Carta ao Apóstolo Paulo

Carta ao Apóstolo Paulo


     Aos caríssimos irmãos, como seria uma carta supostamente enviada nos dias de hoje ao Apóstolo dos Gentios, Paulo.

     (Como hoje temos os meios eletrônicos, então segue um e-mail a ele).


     Amado apóstolo, estou escrevendo para colocá-lo a par da situação do Evangelho que um dia você ajudou a propagar para nós gentios, e que lhe custou a própria vida. As coisas estão muito difíceis por aqui. Quase tudo o que você escreveu foi esquecido ou deturpado. Você foi bastante claro ao despedir-se dos irmãos em Éfeso, alertando que depois de sua partida lobos vorazes penetrariam em meio à igreja, e não poupariam o rebanho. Palavras de fato inspiradas, pois isso se concretiza a cada dia. Lembra-se que você escreveu ao jovem Timóteo, que o amor ao dinheiro era a “raiz de todos os males”?

     Quero que saiba que suas palavras foram invertidas, e agora se prega que o dinheiro é a “solução” de todos os males. Também é com tristeza que lhe digo que em nossa época ninguém mais quer ser chamado de pastor, missionário ou evangelista, pois isso é por demais humilde: um bom número almeja levar o título de Reverendo e até de Apóstolo.

     Sei que em seu tempo, os apóstolos eram “fracos... desprezíveis... espetáculo para os homens... loucos... sem morada certa... injuriados... lixo e escória”. Agora é bem diferente. Trata-se de uma honraria muito grande: acercam-se de serviçais que lhes admiram, quando viajam exigem as melhores hospedarias e são recebidos nos palácios pelos governantes.

     Eles não costumam pregar seus textos, pois você fala da “graça” e da “liberdade que temos em Cristo”. Isso não soa bem hoje, pois a igreja voltou à “teologia da retribuição” da Antiga Aliança (só querem pregar à suas ovelhas). Você não é bem visto por aqui, pois sempre foi muito humano, sem jamais esconder suas fraquezas: chegou até reconhecer contradições internas dizendo que não faz o bem que prefere, mas o mal, esse faz.

     Eles não gostam disso, pois sempre se apresentam inabaláveis e sem espinhos na carne como os que você suportava. A presença deles é forte, a sua fraca, eles são saudáveis, você sofria de alguma coisa nos olhos, eles jamais recomendariam a um irmão tomar remédios como você fez com Timóteo, mas aqui oram e determinam a cura – coisa que você nunca fez.

     Você dizia que por amor de Cristo perdeu “todas as coisas”. Considerando-as refugo. As coisas mudaram, irmão. Agora cantamos: “Restitui, quero de volta o que é meu!”. Existe uma cidade que recebeu o seu nome, e aqui há um apóstolo que após as pregações distribui lencinhos vermelhos encharcados de suor, e as pessoas levam pra casa, como fizeram em Éfeso, imaginando que afastarão enfermidades. Sim, eu sei que você nunca ordenou isso, nem colocou como doutrina para a igreja nas epístolas, mas sabe como é esse povo... Admiro sua coragem por ter expulsado um espírito adivinhador daquela jovem, embora isso tenha lhe custado a prisão e açoites.

     Você não se deixou enganar só porque ela acertava o prognóstico. Hoje há uma profusão de pitonisas e prognosticadores no meio do povo de Deus, todavia esses espíritos não são mais expulsos, ao contrário, nos reunimos ansiosos para ouvir o que eles têm a dizer para nós numa espécie de “entrevista” com o Maligno. Gostaria de ter conhecido os irmãos Bereanos que você elogiou. Infelizmente, quase não existem mais igrejas como as de Bereia, que recebam a Palavra com avidez e examinem as Escrituras “todos os dias para ver se as coisas são de fato assim”. Tem hora que a gente desanima e se sente fragilizado como Timóteo, o seu companheiro de lutas. Mas que coisa bonita foi quando você o reanimou insistindo para que reavivasse “o dom de Deus” que havia nele.

     Estou lhe confessando isso, pois atualmente mais de 90% dos pregadores oferecem uma “nova unção” para quem fraqueja. Amo esta sua exortação, pois você ensina que dentro de nós já existe o poder do Espírito dado de uma vez por todas e não precisamos buscar nada fora ou nada novo!

     Nossos cultos não são mais como em sua época, onde a igreja se reunia na casa de um irmão, havia comunhão, orações, e a palavra explanada era o prato principal... As coisas mudaram: culto agora é como se fosse um “show” a fumaça não é mais da nuvem gloriosa da presença de Deus, mas do gelo seco, e a palavra é só para ensinar como conseguir mais coisas do céu.

     Querido Apóstolo Paulo, o Espírito lhe revelou que nos últimos tempos alguns apostatariam da fé “por obedecerem a espíritos enganadores”. Essa profecia já está se cumprindo cabalmente, e creio que de forma irreversível.

     Amado apóstolo, vemos hoje muitos artistas no meio do que se diz de Deus; o que você disse “já estou crucificado com Cristo”, hoje, não vale mais. Ainda me lembro de sua missiva aos Coríntios. A segunda, quando você os prevenia que ia ter com eles, mas não estava querendo tomar nada deles, se lembra? Hoje, apóstolo, se toma tudo o que as pessoas possuírem, obrigando-as a pagar “dízimos” e até ameaçando-as, em nome de Deus, caso não lhes dê uma boa oferta . O que você disse: que filhos não entesouram para os pais e sim os pais para os filhos, hoje já mudou.

     Bem, apóstolo, sei que faz muito tempo que você escreveu, mas parece que foi ontem. Desculpe-me, te peço, não venha visitar as igrejas por aqui, se não vão lhe prender de novo e acabar por matá-lo, ok? Cuidado!

(Compilado por Vicente Gomes Tolentino)
Recebido de Alberto Veríssimo

 

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