tem especificamente a ver com o reino prometido. Nós, agora, sabemos que este reino foi rejeitado e que o seu estabelecimento aguarda um dia futuro. A paz e a prosperidade do milénio ainda não foram estabelecidas, nem, neste “presente século mau” nos é dado qualquer mandamento semelhante ao que os discípulos receberam.

Na realidade, negligenciar providenciar para o futuro, nos nossos dias, significa negar a fé:

“MAS SE ALGUÉM NÃO TEM CUIDADO DOS SEUS, E PRINCIPALMENTE DOS DA SUA FAMÍLIA, NEGOU A FÉ, E É PIOR DO QUE O INFIEL (DESCRENTE)”.

Num outro artigo esperamos mostrar como é que o “pequeno rebanho” começou a ter tudo em comum, depois da ressurreição, e como é que não lhes faltava nada - até se ter tornado evidente que Israel tinha uma vez mais voltado as costas ao Messias e que o reino não seria ainda estabelecido. Daí em diante encontramos a igreja em Antioquia, as igrejas na Macedónia e Acaia, as igrejas na Galácia e a igreja em Corinto, a enviar, todas as suas ofertas para ajudar “os santos pobres em Jerusalém”.

Apesar da Terra não ser ainda um cenário de paz e prosperidade universais, sabemos, graças a Deus, que o nosso bendito Senhor Se tornou pobre por amor de nós, para que através da Sua pobreza nós pudéssemos ser enriquecidos, e com as maiores bênçãos que existem. É por isso que clamamos com Paulo:

“BENDITO O DEUS E PAI DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, O QUAL NOS ABENÇOOU COM TODAS AS BÊNÇÃOS ESPIRITUAIS NOS LUGARES CELESTIAIS EM CRISTO” (Efé.1:3).

- Cornelius R. Stam
(Continua)

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