O Carro de Feno e o Viajante

O Carro de Feno e o Viajante, ou o estado miserável da alma humana

Introdução

Há pouco tempo atrás tive o privilégio de começar a folhear um livro dedicado à vida e à obra do famoso pintor da Escola Flamenga, Hieronymus Bosch (c. 1450 – 1516).

Ao contrário do que aconteceu com muitos outros artistas, Bosh dedicou-se à representação do deplorável estado da alma humana, do miserável estado espiritual do Homem, de um modo realista e intenso, sem meias palavras. Daí, na minha opinião, a sua importância, daí, também, a sua pertinência e actualidade. Afinal os problemas que, como veremos adiante, afligiram o seu tempo são exactamente os mesmos que afligem a Humanidade nos nossos dias. Afinal a doença de há cinco séculos atrás é a mesma de há dois mil anos e a mesma da actualidade...o problema foi, e é, sempre o mesmo...chama-se PECADO...o HOMEM CORROMPIDO PELO PECADO.

Artur de Jesus


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1)   O CORTEJO TRUNFAL DO CARRO DE FENO (quadro de Hieronymus Bosch – Museu do Prado, Madrid)

·       Bosch apresenta-nos nesta obra um conceito profundamente pessimista da natureza humana. Trata-se da representação do Homem como Pecado e Tolice. Podemos dizer que vemos aqui um Homem totalmente corrompido pelo Pecado (Romanos 3:23: Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus);

·       O FENO (Cortado) é uma imagem da fraqueza e transitoriedade humanas. O FENO é a erva que se ceifa e seca, para alimento do gado. Na época da execução deste quadro, o FENO era apresentado como símbolo de Fraude. Representa os BENS TERRENOS, as HONRAS SECULARES, sem valor real e espiritual, que constituem o ISCO DE SATANÁS (e do seu exército das trevas) PARA ATRAIR O HOMEM À DESTRUIÇÃO, PERDIÇÃO E CONDENAÇÃO ETERNAS. Trata-se de uma crítica ao egoísmo e à avidez. OS BENS TERRENOS SÃO COMO FENO E LOUCOS SÃO OS QUE OS PROCURAM AVIDAMENTE E NELES DEPOSITAM A SUA CONFIANÇA (Mateus 16:26: Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?);

·       O CARRO DE FENO mostra-nos uma Humanidade sujeita ao pecado, mostra-nos a LOUCURA DOS HOMENS QUE PERSEGUEM OS BENS E AS HONRAS MUNDANAS DESPREOCUPADOS COM AS LEIS DE DEUS, E SEM PENSAREM NO DESTINO ETERNO DAS SUAS ALMAS! O tema central da obra, aqui patenteado com grande rigor e precisão pelo pintor, é, sem dúvida, A AMBIÇÃO DE ADQUIRIR BENS E HONRARIAS SECULARES/TERRENAS/MUNDANAS; A AVAREZA, que se encontra ligada, subsequentemente, a outros pecados, tais como A SOBERBA, O EGOÍSMO, A INVEJA, geradores, por sua vez – e como muito bem se encontram representados no quadro – de outros modos mais violentos de prevaricação (Romanos 1.28-31: E, como eles se não importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convém; estando cheios de toda iniquidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade; sendo murmuradores, detractores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes ao pai e à mãe; néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia);

·       O CARRO, totalmente carregado de FENO – ao centro - (cujo significado já considerámos acima) é seguido por GRANDES (veja-se, à esquerda, o Monarca poderoso, o Pontífice e todo um séquito de altas individualidades) E PEQUENOS (veja-se toda a multidão que se encontra no plano inferior às rodas do Carro) DESTE MUNDO, DISTRAÍDOS, LUTANDO UNS CONTRA OS OUTROS PELA POSSE DOS BENS MATERIAIS. Ao centro, podemos observar alguns que tentam assaltar o carro com escadas, harpões, forquilhas e com as próprias mãos; outros lutam ferozmente entre si pela posse de um pouco de feno e num dos casos atinge-se mesmo o homicídio – tudo pela posse de bens materiais!!! De facto, a avareza, a soberba, o egoísmo e a inveja são pecados terríveis que geram discussões, violências e podem levar ao homicídio;

·       A composição pictórica apresenta, ainda, com um forte sentido crítico, os grandes pecados relacionados com a Soberba, que induzem os homens à fraude: veja-se o caso do Falso Mendigo (no canto inferior esquerdo), do Curandeiro (em baixo, ao centro); repare-se, também, nas críticas à Gulodice (frade e freiras, no canto inferior direito) e à Luxúria/desejo sexual desenfreado (Casais que se encontram sentados sobre o monte de Feno);

·        Vemos uma Humanidade que caminha firme, determinada e resoluta, de olhos pregados nas coisas do MUNDO e da CARNE...mas todos os seus conceituados valores não passam de uma GRANDE ILUSÃO! A frenética, louca e vã actividade dos homens é observada pelo Senhor na glória. Mas ninguém olha para os céus! Ao lado direito dos casais que estão juntos, sobre o Feno, vemos um demónio que toca uma melodia e que consegue desviar a sua atenção da presença do anjo que se encontra a seu lado. Ninguém parece notar a presença divina, tal como ninguém nota que são OS DEMÓNIOS QUE ARRASTAM O CARRO DE FENO (O CARRO DOS BENS VALIOSOS DESTE MUNDO) PARA O INFERNO, PARA A CONDENAÇÃO ETERNA!!! (Lucas 12:16-20: E propôs-lhes uma parábola, dizendo: a herdade de um homem rico tinha produzido com abundância. E arrazoava ele entre si, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: derribarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; e direi à minha alma: alma, tens em depósito muitos bens, para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma, e o que tens preparado para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros e não é rico para com Deus).


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2)   O VIAJANTE (quadro de Hieronymus Bosch – Museu Boymans-van Beuningen, Roterdão)

·
       Ao representar O Viajante, Bosch, mostra-nos o Homem pecador...errante...sem rumo; o Homem perdido que busca a redenção. Por isso o Viajante apresenta um aspecto consumido, degradante, desolador e miserável (repare-se nas suas vestes sujas, rotas e no panejamento que envolve o ferimento na sua perna esquerda) – (Isaías 1:6: Desde a planta do pé até à cabeça não há nele coisa sã, senão feridas, e inchaços, e chagas podres, não espremidas, nem ligadas, nem nenhuma delas amolecida com óleo);

·       Este Homem Vagabundo é perseguido por um CÃO que arreganha os dentes, o qual ele procura afastar com o seu bordão. O CÃO, representado pelo autor é uma alusão à MALEDICÊNCIA, outro dos grandes males, outra das grandes doenças perigosas e mortíferas que têm manchado a existência do Homem;

·       A palavra MALEDICÊNCIA está, por sua vez, associada a outras (seus terríveis sinónimos) como Mexerico, Difamação, Murmúrio, Mentira e Hipocrisia. Estes termos referem-se àqueles que falam mal dos outros; àqueles que passam o seu tempo a difamar, a caluniar a mentir, em voz alta ou em voz baixa, sobre os outros; àqueles que semeiam a contenda. Agora pensemos nisto: por um lado, a palavra Diabo vem do Grego e tem o significado de Caluniador, e, por outro, não é o Diabo conhecido por Pai da Mentira? (João 8:44: Vós tendes por pai ao diabo e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele foi homicida desde o princípio e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira);

·       A Palavra de Deus está repleta de avisos preciosos sobre a Maledicência e sobre os Maldizentes. Vejam-se, por exemplo, as seguintes passagens: (Salmo 62:4: Eles somente consultam como o hão de derribar da sua excelência; deleitam-se em mentiras; com a boca bendizem, mas, no seu interior, maldizem; Levítico 19:16: Não andarás como mexeriqueiro entre o teu povo; não te porás contra o sangue do teu próximo. Eu sou o SENHOR; Lucas 15:2: E os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: Este recebe pecadores e come com eles);

·       A Estalagem, situada por trás do Viajante, representa o MUNDO, a CARNE e o DIABO – os perigos espirituais. Daí o seu estado ruinoso e degradante (repare-se no telhado roto, nos vidros partidos, na escuridão, no postigo descaído, no barril furado, no homem que urina para a parede). A sua Natureza Dúbia é representada pelo par junto à porta numa atitude claramente sexual e pela mulher que espreita curiosa e maliciosamente o viajante por uma das janelas degradadas;

·       A Expressão Facial do Viajante mostra-nos a sua atitude; mostra-nos o perigo de ser seduzido pelas tentações do Mundo. Vemos no seu rosto uma atitude de hesitação, de nostalgia, de incerteza. É a tentação de olhar para trás – tal como a mulher de Lot, no Antigo Testamento - , de voltar atrás, à estalagem, ao Mundo e aos seus efémeros e ilusórios prazeres;

·        Em frente do Viajante...um PORTÃO, que conduz a uma paisagem tranquila. Trata-se de uma alusão a CRISTO, a Porta de acesso ao PAI; uma alusão, também, a CRISTO, o BOM PASTOR (João 10:9: Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens). É o convite à entrada no redil do Senhor, é o convite a fazer parte do rebanho do Senhor; em suma, é o convite à SALVAÇÃO, à REDENÇÃO almejadas. (JOÃO 10: 1 – 16: Na verdade, na verdade vos digo que aquele que não entra pela porta no curral das ovelhas, mas sobe por outra parte, é ladrão e salteador. Aquele, porém, que entra pela porta é o pastor das ovelhas. A este o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz, e chama pelo nome às suas ovelhas e as traz para fora.   E, quando tira para fora as suas ovelhas, vai adiante delas, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas, de modo nenhum, seguirão o estranho; antes, fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos.   Jesus disse-lhes esta parábola, mas eles não entenderam o que era que lhes dizia. Tornou, pois, Jesus a dizer-lhes: Em verdade vos digo que eu sou a porta das ovelhas. Todos quantos vieram antes de mim são ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os ouviram. Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens. O ladrão não vem senão a roubar, a matar e a destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham com abundância. Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas. Mas o mercenário, que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê vir o lobo, e deixa as ovelhas, e foge; e o lobo as arrebata e dispersa. Ora, o mercenário foge, porque é mercenário e não tem cuidado das ovelhas. Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido. Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai e dou a minha vida pelas ovelhas. Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor).


Conclusão

Consideremos, para terminar, algumas personalidades que na Palavra de Deus foram vítimas constantes dos males que considerámos, através destas obras inspiradas de Bosh, nomeadamente, a soberba, a avareza, o egoísmo, a inveja e a maledicência:

ABEL – o primeiro homicídio registado na Bíblia. Foi assassinado pelo seu irmão Caím, o qual foi movido pela inveja e pelo ciúme que nutria pelo seu irmão;

JOSÉ – invejado pelos irmãos que se juntaram para conspirar contra ele. Procuraram matá-lo e venderam-no como escravo;

MOISÉS – foi constantemente uma vítima da maledicência e dos murmúrios do Povo ingrato, rebelde e traidor;

DAVID – foi ferozmente perseguido por Saul, o qual motivado pela inveja e pelo ciúme atentou contra a sua vida;

O SENHOR JESUS CRISTO – perseguido ferozmente por Fariseus, Saduceus, Romanos, etc. Murmuraram contra Ele, tentaram-nO muitas vezes, conspiraram contra ele e uniram-se para O prender, torturar e matar.

Considerando tudo isto, no final de mais um ano na vida deste pobre Mundo, sejamos gratos ao Senhor pelo que fez, e tem feito, por nós, fujamos da sedução das “belas” coisas que este mundo nos oferece, esforcemo-nos por ganhar línguas edificadoras e que o Senhor nos permita que desempenhemos fielmente neste Mundo a condição de Seus embaixadores. Por outro lado, tenhamos o cuidado de alertar as almas perdidas, sem esperança, condenadas à morte, ao fogo eternos, que são a separação de Deus, que a PORTA/CRISTO ainda está aberta, que ainda há esperança e salvação para que as quiserem aceitar! O “Carro” caminha para a destruição eterna, uma maioria ímpia segue-o, mas ainda é tempo para escapar!

Artur de Jesus (Igreja em Quinta do Conde), Dezembro de 2002.


BIBLIOGRAFIA:

·        BOSING, Walter, “Bosch, obra completa de pintura”, Colónia, Taschen, 1991.

·        BOYER, Orlando, “Pequena Enciclopédia Bíblica”, São Paulo, Editora Vida, 1978.

·        “The New Caxton Encyclopedia”, Vol. III, London, Caxton Publications Limited, 1979.

·        Este pequeno estudo foi baseado nas Sagradas Escrituras, aconselhando-se a consulta atenta das passagens indicadas.

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