Como Não Perder a Sua Alma (III)

J. C. Ryle

     Uma TERCEIRA observação que desejo fazer é esta: A PERDA DA ALMA DE QUALQUER HOMEM É A MAIS ALTA PERDA QUE ELE PODE SOFRER.

     Eu sinto-me incapaz de prolongar esse assunto como deveria. Nenhum homem pode mostrar a extensão da perda de uma alma. Ninguém é capaz de ilustrar essa perda com detalhes. Não: nunca entenderemos até que nós passemos pelo vale da sombra da morte e acordemos no outro mundo! Até lá, nunca saberemos o valor de uma alma imortal.

     Devo dizer que nada é capaz de compensar a perda da alma nesta vida. Pode ter todas as riquezas do mundo — todo o ouro da Austrália e da Califórnia, todas as honras que o seu país lhe pode dar. Pode ser dono de meio mundo. Pode ser aquele a quem reis se satisfazem em honrar e a quem as nações olham com admiração. Mas por todo esse tempo, se estiver a perder a sua alma, é pobre aos olhos de Deus. As suas honras durarão apenas alguns anos. As suas riquezas, no fim, ficarão cá. “Nus viemos ao mundo e nus o deixaremos”. Não terá um coração leve nem uma consciência alegre a menos que a sua alma seja salva. De todo o seu dinheiro e as suas terras não levará nada consigo quando morrer. Um pouco de terra será suficiente para cobrir o seu corpo quando a sua vida acabar. E então, se sua alma se perder, ficará pobre por toda a eternidade. Verdadeiramente não adianta nada ao homem ganhar o mundo todo se ele perder a sua alma.

     Eu posso dizer que quando uma alma é perdida não há nada que possa ser feito. Uma vez perdida, está perdida para todo o sempre. A perda de uma propriedade pode ser recuperada neste mundo. A perda de saúde e caráter não são sempre irreparáveis. Mas nenhum homem que deu o seu último suspiro pode recuperar a sua alma perdida. As Escrituras revelam-nos que não há um purgatório abaixo da cova. As Escrituras ensinam-nos que, uma vez perdidos, estamos perdidos para sempre. Verdadeiramente um homem descobrirá que não há nada que ele possa dar para tomar a sua alma de volta e redimi-la.

     Contudo, eu sinto profundamente que argumentos como esses estão muito aquém do nível desse assunto. A hora em que iremos descobrir de verdade quanto vale uma alma ainda não chegou. Devemos olhar muito além. Devemos imaginar de uma posição diferente da que ocupamos agora, antes que façamos uma estimativa correta do que estamos a considerar. O cego não pode entender um cenário belo. O surdo não pode apreciar uma boa música. O homem não pode perceber completamente a maravilhosa importância de um mundo por vir.

     Algum leitor deste artigo deseja ter uma leve ideia acerca do valor de uma alma? Então vá e mensure-o a partir da opinião de pessoas que estão a morrer. A solenidade da última cena remove os enfeites e o fingimento das coisas e faz os homens verem-nas como de facto são. O que os homens fariam, então, pelas suas almas? Tenho visto algo sobre isso, como ministro Cristão. Raramente, muito raramente, encontrei pessoas descuidadas, despreocupadas e indiferentes quanto ao mundo que está por vir na hora da morte. O homem que sabe contar boas histórias e cantar boas músicas a fim de alegrar aqueles à sua volta, torna-se muito sombrio quando começa a sentir que a vida está a deixar o seu corpo. O vanglorioso infiel em tal momento geralmente lança fora a sua infidelidade. Homens como Paine e Voltaire têm frequentemente mostrado que a sua filosofia gloriosa se quebra quando a cova está à sua vista. Não me diga o que um homem pensa sobre a alma quando está em plena saúde; diga-me, ao invés disso, o que ele pensa quando o mundo se afunda abaixo dele, e a morte, o julgamento e a eternidade aproximam-se. As grandes realidades de nosso ser então pedirão atenção e deverão ser consideradas. O valor da alma à luz do tempo é uma coisa, mas visto à luz da eternidade, é outra muito diferente. Nunca um homem soube o valor da alma tão bem como quando está a morrer e não pode mais acompanhar o mundo.

     Alguém deseja ter uma ideia mais clara acerca do valor da alma? Então vá e mensure-o a partir das opiniões dos mortos. Leia no décimo sexto capítulo de Lucas, a parábola do homem rico e Lázaro. Quando o rico acordou no inferno e em tormentos, o que ele disse a Abraão? “Envia Lázaro a casa de meu pai: pois eu tenho cinco irmãos — que pode testemunhar-lhes, a fim de que não venham também para este local de tormento”. Aquele homem rico provavelmente pensava pouco ou nada acerca da alma dos outros enquanto viveu sobre a terra. Uma vez morto e em lugar de tormento, ele vê as coisas como realmente são. Então ele pensa em seus irmãos e começa a se importar com a sua salvação. Então clama: “Envia Lázaro a casa de meu pai. Tenho cinco irmãos. Deixa-o testemunhar-lhes”. Essa parábola ensina-nos o que os homens pensam quando acordam no outro mundo. Ela levanta um pouco do véu que está sobre o mundo que está por vir e dá-nos uma pequena ideia do que os mortos pensam acerca do valor da alma.

     Alguém deseja ter uma ideia clara sobre o valor de uma alma? Então vá e mensure-o a partir do preço que foi pago por ela há cerca de 2000 anos. Que preço enorme e incontável que foi pago! Nenhum ouro, nenhuma prata, nem diamantes jamais foram encontrados em número suficiente para prover redenção: nenhum anjo no céu foi capaz de trazer um resgate. Nada além do sangue de Cristo; nada além da morte do eterno Filho de Deus na cruz, foi suficiente para comprar a libertação da alma do Inferno. Vá ao Calvário em espírito e considere o que aconteceu ali quando o Senhor Jesus morreu. Veja o abençoado Salvador sofrendo na cruz. Marque o que acontece ali quando Ele morre. Veja como houve trevas por três horas na face da terra. A terra treme. As pedras são arrancadas. As sepulturas são abertas. Ouça as suas últimas palavras. “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”. Então veja toda a maravilhosa transação que lhe pode dar uma ideia do valor da alma. Nessa cena terrível nós testemunhamos o pagamento do único preço que havia de suficiente para redimir a alma dos homens.

     Todos nós iremos compreender o valor da alma se não o compreendermos agora. Que Deus garanta que ninguém que leia este artigo o compreenda tarde demais. Um manicómio é uma visão lamentável. Retorce o coração ver naquele prédio triste um homem que outrora teve uma grande fortuna, mas que foi desperdiçada e que o trouxe a uma insanidade irremediável proveniente da bebida. Um naufrágio é uma visão lamentável. É melancólico ver um corajoso navio, que outrora “andava sobre as águas como algo muito comum”, encalhado em uma costa rochosa, com uma tripulação naufragada e uma carga pela praia. Mas de todas as visões que podem afetar os olhos e entristecer o coração, não conheço nenhuma tão lamentável quanto a visão de um homem arruinando a sua própria alma. Não é surpresa que Jesus tenha chorado quando se aproximou de Jerusalém pela última vez. Está escrito que “quando se aproximou e viu a cidade, Jesus chorou sobre ela” (Lucas 19:41). Ele conhecia o valor das almas, se os Escribas e os Fariseus não conheciam. Podemos aprender a partir das lágrimas d’Ele — se não podemos aprender a partir de mais nada — o valor da alma de um homem e a quantidade de perda que ele enfrentará se esta alma for lançada fora.

     Rogo a todo o leitor deste artigo, no tempo que se chama hoje, que abra os seus olhos para o valor da sua alma. Perceba o quão terrível é perder uma alma. Esforce-se para conhecer a real preciosidade desse poderoso tesouro confiado a si. O valor de todas as coisas mudará bastante um dia. A hora chegará em que as notas de um banco não valerão mais do que papel usado, e ouro e diamantes serão como a poeira das ruas, quando o palácio dos nobres e a casa de campo do camponês irão igualmente cair ao chão, quando ações e fundos irão todos tornarem-se invendáveis e a graça, a fé e a boa esperança não serão mais subestimadas e desprezadas. Nessa hora, descobrirá, de um jeito que nunca descobriu antes, o valor da alma imortal. A perda da alma será então vista como a maior de todas as perdas e a conquista da alma será a maior das conquistas. Busque conhecer o valor da alma agora. Não seja como a Rainha Egípcia que, numa ostentação estúpida, tomou uma pérola de grande valor, dissolveu-a no ácido e depois a bebeu. Não perca, como ela, a “pérola de grande poder” que Deus lhe confiou. Uma vez perdida, nenhuma perda se pode comparar à perda da alma.

- J. C. Ryle

Como Não Perder Sua Alma (I)
Como Não Perder Sua Alma (II)
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