Arenques de graça

arenque

     Era uma tarde de Outono, fria e chuvosa. A noite aproximava-se, o vento do Norte soprava com violência. Numa rua dos arredores de Londres podia distinguir-se dois homens. Um era missionário no bairro, que regressava a casa, depois de ter percorrido durante todo o dia em diversas direcções estas paragens miseráveis, indo de casa em casa para ler o Evangelho aos doentes, advertir os pecadores e falar do amor de Deus. O outro era um vendedor de peixe. Conduzia à cabeça um cabaz cheio de arenques1 frescos. Numa das mãos segurava três peixes e apregoava: «Três arenques; por dois vinténs»! Mas ninguém se mostrava disposto a comprá-los. Apregoava e o eco da sua voz repercutia-se naquela rua sem que um só pobre parasse ou se apresentasse para comprar. O missionário e o vendedor de peixe encontraram-se à esquina da rua.

     - Três arenques por dois vinténs, senhor - diz o vencedor ao missionário.

     - Onde encontra peixe assim tão barato? Veja como são frescos. Todos estes arenques foram pescados esta manhã; e contudo as pessoas não os querem. Já dei a volta ao quarteirão todo sem vender um só.

     - Não me surpreende muito—respondeu o missionário.

     - E porquê?—pergunta o outro.

     - Já há algumas semanas que quase todas as fábricas desta parte da cidade estão fechadas por falta de trabalho. Toda a gente está reduzida à miséria e há muitas famílias que desde há muito não sabem o que é ter cinco vinténs. Quanto quer você por todo o peixe?

     O peixeiro fixou bem o missionário, para se certificar se ele falava a sério ou se brincava; depois, pondo os olhos sobre o peixe, manteve-se concentrado por uns instantes num rápido cálculo mental, e respondeu:

     - Se me der uma libra são seus, não é caro.

     - Está bem - disse o missionário tirando a soma pedida da sua bolsa.

     - Aqui está uma libra, com a condição de você levar este peixe onde eu lhe disser.

     - Certamente, desde que não seja muito longe ...

     - É neste quarteirão. Isto é o que você deve fazer: recomece a percorrer esta rua e a apregoar: «Arenques de graça! Quem os quer?» e dê três a cada pessoa, homem, mulher ou criança, que os pedir, até que o cabaz esteja completamente vazio.

     Ouvindo estas instruções, o peixeiro, mais surpreendido que nunca, examinou cuidadosamente a moeda, fê-la tilintar no chão, afim de certificar-se que era boa, e guardou-a avidamente. Depois encara outra vez o missionário como quem quer saber o que há de pensar deste negócio.

     - Hem, a moeda não é falsa, pois não?—pergunta o missionário.

     - É perfeitamente boa—responde o vendedor.

     - Portanto, o peixe é meu; mas se não quer fazer como lhe disse, restitua-me o meu dinheiro.

     - Os arenques são seus, e eu farei o que me diz, embora não compreenda nada disso. O senhor é livre de fazer o que quer do que lhe pertence: estou às suas ordens.

     O missionário ficou onde estava, enquanto que o vendedor percorria a rua apregoando com toda a força: «Arenques de graça! Quem os quer? Arenques de primeira qualidade de graça!»

     Um pouco depois o missionário viu-o aproximar-se de uma casa que ele bem conhecia, à janela da qual se encontrava uma mulher de certa idade, olhando para a rua.

     - Olá, boa senhora!—grita o vendedor de peixe

     - Aqui está uma ocasião rara para si. Hoje os arenques são de graça, venha portanto e leve-os.

     Porém, a mulher encolheu os ombros e sumiu-se no seu apartamento.

     - Aqui está uma idiota - exclama o vendedor. Resta esperar que nem todos serão como ela. — Arenques de graça! Arenques de graça!

     Uma rapariguinha saiu para ver quem apregoava tão alto, e o vendedor disse-lhe:

     - Pequena, leva estes três arenques à tua mãe que esta tarde não custam nada e são da melhor qualidade.

     Mas a menina, cheia de medo, correu para casa sem olhar para trás.

     O vendedor de peixe percorreu desta forma toda a rua repetindo sempre a mesma coisa; por fim voltou ao ponto de partida.

     - Arenques de graça! - não cessava de apregoar enquanto dizia para consigo: «são todos idiotas. Ninguém os quer, nem sequer um!».

     E é assim que, com o cabaz cheio de arenques, se acerca do comprador.

     - Bem - pergunta ele - como vai o negócio?

     - Muito mal - responde o vendedor.

     - Quando você me deu a libra pelo peixe, não sabia que pensar. Inclinei-me a crer que você não estivesse bem da cabeça: mas vejo agora que idiotas não faltam neste bairro. Esta gente está na extrema miséria e recusa aceitar o alimento que se lhes oferece gratuitamente! Agora que vou fazer destes peixes? São demais para o seu próprio consumo, e estes tontos não os querem.

     - Vamos experimentar ir juntos - diz o missionário. - Eu vou acompanhá-lo desta vez e falamos os dois, talvez alcancemos um melhor resultado.

     E caminhando, o vendedor do peixe, começa de novo a gritar: «Arenques de graça!» e o missionário junta a sua voz à dele: «Se alguém quer peixes para o jantar, que venha e os tome.»

     A voz do missionário era bem conhecida em todo o bairro; e logo que o ouviram oferecer os arenques de graça, as pessoas saíram umas após outras de suas casas para ver o que era este mistério. O primeiro que teve a coragem de se aproximar, regressou com três belos peixes em suas mãos e o seu exemplo foi seguido pelos outros. Já não havia necessidade de gritar: «Arenques de graça!». De cada casa, duas, três, cinco pessoas, acorriam ao mesmo tempo a ver quem chegava primeiro para obter o alimento tão desejado. A cada um, pequeno ou grande, o missionário dava três arenques, de maneira que o cesto depressa ficou completamente vazio. As pessoas continuavam a chegar cada vez mais numerosas e apressadas; mas era demasiado tarde: o último arenque tinha sido distribuído!

     Entre os mais descontentes, via-se uma mulher de certa idade, bem conhecida no bairro pela sua má língua.

     - E para mim - gritou ela - não mereço nada? Talvez pense que sou pior do que os outros; e os meus filhos não têm fome como esses a quem você deu o peixe? Isto é uma injustiça!

     Antes que o missionário tivesse tempo de responder, o vendedor do peixe, estendeu o braço na direcção dela dizendo:

     - Escute, senhor, esta mulher foi a primeira pessoa a quem ofereci os arenques de graça, na primeira volta, e ela retirou-se encolhendo os ombros.

     - Não é verdade — replica ela com furor. - Eu não acreditei na oferta seriamente; de outra maneira ter-me-ia apressado para os receber. 

     - Ah!, você não acreditou—responde o vendedor. - Pois bem, então vá para a cama sem jantar, você recebe o que merece. Depois voltando-se para o missionário: 

     - Boa noite senhor e muito obrigado.

     Quando ele partiu, a multidão dispersou e o missionário voltou para sua casa, pensando em aproveitar este incidente para fazer compreender o Evangelho àqueles que visitaria no dia seguinte.

     Esta história pode fazer-nos rir, mas tem um significado muito profundo e instrutivo. Podemos rir da incredulidade daquelas pessoas, mas o mundo está cheio de pessoas que agem mil vezes pior. As pessoas à nossa volta estão na miséria, na maior das misérias. Elas estão afastadas de Deus por causa dos seus pecados e Deus está a oferecer o perdão para os seus pecados de forma gratuita, completamente gratuita ... Qual tem sido a resposta das pessoas? Incredulidade!!!

     Tu precisas do perdão de Deus para os teus pecados. Que farás? Vais rejeitar o perdão que Deus te oferece gratuitamente? Só precisas de crer e receber, tal como aquelas pessoas ao crerem que aquele peixe era de graça, o receberam ...

     Naquele caso daqueles pobres que voltaram para suas casas de mãos vazias, a incredulidade resultou apenas na perda de um jantar; mas a incredulidade da pessoa que recusa confiar em Cristo como seu Salvador ocasiona-lhe uma perda bem pior - a da sua alma. 


1 Arenque – peixe do mar pouco maior que a sardinha. Pesca-se principalmente nos mares do norte da Europa. O arenque comum tem entre 18 a 36 cm. Apresenta o ventre com coloração prateada e de dorso azul-esverdeado.

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