Como Não Perder a Sua Alma (II)

J. C. Ryle

     A SEGUNDA observação que eu tenho a fazer é esta: QUALQUER UM PODE PERDER A SUA PRÓPRIA ALMA.

     Esta é uma parte pesarosa do meu discurso. Porém é algo que eu não ouso e não posso ignorar. Não tenho compaixão alguma daqueles que professam nada além de paz e afastam dos homens o terrível facto de que eles podem perder as suas almas. Eu sou um daqueles ministros à moda antiga que creem na Bíblia inteira, e tudo o que ela contém. Não consigo encontrar nenhum fundamento bíblico para tal teologia de fala suave, que agrada a tantos atualmente e segundo a qual todos irão para o paraíso no fim de tudo.

     Eu creio que há um diabo real. Eu creio que há um Inferno real. Eu creio que não é caridade afastar dos homens a informação de que eles se podem perder. Caridade! Devo chamar dessa forma? Se visse um homem bebendo veneno, manteria a sua paz? Caridade! Devo chamá-la assim? Se visse um homem bêbado cambaleando em direção a um precipício, não iria gritar “Pare”? Afaste-se com essas falsas ideias de caridade! Não assassinemos a graça bendita, usando o seu nome com um falso sentido. É da mais alta caridade trazer a verdade santa diante dos homens. É a verdadeira caridade alertá-los completamente quando eles estão em perigo. É caridade marcá-los com o facto de que podem perder as suas almas para sempre no Inferno.

     O homem tem em si uma maravilhosa força para o mal. Fracos como somos em tudo aquilo que é bom, temos uma força poderosa para fazermos mal a nós mesmos. Não é capaz de salvar a sua própria alma, meu irmão, lembre-se disso! Não pode, por si só, fazer as pazes com Deus. Não pode se livrar de um único pecado. Não pode remover uma das anotações negras que ficam no livro de Deus contra si. Não é capaz de mudar o seu próprio coração. No entanto, há algo que pode fazer: pode perder a sua própria alma.

     Mas isso não é tudo. Não apenas podemos todos nós perder as nossas próprias almas, como estamos todos num risco iminente de perdê-las. Nascidos em pecado e mortos em transgressões, não temos olhos para enxergar a cova que boceja abaixo de nós, nem temos noção da nossa culpa e do nosso perigo. E, ainda assim, as nossas almas estão em terrível perigo por todo esse tempo! Se qualquer pessoa fosse navegar para a América em um barco furado, sem bússola, sem água, sem provisões, quem não veria que haveria pouca hipótese de navegar pelo Atlântico em segurança? Se estivesse para colocar o diamante Koh-i-noor nas mãos de uma criancinha e lhe mandasse que o segurasse desde a Torre Hill até Bristol, quem não perceberia a probabilidade desse diamante não chegar a salvo ao fim dessa jornada? Ainda assim, esses são exemplos tolos do imenso perigo em que nós estamos por natureza de perdermos as nossas almas.

     Entretanto, alguns podem perguntar: “Como pode um homem perder a sua alma?”. Há muitas respostas a essa pergunta. Assim como existem muitas doenças que assaltam e machucam o corpo, também existem muitos males que assaltam e danificam a alma. Contudo, não importa quão numerosas possam ser as maneiras em que um homem possa perder a sua alma, essas podem ser classificadas sob três pontos principais. Deixe-me apontá-las rapidamente.

     Pode assassinar a sua alma correndo para o pecado deslavado e servindo a prazeres e desejos. Adultério e fornicação, embriaguez e festas, blasfémia, …, desonestidade e mentira, tudo isso são atalhos para a perdição. “Ninguém vos engane com palavras tolas, pois é por causa dessas coisas que a ira de Deus vem sobre os que vivem na desobediência” (Efésios 6:6).

     Pode envenenar a sua própria alma, assumindo uma falsa religião. Pode intoxicá-la com tradições inventadas por homens e cercar-se de cerimónias e observâncias que nunca vieram dos céus. Pode mimá-la com soníferos que entorpecem a consciência, mas que não curam o coração. Estricnina e arsénio farão o seu trabalho quase tão bem quanto a pistola e a espada, embora com menos barulho. Não deixe nenhum homem enganá-lo. “Tome cuidado com os falsos profetas”. Quando os homens entregam as suas almas a líderes cegos, ambos caem na valeta. Uma falsa religião é quase tão arruinadora quanto religião nenhuma.

     Pode matar a sua alma de fome com leviandades e indecisão. Pode estar ocioso pela vida com um nome no seu registo de batismo, mas não estar inscrito no Livro da Vida do Cordeiro — com uma forma de religiosidade, mas sem poder. Pode brincar ano após ano, não se interessando nem um pouco pelo que é bom e ficar contente com um sorriso forçado para as inconsistências de professores académicos, gabando-se por não ser preconceituoso, um homem festeiro, ou um professor académico; ficará “tudo bem” com a sua alma no fim de tudo. “Ninguém vos engane com palavras tolas”. A indecisão é simplesmente tão destruidora para a alma como uma falsa religião ou religião nenhuma. O rio da vida nunca deve parar. Quer esteja dormindo ou acordado, está a descer rio abaixo. Está a ficar cada vez mais próximo da corredeira. Em breve passará pelas cachoeiras e, se morrer sem uma fé decidida, naufragará por toda a eternidade.

     Estas são as três formas principais pelas quais pode perder a sua alma. Será que alguém que está a ler este artigo sabe quais dessas três formas está a escolher? Busque e veja se está ou não a perder a sua alma.

     Mas será que dá muito trabalho arruinar uma alma? Ah, não! É uma descida morro abaixo. Não há nada que as suas mãos tenham que fazer. Não há necessidade de esforço. Apenas deve sentar-se quieto e fazer o que os outros fazem no círculo no qual a providência de Deus o colocou — nadar com a maré, flutuar pelo rio abaixo, seguir a multidão — e o tempo da misericórdia, terá passado para sempre! “Largo é o caminho que leva à perdição”.

     Mas há muitos, irá perguntar, que estão a perder as suas almas? Sim, de facto há! Não olhe para as inscrições e epitáfios em covas, se deseja encontrar a resposta verdadeira a esta pergunta. Como Dr. Watts diz, elas são:

     “Ensinadas a exaltar e a mentir”.

     Pensa-se que todos os homens foram respeitáveis e “boas pessoas” assim que morrem. Mas veja a Palavra de Deus e guarde bem o que ela diz. O Senhor Jesus Cristo declara “Entre pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela” (Mateus 7.13-14).

     No entanto, quem é o responsável pela perda das nossas almas? Ninguém além de nós mesmos. O nosso sangue será posto em cima das nossas próprias cabeças. A culpa repousará na nossa própria porta. Nós não teremos nada a pleitear no último dia, quando estivermos diante do grande trono branco e os livros forem abertos. Quando o Rei entrar para ver os Seus convidados, e disser: “Amigo, como entra, não tendo roupa apropriada a um casamento?”. Nós ficaremos mudos. Não teremos nenhuma desculpa para implorar pela perda das nossas almas.

     Mas para onde a alma vai quando se perde? Há apenas uma resposta importante a essa pergunta. Não há mais do que um lugar para onde ela pode ir, e esse lugar é o Inferno. Não existe destruição total. A alma perdida vai para o lugar em que os vermes não morrem e o fogo não se consome; onde há escuridão e trevas, desgraça e desespero para sempre. Ela vai para o Inferno, o único local para onde será recebida, uma vez que não será recebida pelo paraíso. “Que fruto colheram então das coisas das quais agora se envergonham? O fim delas é a morte!” (Romanos 6.21).

     Deixe-me dizer que vários de nós, ministros, temos muitos medos acerca de muitos que professam e se chamam Cristãos. Tememos para que não percam, no final de tudo, as suas preciosas almas. Tememos que aquele grande impostor, Satanás, os engane, desviando-os da salvação, e os deixe cativos à sua vontade. Tememos que acordem na eternidade e encontrem-se perdidos para sempre! Tememos, pois vemos tantos vivendo em hábitos pecaminosos, tantos estando em formas e cerimónias que Deus nunca exigiu, tantos vagando com toda a religião e, no entanto, tantos, em resumo, arruinando as suas almas. Vemos todas essas coisas e temos medo.

     É apenas por sentir que almas estão em perigo que escrevo este texto e convido os homens a lê-lo. Se eu cresse que não houvesse Inferno, não escreveria como eu o faço agora. Se eu cresse que, de qualquer forma, todos iriam para o Céu, eu conseguiria ter paz e deixá-los em paz. Mas não ouso fazer isso. Eu vejo perigo à frente e eu alegremente alerto cada homem a fugir da ira vindoura. Eu vejo o risco de naufrágio e acenderia um farol e pediria que todos procurassem um porto seguro. Não rejeite a minha exortação. Examine o seu próprio coração: descubra se está caminhando com destino à perdição ou à salvação. Procure e veja como algumas questões se colocam entre si e Deus: não cometa a enorme loucura de perder a sua própria alma. Vivemos numa era de grande tentação. O diabo está a cercar e está ocupado. A noite está quase a acabar. O tempo é curto. Não perca a sua alma.

- J. C. Ryle

Como Não Perder Sua Alma (I)
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