"O Peregrino" - extracto literário

john_bunyan.jpg     A obra da graça, na alma, revela-se à pessoa que a possui e aos outros. À pessoa que a possui, revela-se da seguinte maneira: ela dá-lhe convicção do pecado, especialmente da corrupção da sua natureza e do pecado da incredulidade, pelo qual é certa a sua condenação, se não achar misericórdia da parte de Deus, pela fé em Jesus Cristo. O ver e o sentir estas coisas produzem nela dor e vergonha por seus pecados (Salmos 38:18; Jeremias 31:19; João 18:8; Romanos 7:24; Marcos 16:16; Gálatas 2:16).

     Além disto, ela encontra revelado em si o Salvador do mundo, e vê a absoluta necessidade de se unir a Ele por toda a vida. Aqui começa a fome e a sede, às quais foi feita a promessa. Ora, conforme a força e fraqueza da fé da pessoa, no Salvador, assim é o seu gozo e a sua paz, assim é o seu amor à santidade, assim são os seus desejos de melhor conhecê-Lo e de servi-Lo neste mundo; mas ainda que assim se revele a obra da graça, poucas vezes poderá o homem conhecer se ela nele existe, porque, a sua corrupção e a sua razão desvirtuada fazem com que o seu juízo seja iludido nessa matéria. É, pois, indispensável um juízo muito são, para aquele que possui esta obra poder dizer, com segurança, que é a obra da graça (João 16:8; Gálatas 1:15-19; Atos 4:12; Mateus 5:6; Apocalipse 21:6).

     Aos outros a obra da graça revela-se da seguinte maneira: 1º - Por meio duma confissão prática da fé em Cristo daquele que possui a obra da graça; 2º - Por uma vida de acordo com essa confissão por parte daquele que possui tal obra, isto é, por uma vida de santidade; santidade no coração, santidade na família, se a tem, e santidade na sua vida, e nas suas relações com outras pessoas. Esta santidade ensina-o, em geral, a aborrecer o seu pecado, do íntimo do coração, e aborrecer-se também a si mesmo, em segredo, e a imprimir estes sentimentos na família, e a promover a santidade do mundo, não só pelos seus discursos, como pode fazer qualquer hipócrita ou charlatão, mas por uma sujeição prática, em fé e amor, ao poder da Palavra (Jó 42:5-6; Salmos 50:9-23; Ezequiel 20:43; Mateus 5:8; João 15:5; Romanos 10:9-10; Filipenses 1:27 e 2:17).

O Peregrino, de John Bunyan (1628-1688)
adaptado por André Aloísio

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