Como Não Perder a Sua Alma (IV)

J. C. Ryle

     A QUARTA e última observação que tenho a fazer é esta: A ALMA DE QUALQUER HOMEM PODE SER SALVA.

     Eu bendigo a Deus por o Evangelho de Cristo permitir-me proclamar estas boas notícias e proclamá-las livremente e incondicionalmente a todos os que leem estas páginas. Eu bendigo a Deus, pois após todas as importantes coisas que tenho dito, posso concluir com uma mensagem de paz. Não poderia suportar a terrível responsabilidade de dizer aos homens que todos têm uma alma — que todo mundo pode perder a sua alma — que a perda da alma é uma perda que nada pode superar — se não pudesse também proclamar que a alma de qualquer homem pode ser salva.

     Eu penso que é possível que esta proclamação soe assustadora a alguns leitores. Lembro-me do tempo em que soou assustadora a mim. Mas estou convencido de que não é nem mais nem menos do que a voz do Evangelho de sempre, e não tenho vergonha de torná-lo conhecido a todos os que têm ouvidos para escutar. Eu digo com convicção que há salvação no Evangelho para o maior dos pecadores. Eu digo confiantemente que qualquer um e todos podem ter as suas almas salvas. Sei que todos nós somos pecadores por natureza — decaídos, culpados, corruptos, cobertos de pecado. Eu sei que Deus, a quem teremos que prestar contas, é Santo de olhos puros para contemplar a iniquidade, e Alguém que não pode ignorar o que é mau. Sei também que o mundo em que nos encontramos é um mundo difícil para a parte espiritual. É um mundo cheio de cuidados e problemas, de descrença e impureza, de oposição e ódio a Deus. É um mundo em que a parte espiritual é como algo estranho — um mundo que tem uma atmosfera que faz a parte espiritual definhar. Porém, apesar de tudo isso, e da dureza deste mundo, e da santidade de Deus, e da nossa pecaminosidade, digo que qualquer um e todos podem ser salvos. Qualquer homem e qualquer mulher pode ser salvo da culpa, do poder e das consequências do pecado, e ser encontrado à mão direita de Deus em glória infinita.

     Eu imagino ouvir algum leitor exclamar: “Como pode ser?”. Não é nenhuma surpresa fazer essa pergunta. Este é o grande nó que filósofos gentios nunca puderam desatar. Este é o problema que todos os sábios da Grécia e de Roma nunca solucionaram. Esta é a questão que nada pode responder além do Evangelho do Senhor Jesus Cristo. Esta resposta do Evangelho eu desejo colocar, agora, diante de si.

     Eu proclamo, então, com toda a confiança, que a alma de qualquer pessoa pode ser salva, (1) porque Cristo um dia morreu. O Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, morreu em uma cruz para fazer a expiação dos pecados dos homens. “Pois também Cristo sofreu pelos pecados uma vez por todas, o Justo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus” (1 Pedro 3.18). Cristo suportou os nossos pecados em Seu próprio corpo no madeiro e recebeu a maldição que todos nós merecíamos e que caiu sobre a Sua cabeça. Cristo, por meio da Sua morte, satisfez a santa lei de Deus que nós desobedecemos. Aquela morte não foi uma morte comum; não foi apenas um mero exemplo de abnegação; não foi meramente a morte de um mártir, assim como foram as mortes de Ridley, Latimer e Cranmer. A morte de Cristo foi um sacrifício e uma propiciação pelo pecado do mundo todo. Foi a morte vicária de um substituto Todo Poderoso, Garantia e Representante dos filhos de homem. Ela pagou o nosso enorme débito para com Deus. Abriu as portas do Céu para todos os crentes. Forneceu uma fonte para todo pecado e contaminação. Permitiu a Deus ser justo e, ainda assim, ser o Justificador dos ímpios. Conquistou a reconciliação com Ele. Ela obteve paz perfeita com Deus para todo aquele que vem até Ele por meio de Jesus. As portas da prisão abriram-se quando Jesus morreu. A liberdade foi proclamada a todos os que sentem a servidão do pecado e desejam ser libertos.

     Eu interrogo-me: a quem todo esse sofrimento era devido, o qual Jesus resistiu no Calvário? Porque o santo Filho de Deus foi tratado como um malfeitor, considerado um transgressor, e condenado a uma morte tão cruel? Em nome de quem aquelas mãos e aqueles pés foram pregados na cruz? Em favor de quem foi o Seu lado perfurado com a lança? Por quem é que aquele sangue precioso foi vertido? Porque motivo tudo isso foi feito? Foi feito por si! Foi feito pelos pecadores, pelos ímpios! Foi feito voluntariamente e sem restrições — não por compulsão — por causa do amor pelos pecadores e a fim de fazer a expiação dos pecados. Certamente, então, visto que Cristo morreu pelos ímpios, eu tenho o direito de proclamar que qualquer um pode ser salvo.

     Além disso, eu proclamo com toda a confiança que qualquer um pode ser salvo, (2) porque Cristo ainda vive. O mesmo Jesus que um dia morreu pelos pecadores ainda vive à direita de Deus, para continuar o trabalho da salvação para o qual Ele desceu do Céu para realizar. Ele vive para receber todos os que vierem até Deus por meio dele, e para dar-lhes poder para se tornarem filhos de Deus. Ele vive para ouvir a confissão de toda consciência pesada e garantir, como um Sumo-Sacerdote todo-poderoso, perfeita absolvição. Ele vive para derramar o Espírito de adoção em todo aquele que crê n’Ele e para permitir que eles exclamem “Abba, Pai”. Ele vive para ser o único Mediador entre Deus e o homem, o Intercessor incansável, o bom Pastor, o Irmão mais velho, o Advogado predominante, o Sacerdote infalível e Amigo de todos os que vêm até Deus por meio d’Ele. Ele vive para ser a sabedoria, justiça, santificação e redenção para todo o Seu povo — a fim de mantê-los vivos, apoiá-los na morte e trazê-los, finalmente, para a glória eterna.

     Por quem, imagino eu, o Senhor Jesus Cristo está assentado à direita de Deus? Pelos filhos dos homens. Exaltado no Céu e cercado por uma glória indescritível, Ele ainda se importa com aquele trabalho poderoso que assumiu quando nasceu na manjedoura de Belém. Ele não está levemente alterado. Ele está sempre com a mesma mente. Ele é o mesmo homem que andou pela costa do mar da Galileia. Ele é o mesmo homem que perdoou Saulo, o Fariseu, e o enviou a fim de pregar a fé que um dia destruiu. Ele é o mesmo homem que recebeu Maria Madalena, chamou Mateus, o publicano, trouxe Zaqueu para debaixo da árvore e fez deles exemplos do que a Sua graça poderia fazer. E Ele não mudou. Ele é o mesmo ontem, hoje e para sempre. Certamente eu tenho o direito de dizer que qualquer um pode ser salvo, visto que o Senhor Jesus Cristo vive.

     Mais uma vez eu proclamo, com toda a confiança, que qualquer um pode ser salvo, (3) porque as promessas do Evangelho de Cristo são completas, gratuitas e incondicionais. “Vinde a Mim”, diz o Salvador, “todos aqueles que estão cansados e sobrecarregados e Eu lhes darei descanso”“Quem crê no Filho tem a vida eterna; já quem rejeita o Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele”“Quem vier a Mim eu jamais rejeitarei” — “Todo o que olhar para o Filho e n’Ele crer terá a vida eterna”“Se alguém tem sede, venha até Mim e beba”“Quem quiser beba de graça a água da vida” (Mateus 11:28; João 3:15, 18, 6:37, 40, 47, 7:37; Apocalipse 22:17).

     A quem foram ditas estas palavras? Elas foram destinadas apenas aos Judeus? Não: também aos Gentios! Elas foram destinadas apenas às pessoas de antigamente? Não: às pessoas de todas as épocas! Elas foram destinadas apenas à Palestina e à Síria? Não: ao mundo todo, a todo nome, nação, povo e língua! Elas foram destinadas apenas aos ricos? Não: tanto aos pobres como aos ricos! Elas foram destinadas apenas aos muito morais e corretos? Não: foram destinadas a todos, ao maior dos pecadores, ao mais repugnante dos criminosos, a todos os que O receberem! Certamente quando eu trago à mente essas promessas, tenho o direito de dizer que todo e cada homem pode ser salvo. Qualquer um que ler estas palavras, e não for salvo, não poderá culpar o Evangelho. Se está perdido, não é porque não pudesse ser salvo. Se está perdido, não é porque não houvesse perdão para os pecadores, nenhum Mediador, nenhum Sumo-Sacerdote, nenhuma fonte aberta para o pecado e para a imoralidade, nenhuma porta aberta. É porque escolheu trilhar o seu próprio caminho, porque quis se apegar aos seus pecados, porque não quis vir a Cristo para que, n’Ele, pudesse ter vida.

     Eu não escondo o meu objetivo em lançar este artigo. O desejo do meu coração e minha oração a Deus por si é que a sua alma possa ser salva. Este é o grande objetivo pelo qual todo ministro fiel é ordenado. Este é o fim para que pregamos, falamos e escrevemos. Queremos que almas possam ser salvas. Eles não sabem o que dizem, aqueles que nos acusam com motivos mundanos, e nos dizem que apenas desejamos avançar na nossa ordem e promover o ofício de ser ministro. Nós não sabemos nada sobre estes sentimentos. Que Deus possa perdoar aqueles que nos acusam de tais coisas! Nós trabalhamos por objetivos grandiosos. Desejamos que almas sejam salvas! Amamos a Igreja da Inglaterra: sentimos grande afeição pelo seu Livro de Oração Comum, os seus 39 Artigos, suas Homilias, as suas Formas de Culto a Deus. Mas existe algo que sentimos ainda mais: desejamos que almas sejam salvas. Queremos arrancar algumas pessoas do fogo. Desejamos ser instrumentos honrados nas mãos de Deus ao levar algumas almas ao conhecimento de Jesus Cristo, nosso Senhor.

- J. C. Ryle

Como Não Perder Sua Alma (I)
Como Não Perder Sua Alma (II)
Como Não Perder Sua Alma (III)
Como Não Perder Sua Alma (IV)
Como Não Perder Sua Alma (V)

 

 

 

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