Como Não Perder a Sua Alma (I)

J. C. Ryle

     “POIS, QUE ADIANTA AO HOMEM GANHAR O MUNDO INTEIRO E PERDER A SUA ALMA?” (Mc 8.36).

     O dito do nosso Senhor Jesus Cristo, que está no início desta página, deve soar em nossos ouvidos como o soar de uma trombeta. Ele trata dos nossos mais elevados e melhores interesses. ELE TRATA DAS NOSSAS ALMAS.

     Mas que pergunta solene contêm essas palavras da Escritura! Que soma poderosa de lucro e prejuízo elas nos apresentam para cálculo! Onde está o contador que poderia calculá-la? Onde está o aritmético inteligente que não poderia ficar perplexo com essa soma? — “POIS, QUE ADIANTA AO HOMEM GANHAR O MUNDO INTEIRO E PERDER A SUA ALMA?”.

     Eu desejo oferecer algumas simples observações, a fim de reforçar e ilustrar a pergunta que o Senhor Jesus faz na passagem diante de vós. Eu chamo a atenção de todos os que estão a ler este artigo. Que todos os que resolverem prestar atenção possam sentir mais profundamente — mais do que jamais sentiram — o valor de uma alma imortal! DESCOBRIR O VALOR DAS NOSSAS ALMAS É O PRIMEIRO PASSO EM DIREÇÃO AO PARAÍSO.

     A PRIMEIRA observação que devo fazer é esta: TODOS NÓS TEMOS UMA ALMA IMORTAL.

     Não me envergonho de começar a minha dissertação com estas palavras. Eu ouso dizer que elas parecem estranhas e tolas para alguns leitores. Eu ouso dizer que alguns dirão: “Quem não sabe essas coisas? Quem poderia duvidar de que temos almas?”. No entanto, não posso esquecer que o mundo agora fixa a sua atenção em coisas materiais a um nível ainda maior. Nós vivemos numa era de progresso — uma era de motores a vapor e maquinaria, de locomoções e invenções. Vivemos numa era em que a multidão está crescentemente entusiasmada com as coisas terrenas — com ferrovias e docas, minas, comércio, bancos, compras, algodão, milho, ferro e ouro. Vivemos numa era em que há um falso brilho nas coisas do tempo e uma grande névoa sobre as coisas da eternidade. Numa era como essa, é dever dos ministros de Cristo voltar aos primeiros princípios. A necessidade se faz presente. Ai de nós se não fizermos esta pergunta do nosso Senhor acerca da alma! Ai de nós se não clamarmos: “O mundo não é tudo. A vida que agora vivemos na carne não é a única vida. Há uma vida por vir. Nós temos almas”.

     Vamos estabelecer nas nossas mentes, como um grande facto, que todos carregamos em nosso âmago algo que nunca irá morrer. Este nosso corpo, a que dedicamos os nossos pensamentos e tempo para aquecê-lo, vesti-lo, alimentá-lo e deixá-lo confortável; este corpo simplesmente não representa todo o homem. Ele não é nada além do alojamento de um nobre inquilino, e esse inquilino é a alma imortal! A morte que cada um de nós irá ter um dia para morrer não é o fim do homem. Não está tudo acabado quando o último respiro se aproxima e a última visita do médico é paga; quando o caixão desce e as preparações para o funeral são feitas, quando a frase “as cinzas às cinzas e o pó ao pó” já foi dita sobre a sepultura, quando o nosso lugar no mundo é preenchido, e o vazio causado pela nossa ausência da sociedade não é mais percebido. Não: não está tudo acabado quando isso acontece! O espírito do homem ainda vive. Todos têm dentro de si uma alma que não morre.

     Eu não me detenho a fim de provar isto. Seria uma mera perda de tempo. Há uma consciência em todos os seres humanos que vale mais do que mil argumentos metafísicos. Há uma voz interior que fala muito alto às vezes, e que será ouvida; a voz que nos diz, quer gostemos ou não, que temos, cada um de nós, uma alma imortal. Porque, então, não podemos enxergar as nossas almas? Não existem milhões de coisas as quais não podemos ver a olhos nus? Quem, que já olhou por um telescópio ou microscópio, pode duvidar disso? Porque, então, não podemos ver as nossas almas? Podemos senti-las. Quando estamos sozinhos, doentes na cama, e o mundo se fechou para nós, quando vemos um amigo no leito de morte, quando vemos aqueles que amamos descerem à sepultura: em situações como essas, quem não conhece os sentimentos que vêm à nossa mente? Quem não sabe que, em horas como essas, algo surge em nosso coração, dizendo-nos que há uma vida por vir, e que todos — do mais elevado ao menor — têm uma alma imortal?

     Pode andar por todo o mundo e tomar provas de todas as eras e tempos. Nunca receberá nada além de uma única resposta sobre isso. Encontrará algumas nações enterradas em uma superstição degradante, e loucas por ídolos. Encontrará outras naufragadas em uma sombria ignorância, e totalmente não familiarizadas com o Deus verdadeiro. Mas não encontrará uma nação ou povo que, em seu meio, não haja alguma consciência de que há uma vida por vir. Os templos desertos do Egito, da Grécia e de Roma, as ruínas druídicas da nossa própria terra natal, os esplêndidos templos pagãos do Subcontinente Indiano, a adoração supersticiosa da África, as cerimónias de funeral dos chefes da Nova Zelândia, as tendas de feiticeiros entre as tribos norte-americanas; todas, todas falam com a mesma voz e contam a mesma história. Dentro do coração humano, debaixo de todo o lixo amontoado pela Queda, há uma inscrição que nada pode apagar, dizendo-nos que este mundo não é tudo, e que todos nós temos uma alma imortal.

     Eu não me detenho a fim de provar que os homens têm almas, porém eu peço a cada leitor deste texto que mantenha isto em sua mente. Pode ser que o seu espaço esteja no meio de alguma cidade ocupada. Vê à sua volta uma luta sem fim a respeito de coisas temporais. Correria, agitação e negócio vai cercando-o por todos os lados. Eu posso bem acreditar que é tentado às vezes a pensar que esse mundo é tudo e que o corpo é tudo com o que deve se importar. No entanto, resista à tentação e a lance para longe de si. Diga a si mesmo toda manhã, ao se levantar, e toda noite quando for deitar: “A moda desse mundo passa. A vida que hoje vivo não é tudo. Há algo além de negócios, dinheiro, prazer e comércio. Há uma vida por vir. Todos nós temos almas imortais”.

     Eu não me detenho a fim de provar essa questão, mas eu peço que cada leitor perceba a dignidade e responsabilidade de se ter uma alma. Sim, perceba: em sua alma tem o maior talento que Deus lhe confiou . Saiba que em sua alma tem uma pérola acima de qualquer valor que, comparada a todas as posses mundanas, torna-as como ninharia leves como o vento. O cavalo que vence o Derby ou o St. Leger chama a atenção de milhares: pintores registam-no e gravadores em metal gravam-no, e grandes somas em dinheiro tornam-se suas conquistas. Ainda assim, a criancinha mais fraca na família de um operário é muito mais importante aos olhos de Deus do que este cavalo. O espírito do animal desce, mas aquela criancinha tem uma alma imortal. As obras nas nossas grandes exposições são visitadas por multidões admiradas: pessoas olham maravilhadas para elas e falam com entusiasmo sobre as “obras imortais” de Rubens, Ticiano e outros grandes mestres. No entanto, não há imortalidade alguma nessas coisas. A terra e todas as suas obras serão queimadas. O bebezinho que chora em um sótão e não sabe nada sobre arte durará mais do que todas essas obras, pois ele tem uma alma que não morrerá jamais. Haverá um tempo em que as pirâmides e o Parthenon ir-se-ão desmoronar, quando o Castelo de Windsor e a Abadia de Westminster irão ser postos abaixo e desaparecerão, quando o sol deixará de brilhar e a lua não mais fornecerá a sua luz. Porém a alma do mais humilde trabalhador é feita de material muito mais duradouro. Ela irá sobreviver ao desmantelamento de um universo expirante, e viverá por toda a eternidade. Perceba, eu repito, a responsabilidade e a dignidade de possuir uma alma que nunca morrerá. Pode ser pobre neste mundo; mas tem uma alma. Pode ser doente e fraco no seu corpo; mas tem uma alma. Pode não ser um rei ou uma rainha, ou um duque ou um conde; mas ainda assim tem uma alma. É com a nossa alma que Deus se preocupa em especial. A alma é “o homem”.

“O valor do guinéu está no ouro,
E não no selo posto sobre ele”.

- J. C. Ryle

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