O Estado dos Mortos (II)

Mas para onde vão exatamente a alma e o espírito? A resposta do Velho Testamento encontra-se na palavra sheol. Apesar desta palavra ser só traduzida por sepulcro, inferno ou cova, o seu significado real é interrogação. É o lugar dos defuntos ou do desconhecido. Eles simplesmente não sabiam nada sobre o que acontecia naquele lugar. Que essa palavra possa significar sepultura não discutimos, mas negamos que só signifique sepultura. Em 1 Samuel 28:7–19, o rei Saul buscou a ajuda de uma médium. Ela foi autorizada a convocar Samuel. No versículo 15, Samuel disse: “…Por que me desinquietaste, fazendo-me subir?” Obviamente, Samuel estava consciente e a residir em algum lugar.
Nos Salmos, David disse do Senhor:
“Pois não deixarás a minha alma no inferno [Gr. hades], nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” (Salmo 16:10).
O lugar em que o Senhor não foi deixado chama-se sheol. Sheol era um lugar com dois compartimentos que cada um deles continha respetivamente as almas dos perdidos e dos salvos. O Novo Testamento também acrescenta mais luz. A palavra do Novo Testamento equivalente a sheol é a palavra hades. Esta palavra é traduzida por inferno dez vezes e sepultura uma vez. Hades é o lugar que é referido na impressionante história do rico e de Lázaro, onde é dito que o rico está no inferno ou hades.
O Senhor também disse em Mateus 16:18 que as portas do inferno, ou hades, não prevalecerão contra ela (a Igreja do Reino) edificada sobre Ele - a rocha! A principal questão sobre o hades é: “As almas ali estão conscientes ou inconscientes?” Nós cremos que estão conscientes. Alguns, tentando provar o estado inconsciente dos mortos, têm tentado fazer com que o sheol e o hades referem-se sempre à sepultura. Dessa doutrina, alguns desenvolveram a ideia do sono da alma. Como já temos assinalado, a implicação da Escritura é que aqueles que se encontram no estado intermediário estão de facto conscientes. Creio que uma passagem muito pertinente em relação ao estado consciente dos mortos é a história do rico e de Lázaro. Em Lucas 16:19–21 o Senhor relatou uma história que adverte os homens do juízo final de Deus sobre a incredulidade para com a Palavra de Deus. Uma das inferências claras aqui é que aqueles que perecerem por terem rejeitado o ensino das Escrituras estão separados da bênção de Deus e numa condição de sofrimento. Isto dá uma visão clara do estado da alma entre a morte e a ressurreição. No contexto geral, vemos que o Senhor estava a repreender a justiça própria e a incredulidade dos Fariseus.
No decorrer de todo o capítulo 14 vemo-Lo lidar com os Fariseus. Em Lucas 16:13–18 o Senhor repreendeu diretamente a sua cobiça e sua desobediência à Palavra de Deus, apesar de afirmarem guardar a lei. Mas nos versículos 19–31 o Senhor deu aos fariseus o mais severo aviso de todos. Embora alguns tenham sugerido que essa parte é apenas um relato do Senhor repetindo um erro dos fariseus para os humilhar (uma espécie de sátira), o Senhor nunca repreendeu o erro dessa maneira. Outros dizem que este registo é apenas uma fábula e não tem referência a factos reais. Mas isso não pode ser verdade porque o Senhor não relacionou, de forma alguma, esses eventos como sendo fictícios. Pelo contrário, eles são relacionados como sendo reais e constituem um aviso direto aos Fariseus. Mesmo que chamemos a este registo de parábola, devemos ter o cuidado de observar que as parábolas sempre se basearam na verdade. As parábolas nunca foram fábulas. Lucas 16 não deixa dúvidas de que se trata de uma história verdadeira que representa ideias verdadeiras e consequências reais, seja parábola ou não. Eu prefiro classificar este registo como sendo uma história.
O leitor é exortado a ler esta passagem com cuidado e a observar algumas das seguintes coisas. Primeiro, há uma consequência muito real, assustadora, para alguns dos ouvintes desta história. Depois, no versículo 20, apenas o mendigo é tratado pelo nome. Os versículos 22 e 23 relatam que ambos morreram e foram para os seus respetivos lugares. A implicação não é a de que os ricos vão para o inferno e os pobres vão para o Céu, mas que o rico, como muitos fariseus, não aceitou a Palavra de Deus (cf. versos 29 e 31) e, portanto, não recebeu bênçãos. Ele não foi salvo e foi autoindulgente, vivendo em justiça própria, luxo e cobiça. Ele não amava claramente o próximo como a si mesmo. O mendigo, por outro lado, era obviamente alguém que havia sido salvo durante o tempo da sua vida e recebeu bênçãos após sua morte.
Creio que devemos ter consciência que esta história ensina o estado consciente das pessoas, entre a morte e a ressurreição.
Nós percebemos que algumas das coisas na passagem são metafóricas da verdade que transmitem. Lázaro estava no seio de Abraão, o que significa a alegria de Abraão ou o lugar de alegria para os judeus salvos. Também notamos que são mencionados dedos e olhos e língua, mas isso foram simplesmente formas de mostrar que aquele era um estado de plena consciência. Vemos que neste lugar chamado hades o rico estava em tormento, Lázaro foi consolado, e entre eles havia um grande abismo estabelecido. Notamos ainda que não houve mudança nas circunstâncias em que eles se encontravam. O rico não tinha absolutamente nenhuma esperança de libertação; o seu destino eterno foi fixado no momento da sua morte.
Deste modo, os Fariseus estavam a ser informados de que se continuassem na justiça própria e incredulidade, certamente iriam para um lugar de eterno tormento consciente logo que morressem. Esta passagem sustenta categoricamente o estado consciente dos mortos, seja entre a morte e a ressurreição, seja na eternidade, e coloca claramente fim aos ensinamentos do sono da alma entre a morte e a ressurreição, assim como a qualquer pensamento de aniquilacionismo, isto é, que os mortos simplesmente sejam extintos ou deixem de existir. Esta passagem também não indica o menor indício de purgatório. Não existe ensinada em nenhum lugar da Palavra de Deus tal doutrina como a do purgatório, um ensinamento da Igreja Católica Romana. Segundo eles, alguns homens vão para o purgatório onde podem desfazer a sua punição e, finalmente, irem para o Céu. Mas as Escrituras são claras mostrando que a crença no Evangelho enquanto na Terra é a única maneira que uma pessoa poder ser salva. O Senhor Jesus disse:
“... se não crerdes que Eu sou, morrereis em vossos pecados” (João 8:24).
Outro versículo importante que ensina o estado consciente dos mortos é Mateus 22:32. Ali o Senhor diz:
"... Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos."
O que o Senhor está a ensinar aqui diz respeito diretamente à ressurreição, mas a implicação é clara de que nenhum espírito dorme após a morte. Também vemos isso em João 8:56, onde o Senhor diz:
“Abraão, vosso pai, exultou por ver o Meu dia, e viu-o, e alegrou-se.”
Além disso, o Senhor disse ao ladrão na cruz:
“… Hoje estarás comigo no paraíso (Lucas 23:43).
Este homem estaria consciente e com o Senhor depois da morte naquele mesmo dia.
Assim como vimos a existência de um estado intermédio tanto para os salvos como para os perdidos, segundo a profecia, as Epístolas Paulinas também nos mostram a esperança do crente hoje em estar com o Senhor imediatamente após a morte:
“Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor” (2 Coríntios 5:8).
Percebemos que este contexto geral fala sobre o ser revestido da nossa casa não feita por mãos que é eterna, nos céus. Trata-se do nosso corpo ressurreto que nós receberemos quando este tabernáculo ou tenda que é nossa casa atual for dissolvido. O princípio aqui não deixa espaço para o sono da alma.
Pelo contrário, estamos confiantes de que, apesar de estarmos ausentes quanto ao estarmos fisicamente com Ele agora, logo que nos ausentarmos deste corpo estaremos presentes com Ele enquanto aguardamos o recebimento dos nossos corpos glorificados. Paulo diz a mesmíssima coisa em Filipenses, onde ele fala de Cristo sendo engrandecido no seu corpo, seja pela vida, seja pela morte:
“Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho” (Filipenses 1:21).
Que ganho poderia haver em morrer se tal significasse um estado inconsciente? Paulo fala de um ganho que é o resultado da presença com o Senhor. No versículo 23, ele continua a falar desse ganho como uma partida ou, literalmente, uma saída para estar com Cristo que é muito melhor (no original, muito, muito melhor)! Contudo, Paulo disse que embora preferisse ser dispensado para estar com o Senhor, habitar na carne era mais necessário para eles, e assim, ele tinha uma confiança de que permaneceria com eles. Não existe, absolutamente, nenhum espaço para o sono da alma na nossa compreensão deste estado intermédio.
Em conclusão nesta seção, não é correto e bíblico dizer que depois que o nosso corpo morre e vai para a sepultura, que o nosso espírito (e sem dúvida a nossa alma) estará com Ele, o nosso Senhor (Eclesiastes 12:7), e como Ele entre a Sua morte e ressurreição?
Isto não acontece apenas na ressurreição futura, mas imediatamente após a morte. A alma e o espírito do nosso Senhor nunca estiveram a dormir ou inconscientes, e nunca foram separados de Deus de alguma forma depois da morte do Seu corpo e antes da Sua ressurreição. Nem nós seremos. O Senhor tinha um corpo intermédio? Não, não sejamos ridículos. Deus pode lidar com o nossos estado de existência até à ressurreição, pode ter a certeza disso.
- Donald Webb
Doutrinas Básicas da Bíblia
Capítulo 15
O Estado dos Mortos
(Continua)
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