O Arrebatamento da Igreja – uma verdade Paulina (II)

Carlos M. Oliveira

 

      O seguinte diálogo no Facebook, tido há dias atrás, revela o estado de confusão e ignorância bíblica existente entre seminaristas e pastores dos nossos dias - tudo porque ignoram "a dispensação da graça de Deus" dada ao Apóstolo Paulo para nós - "Se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada; como me foi este mistério manifestado ..." (Efésios 3:2-9).

     Crente A: Não me parece que a grande tribulação já tenha começado. Eu creio no arrebatamento da Sua igreja antes da grande tribulação.
 
     Pastor: Claro que não estamos ainda na GT, ainda que estejamos no "início das dores". Agora que a Igreja escapará à GT já é outra história...
 
     Crente A: Eu creio que sim, que Deus nos poupará da grande tribulação, que vamos ser arrebatados antes.
 
     Pastor: Infelizmente para nós não há qualquer base bíblica para acreditar nisso, quem dera... teremos de pagar o preço!
 
     Seminarista: Sempre fui pré-milenista (o milénio ainda não chegou) e pré-tribulacionista (haverá um arrebatamento antes da GT)... Curiosamente tive de estudar Apocalipse no último semestre e caiu-me na rifa uma monografia sobre Apocalipse 20. Eis senão quando, já tinha terminado o trabalho, leio o seguinte no texto (fiquei pasma): Apocalipse 20.5 "Mas os outros mortos não reviveram, até que os mil anos se completassem. Esta é a primeira ressurreição."
 
     Situando-nos: isto é o início do reino milenar... E pensei: então não houve já uma ressurreição no arrebatamento?!!! Como é que esta é a primeira?!!! Por isso concordo com o irmão ________ [Pastor]; devemos estar sempre dispostos a dar a vida por Aquele que a deu por nós!
 
     Pastor: Pré-milenismo é claramente ensinado na Bíblia. Pré-tribulacionismo não tem qualquer base bíblica, muito menos era ensinado na Igreja primitiva. É um ensino controverso original dos século 19, e que tem conseguido fazer com que a Igreja adormeça, pois, se Jesus vem para nos arrebatar a qualquer momento, então está tudo bem... vamos continuar como estamos (mal). Mas, se a Igreja for preparada para enfrentar a perseguição e o Anticristo (e a Palavra claramente refere que ele irá perseguir os santos, os eleitos, os descendentes da 'mulher',e os que seguem a Cristo), então voltaremos ao desprendimento material do passado, ao verdadeiro amor, à solidariedade, ao temor de Deus e deixaremos de andar a gastar milhões em templos que ficarão ao serviço do Anticristo, para voltarmos às cavernas e às catacumbas, como já aconteceu no passado...
 
     C. M. O.: Peço desculpa por me estar a intrometer, mas depois do que li não posso deixar de dizer o seguinte:
 
     A ressurreição do arrebatamento da Igreja é chamada - e muito bem - um MISTÉRIO (ou, segredo) (1 Cor. 15:51). Assim sendo, e é, não se insere, não faz parte da linha profética. Apoc. 20:5 insere-se na linha profética. A ressurreição referida em Apoc. 20:5 é muito bem chamada a 1ª ressurreição, apesar de nessa altura já ter ocorrido a ressurreição do Arrebatamento, pois esta ressurreição do Arrebatamento, como segredo que era, não estava contemplada na profecia. Na profecia Apoc. 20.5 é, pois, a 1ª ressurreição.
 
     O surgimento da Igreja, o Corpo de Cristo, era um mistério (Col. 1:24-2:2; 4:3; Efé. 3:1-9; 5:32, etc.), bem como, logicamente, o seu desaparecimento (o Arrebatamento) - "Eis aqui vos digo um MISTÉRIO: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados". 
 
     Talvez ajude a ver bem o mistério que é a Igreja, se notar que a profecia nunca a contempla. Por exemplo, veja como ela não é contemplada nas 70 semanas de Daniel - nem o seu surgimento, nem o seu desaparecimento. Nenhum profeta falou do surgimento ou do desaparecimento da Igreja, o Corpo de Cristo, pois era um mistério ou segredo, para eles.
 
     Nós esperamos "dos céus a seu Filho, a Quem ressuscitou dos mortos, a saber, Jesus, que NOS LIVRA DA IRA FUTURA (leia-se G.T.) (1 Tes. 1:10), "Porque Deus não nos destinou para a ira" (1 Tes. 5:9). A vinda de Jesus À TERRA será como nos dias de Noé (Mat. 24), e como Enoque foi arrebatado antes desses dias, assim será a Igreja. Somos "embaixadores da parte de Cristo" (2 Cor. 5:20). Como acontece com qualquer país, que retira primeiro o seu corpo diplomático do país a quem vai declarar guerra, o Senhor tirar-nos-á deste mundo antes de lhe declarar guerra. "E vi o céu aberto, e eis um cavalo branco: e o que estava assentado sobre ele chama-se Fiel e Verdadeiro; e julga e PELEJA (Guerra) com justiça" (Apoc. 19:11).
 
     “Há corpos celestes e corpos terrestres, mas uma é a glória dos celestes e outra a dos terrestres”, 1 Cor. 15:40.
 
     Pastor: O que é que a Tribulação tem a ver com a Ira de Deus? Esta é a grande confusão, perdoem-me a expressão "caldeirada" que muitos fazem, e por isso não entendem a Revelação. Quanto às ressurreições, só existem 2 na Bíblia: a ressurreição dos justos e a ressurreição dos ímpios, um milénio depois, ou seja: mil anos depois. Acrescentar mais ressurreições é especular sobre aquilo que não está escrito.
 
     Seminarista: Irmão Carlos [C. M. O.], a passagem de I Co 15 sempre me apaixonou e sempre a associei a Efésios 5, quando fala do mistério da união entre Cristo e a Igreja (o povo único de Deus de todos os selados pelo Espírito). Respeito muito a sua posição que foi convictamente a minha durante muitos anos... É a posição do irmão que foi meu professor este ano também numa disciplina onde estudamos a literatura Joanina... Mas, não tenho por hábito estudar apenas, sempre busco em oração quando estudo... E o que sinto de forma muito forte é que me escapou algo durante este tempo... Aquilo que diz o irmão ________ [Pastor] faz-me muito sentido de acordo com o que estudei... Ainda não quero entrar em debates, porque preciso ler de novo apocalipse e não só. Agora sempre me perguntei porque em Mateus aparecia um arrebatamento depois da tribulação... Até parecia que existiam 2 arrebatamentos... Isto acontece quando queremos forçar a Bíblia a dizer o que temos empinado na mente... Realmente o que diz o irmão ________ [Pastor] é verdade: ira de Deus e tribulação são coisas diferentes, pois a ira de Deus vem sobre o mal e a GT é a oposição satânica no seu auge para com o povo de Deus.
 
     C. M. O.: Olá _______ [Seminarista], faz bem em estudar e orar sobre a matéria, como faziam os nobres Bereanos. Todos nós devemos fazer isso permanentemente. 
 
     Em Mateus aparece um arrebatamento depois da tribulação? Mateus não fala de nenhum arrebatamento. 
 
     Se está a pensar em Mateus 24:37-41, que é no que a esmagadora maioria pensa, verá, se analisar com cuidado, que o texto não se refere a nenhum arrebatamento. O texto diz ali que a vinda do Senhor será COMO NOS DIAS DE NOÉ. Depois diz que nos dias de Noé, quando o dilúvio veio "os LEVOU a todos" e que será exatamente assim na vida do Filho do Homem - "estando dois no campo, será LEVADO um, e deixado o outro; estando duas moendo no moinho será LEVADA uma, e deixada outra". Ora, quem foi LEVADO no dilúvio? Os PERDIDOS, em juízo. Segundo Mateus os LEVADOS serão os perdidos, em juízo, quando o Senhor vier para reinar. Estes não entrarão no reino e por isso não serão deixados para reinar - serão LEVADOS, em juízo. Os "DEIXADOS" são os crentes que ficam para reinar com o Senhor.
 
     O que é que isto tem a ver com o arrebatamento da Igreja, o Corpo de Cristo? Absolutamente nada! O arrebatamento era um mistério revelado mais tarde a Paulo e por seu intermédio (1 Cor. 15:51; 1 Tes. 4:13-18). Nós sabemos que quando o Arrebatamento se der os levados são os crentes e os deixados serão os descrentes, mas Mateus 24 não é disso que está a falar e até explica muito bem quem são os levados, com um excelente termo de comparação - o que aconteceu no dilúvio, nos dias de Noé. 
 
     O problema de muitos, na compreensão correta das Escrituras, reside no facto de lerem Efésios, Filipenses, Colossenses, Tessalonicenses ... nos Evangelhos, o que é péssima teologia.
 
     A Tribulação tem a ver com a ira de Deus ... e não é pouco.
 
     "Portanto esperai-me a Mim, diz o Senhor, no dia em que Eu me levantar para o despojo; porque o meu juízo é ajuntar as nações e congregar os reinos, para sobre eles derramar a minha indignação, e todo o ardor da Minha IRA; porque toda esta terra será consumida pelo fogo do meu zelo" (Sofonias 3:8).
 
     "Eis que o dia do Senhor vem, horrendo, com furor e ira ardente, para pôr a terra em assolação, e destruir os pecadores dela" (Isaías 13:9).
 
     “E o Senhor levanta a sua voz diante do seu exército; porque muitíssimos são os seus arraiais; porque poderoso é, executando a sua palavra; porque O DIA DO SENHOR É GRANDE E MUI TERRÍVEL, e quem o poderá sofrer?” (Joel 2:11).
 
     “O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e TERRÍVEL DIA DO SENHOR” (Joel 2:31). 
 
     “Eis que eu vos envio o profeta Elias, antes que venha O DIA GRANDE E TERRÍVEL DO SENHOR” (Malaquias 4:5).
 
     Pastor: Mais uma vez o Carlos [C. M. O.] (meu respeitado amigo e irmão) continua a divulgar uma série de disparates. Agora, são os perdidos que são levados... essa eu nunca ouvi em parte nenhuma. Realmente é preciso ter uma mente muito criativa para inventar tanta coisa, mas, é óbvio, quando se inventam pressupostos, depois é só "forçar" textos à foça para poder justificar tudo, só que as regras básicas da exegese e hermenêutica bíblica felizmente não permitem tais "arranjos". Que Mateus 24 fala do arrebatamento é 100% claro, pois o texto diz: "Então (no contexto anterior é depois da tribulação), aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; e todas as tribos da terra se lamentarão (estes são obviamente os ímpios) e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens (tal como lhes foi anunciado em Actos 1:11) do céu, com poder e grande glória. E Ele enviará os Seus anjos com rijo clamor de trombeta, os quais ajuntarão OS SEUS ESCOLHIDOS (obviamente os salvos) desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus." - Mateus 24:30,31. O texto pouco a seguir que fala de estarem dois no campo e um é levado, etc., é obviamente a continuação deste anterior. A Bíblia no seu todo só fala de uma "parousia", uma vinda de Cristo às nuvens para vir buscar os Seus eleitos/Noiva/escolhidos afim de celebrar as bodas com ela, e depois uma vinda à terra, no caso o Monte das Oliveiras, para estabelecer o Seu reino milenar juntamente com a Sua (agora) Esposa. Tudo que tentarmos "forçar" além disso é mera especulação...
 
     Seminarista: Aquilo que o irmão Carlos [C. M. O.] defendeu é defendido por outros que conheço, associando à parábola do trigo e do joio (que nada tem a ver, claro) e dizendo que é o joio que é retirado, mas como disse o irmão ________ [Pastor] e muito bem, são os escolhidos que são ajuntados para irem ao encontro do Senhor nos ares, que creio ser o que Paulo diz em I Co 15. Até há pouco tempo também não percebia que arrebatamento de Escolhidos era aquele de Mateus, que até acontecia (na passagem) na terra de Israel... Ora agora ficou mais claro, pois se Cristo vem com os Santos sobre o monte das Oliveiras, falar de pessoas a serem levadas ao encontro do Senhor faz sentido e ao contrário de pessoas a serem retiradas. Só no julgamento final (Ap 20) tratará dos ímpios e apesar da ira de Deus levar à morte de muitos, ele não retirará os restantes da terra que estiverem vivos... Eles terão mais da misericórdia divina... Mas não quero, nem posso, chamar de disparates aquilo que também já acreditei... Continuo a buscar...
 
     O diálogo registado atrás confirma o que afirmámos no primeiro parágrafo - o estado de confusão e ignorância bíblica existente entre seminaristas e pastores. 
 
     A seguir, deixamos registadas algumas notas.
 
     O “princípio das dores” e a “grande tribulação” inserem-se na linha profética e não na presente linha do mistério ou dispensação da graça de Deus (Efésios 3:1-9). Tratam-se de acontecimentos que só ocorrerão depois do Arrebatamento da Igreja.
 
     A linha profética está interrompida. O cumprimento das profecias está suspenso. 
 
     A confusão e ignorância são, infelizmente enormes. Aquelas revelam-se também na incoerência em que caem os que pensam que estamos em período de cumprimento de profecias. Se assim fosse, porque é que os seus defensores dizem simultaneamente que Jesus pode vir em qualquer momento? Se estamos em período de cumprimento de profecias, Jesus não pode vir enquanto não se cumprirem TODAS as profecias.
 
     O ensino do pré-tribulacionismo é bíblico, foi ensinado por Paulo e tem grande sustentação bíblica, como se pôde constatar acima, não sendo, de modo algum, uma doutrina originada no Sé. XIX.
 
     O Apóstolo Paulo foi o Cristão mais exemplar que se conhece. Ele disse que o segredo que o movia era “o amor de Cristo” (2 Cor. 5:14), não o medo do Anticristo ou outra coisa qualquer. Além disso, o Anticristo só se manifestará depois do Arrebatamento da Igreja, como Paulo explicou claramente aos Tessalonicenses em 2 Tessalonicenses 2, que pensavam, face à perseguição a que estavam a ser sujeitos, estarem já na Grande Tribulação.
 
     Os “escolhidos” ou “eleitos” de Mateus 24 não são os “eleitos” ou “escolhidos” das epístolas de Paulo. Recomendamos a leitura de Escolhidos e Escolhidos, escrito pelo saudoso irmão Alberto Borges, ancião da Igreja em Ovar.
 
- C.M.O.
 

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