Cristo em Génesis 1

Arthur W. Pink     Na nossa primeira meditação sobre este maravilhoso livro das origens, Génesis, apontámos para algumas das surpreendentes analogias que existem entre a ordem seguida por Deus na Sua obra da criação e o Seu método de acção na “nova criação”, a criação espiritual do crente. 

     Primeiro houve trevas, depois a acção do Espírito Santo, a seguir, a palavra de poder entrou em acção, e depois, houve luz como resultado, e mais tarde, ressurreição e frutos. Há também uma surpreendente prefiguração do grande tratamento dispensacional da nossa raça neste registo da Sua obra em seis dias, mas como isso já recebeu atenção de canetas mais capazes que a nossa, passamos para ainda outra aplicação prática desta escritura. Há muito sobre Cristo neste primeiro capítulo de Génesis se somente tivermos olhos para ver, e é a típica inferência prática de Génesis 1 em relação a Cristo e a Sua obra que vamos, aqui, dirigir a atenção.

     Cristo é a chave que abre as portas de ouro do templo da verdade Divina. “Examinai as Escrituras”, é a Sua ordem, “pois são elas que testificam de Mim”. E novamente, Ele declara, “No rolo do Livro está escrito de Mim”. Em cada secção da Palavra escrita, a Palavra Pessoal está preservada como sagrada – tanto em Génesis como em Mateus. E, agora, vamos afirmar que na fachada da Revelação Divina, temos um plano de acção simbólico de todo o trabalho da Redenção.

     Nas afirmações iniciais deste capítulo descobrimos, em símbolo, a grande necessidade da Redenção.” No início, Deus criou os céus e a terra”. Isto leva-nos de volta à primeira criação a qual, como tudo o que vem da mão de Deus, deve ter sido perfeita, maravilhosa, gloriosa. Assim também foi a condição original do homem. Feito à imagem do Seu Criador, enriquecido com o sopro de Elohim, ele foi declarado como “muito bom”.

     Mas as palavras seguintes apresentam um quadro muito diferente — “E a terra era sem forma e vazia”, ou, como no original Hebraico, poderia ser traduzido mais literalmente como : “A terra tornou-se um caos”. Entre os dois primeiros versos de Génesis 1, uma terrível calamidade aconteceu. O pecado entrou no universo. O coração do mais poderoso de todas as criaturas de Deus encheu-se de orgulho — Satanás ousou opor-se à vontade do Todo-Poderoso. Os efeitos desastrosos da sua queda alcançaram a nossa terra, e o que foi originalmente criado por Deus como perfeito e maravilhoso, tornou-se em ruína. Os efeitos do seu pecado, do mesmo modo, atingiram muito mais do que a si mesmo — as gerações de uma humanidade ainda por nascer foi amaldiçoada como consequência dos seus primeiros pais.

     “Havia trevas sobre a face do abismo”. Trevas são o oposto de luz. Deus é Luz. Trevas são o emblema de Satanás. Essas palavras descrevem bem a condição natural da nossa raça caída. Judicialmente separada de Deus, moral e espiritualmente cega, experimentalmente escravos de Satanás, uma terrível mortalha de trevas está colocada sobre a massa de uma humanidade não-regenerada. Mas isto somente preenche um pano de fundo negro sobre o qual podem ser colocadas as glórias da Graça Divina. “Onde abundou o pecado, superabundou a graça”. O método desta “superabundância de graça” está simbolicamente delineado na obra de Deus durante os seis dias. No trabalho dos quatro primeiros dias, temos uma memorável prefiguração dos quatro grande estágios na obra da Redenção. Agora não podemos fazer muito mais do que chamar a atenção para os contornos deste maravilhoso quadro primitivo. Mas, à medida que dele nos aproximamos, para observá-lo em temor e admiração, possa o Espírito de Deus seleccionar as realizações de Cristo e mostrá-las a nós.


I. No trabalho do primeiro dia, a Encarnação Divina é, simbolicamente declarada.

     Se homens caídos e cheios de pecado devem ser reconciliados com o Santo Deus Trino, o que deve ser feito? Como pode ser transposto o infinito abismo que separa a Divindade da humanidade? Que escada poderá ser colocada aqui na terra para se chegar precisamente ao céu? Só uma resposta é possível a essas perguntas. O passo inicial na obra da redenção humana deve ser a Encarnação da Divindade. Necessariamente, este deve ser o ponto de partida. O Verbo tem de se tornar carne. O próprio Deus deve descer até ao fundo do poço onde, desprotegidamente, se encontra a humanidade arruinada, se é que deve ser resgatada do barro pegajoso e transportada para lugares celestiais. O Filho de Deus deve assumir, em Si mesmo, a forma de servo e ser feito à semelhança dos homens.

     Isto é precisamente o que a obra do 1º dia tipifica na prefiguração do passo inicial da Obra de Redenção, também chamado de Encarnação do Divino Redentor. Observe, agora, 5 pontos:

     Primeiro, há o trabalho do Espírito Santo. “O Espírito de Deus movia-Se (hebraico, 'chocava") sobre a face das águas” (v 2). Do mesmo modo foi a ordem seguida na Encarnação Divina. Em relação à mãe do Salvador lemos: “Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a Sua sombra; por isso também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus” Lc 1:35.

     Segundo, a Palavra se manifesta como Luz. “Disse (a palavra) Deus: Haja luz; e houve luz” (v3) . Do mesmo modo, quando Maria mostra a Santa Criança: “A glória do Senhor brilhou ao redor deles” Lc 2:9. E quando Ele é apresentado no templo, Simeão foi movido pelo Espírito Santo para dizer: “Porque os meus olhos já viram a tua salvação, a qual preparaste diante de todos os povos; luz para iluminar os gentios, e para glória do teu povo de Israel” Lc 2:30.

     Terceiro, a luz é aprovada por Deus. “E viu Deus que a luz era boa” (v4). Nós não podemos, agora, ampliar muito a profunda importância simbólica desta declaração, mas gostaríamos de observar que a palavra hebraica aqui traduzida “boa” também aparece em Eclesiastes 3:11 como “formosa” – “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo. Deus viu que a luz era boa, formosa! Como é obvia esta aplicação prática do nosso Senhor Encarnado! Depois da Sua chegada a este mundo, ficámos a saber que “Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens” (Lc 2:52), e que as primeiras palavras do Pai em relação a Ele foram, "Este é o Meu Filho amado em quem Me comprazo”. Sim, boa e formosa foi a luz na percepção espiritual do Pai. Quão cego estava o homem para não ver n’Ele nenhuma formosura para desejá-lo!

     Quarto, a luz foi separada das trevas, “E (Deus) fez separação entre a luz e as trevas” (v4). Como o Espírito Santo é vigilante ao proteger os tipos! Como Ele é cuidadoso ao chamar a nossa atenção para a diferença imensurável entre o Filho do Homem e os filhos dos homens! Embora em Sua infinita condescendência Ele se visse apto para participar da nossa humanidade, contudo Ele não experimentou a nossa depravação. A luz de Cristo foi separada das trevas (humanidade caída). “Com efeito, nos convinha um sumo-sacerdote como este, santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores” (Hb 7:26).

     Quinto, a luz foi chamada por Deus — “Chamou Deus à luz Dia” (v5). Portanto, a luz também estava com Ele que é a Luz do Mundo. Não foi permitido a José e Maria escolherem o nome da Santa Criança. No Antigo Testamento, o profeta havia declarado, “Ouvi-me, terras do mar, e vós, povos de longe, escutai! O Senhor me chamou desde o meu nascimento, desde o ventre de minha mãe fez menção de meu nome” (Is 49:1). E para o cumprimento desta profecia, enquanto ainda no ventre da Sua mãe, um anjo é mandado por Deus a José dizendo: “Ela dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus” (Mt 1:21).


II. Na obra do segundo dia a Cruz de Cristo é simbolicamente apresentada.

     Qual foi a etapa seguinte necessária à realização da Obra de Redenção? A Encarnação em si não satisfaria a nossa necessidade. “Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto”. (Jo 12:24). O Cristo encarnado revela a vida perfeita e imaculada que por si só entra em contacto com a mente de Deus, mas não ajuda a atravessar o espaço intransponível entre um Deus Santo e um pecador arruinado. Para tal, o pecado deve ser afastado, e isto não pode ser feito a não ser que a morte entre em cena. “Pois sem o derramamento de sangue não há remissão”. O cordeiro deve ser morto. O Santo deve entregar a Sua vida. A Cruz é o único lugar onde as exigências justas do trono de Deus podem ser satisfeitas.

     Na obra do segundo dia, esta segunda etapa na realização da redenção humana é simbolicamente apresentada. O acontecimento importante na obra deste segundo dia é a divisão, separação, isolamento. “E disse Deus: Haja firmamento no meio das águas e separação entre águas e águas. Fez, pois, Deus o firmamento e separação entre as águas debaixo do firmamento e as águas sobre o firmamento. E assim se fez”. (v 6,7 ). É surpreendente perceber aqui que há uma divisão dupla: primeiro, há um firmamento no meio das águas e este firmamento divide as águas das águas e, segundo, o firmamento dividiu as águas que estavam debaixo dele das que estavam sobre ele. Cremos que o “firmamento”, aqui, tipifica a Cruz , e apresenta o seu duplo aspecto. Lá, o nosso bendito Senhor foi dividido ou separado do próprio Deus — “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” e, também lá (na cruz), Ele foi separado do homem “Cortado da terra dos viventes” (Is 53:8).

     Que o “firmamento”, aqui, realmente prefigura a Cruz, está claramente sustentado pela maravilhosa analogia entre o que aqui nos é contado a seu respeito e a sua concordância simbólica com a Cruz de Cristo. Observe quatro aspectos:

     Primeiro, o firmamento foi o propósito de Deus antes de ser realmente feito. No verso 6, lê-se: “E disse Deus: Haja firmamento...”, e no verso 7, “Fez, pois, Deus o firmamento...”. Como é perfeita a relação entre aquilo que prefigura o tipo e aquilo que é prefigurado no tipo (antitipo). Muito, mas muito tempo antes que a cruz fosse erigida nas alturas do Gólgota, já era o propósito de Deus. Cristo foi “O Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo”. (Ap 13:8).

     Segundo, o firmamento foi estabelecido no meio das águas. É bem sabido entre os estudiosos da Bíblia que na Escritura “águas” simboliza povos, nações (Ap 17:15). Na sua aplicação simbólica, portanto, estas palavras poderiam significar “Deixe a Cruz ser colocada no meio dos povos”. Múltiplas são as aplicações sugeridas por estas palavras. Mas, infinitamente mais exacto, é o tipo. As nossas mentes, imediatamente, voltam-se para as palavras “onde O crucificaram e com Ele outros dois, um de cada lado, e Jesus no meio” (Jo 19:18). A situação geográfica do Calvário é do mesmo modo materialização de uma realidade: a Palestina é praticamente o centro ou o meio da terra.

     Terceiro, o firmamento dividiu as águas. Portanto, a Cruz dividiu os “povos”. A Cruz de Cristo é o grande divisor da humanidade. Foi assim historicamente, o ladrão que creu, do ladrão impotente (desprotegido). Assim foi desde aquele dia e assim é hoje. Por um lado, “Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem”, mas, por outro lado, “para nós, que somos salvos, poder de Deus” (1 Cor 1:18).

     Quarto, o firmamento foi designado por Deus. “E Deus fez o firmamento”. Também assim foi anunciado no Dia de Pentecostes em relação ao Senhor Jesus Cristo. “Sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus” (Actos 2:23). Do mesmo modo foi declarado no tempo antigo, “Agradou ao Senhor feri-lo; colocou sobre Ele o sofrimento”. A Cruz foi desígnio e compromisso divino.

     Também não é profundamente significativo que as palavras, “E Deus viu que era bom” tenham sido omitidas no final da obra do segundo dia? Se elas aqui fossem incluídas o símbolo teria sido destruído. A obra do segundo dia apontava para a Cruz e, na Cruz, Deus estava lidando com o pecado. Ali, a sua ira estava a ser usada sobre o Justo, o qual estava a morrer pelo injusto. Embora Ele não tivesse nenhum pecado, ainda assim Ele “foi feito pecado por nós”. Portanto, a omissão, neste ponto, da usual expressão “Deus viu que era bom” assume um significado mais profundo do que aquele até então admitido.


III. Na obra do terceiro dia a Ressurreição do Senhor é simbolicamente apresentada.

     O nosso artigo já excedeu os limites que originalmente estabelecemos, portanto, forçosamente devemos abreviá-lo.
A terceira etapa necessária para a realização da obra de Redenção foi a Ressurreição do Crucificado. Um Senhor morto não poderia salvar ninguém. “Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus...” Por quê? “vivendo sempre...” (Hb 7:25).

     Desta maneira está no nosso símbolo. Acima de qualquer dúvida, aquilo que foi prefigurado na obra do terceiro dia é a Ressurreição. No registo concernente ao terceiro dia é que lemos “e apareça a porção seca” (v 9). Antes disso havia estado submersa, enterrada sob as águas. Mas, agora, a porção seca é levantada acima dos mares; há ressurreição, a terra aparece. Mas isto não é tudo. No verso 11 lemos, “Produza a terra relva...”. Até este ponto a morte reinava suprema. Nenhuma forma de vida aparecia sobre a superfície da terra devastada. Mas, no terceiro dia, à terra é ordenado “produzir”. Não no segundo nem no quarto, mas no terceiro dia, a vida foi vista sobre a terra devastada! Perfeito é o símbolo para todos que têm olhos para ver. Maravilhosamente significativas são as palavras, “produza a terra” para aqueles que têm ouvidos para ouvir. Foi no terceiro dia que nosso Senhor ressurgiu dentre os mortos, de acordo com as Escrituras. De acordo com quais Escrituras? Nós não temos nestes versos 9 e 11 de Génesis 1, as primeiras dessas escrituras, bem como o quadro original da Ressurreição de nosso Senhor?


IV. Na obra do quarto dia a Ascensão do Senhor é simbolicamente sugerida.

     A Ressurreição não completou o trabalho da Redenção de nosso Senhor. Para tal Ele deveria entrar no Lugar Celestial que não fosse feito por mãos. Ele deveria tomar o Seu lugar à mão direita da Majestade nas alturas. Ele deveria ir “para o mesmo céu, para comparecer, agora, por nós, diante de Deus” (Hb 9:24).

     Mais uma vez vemos que o Tipo corresponde ao Antitipo. Na obra do quarto dia os nossos olhos são removidos da terra e todos os seus afazeres se voltam para os céus! (veja os versos 14–19) . À medida que lemos estes versos e deduzimos algo da sua importância tipológica, não vemos o Espírito Santo dizer, “Buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra” (Cl 3: 1,2)?

     E à medida que levantamos nossos olhos em direcção aos céus, o que vemos? Duas grandes luzes — simbolicamente Deus e seu povo. O sol que nos fala do “Sol da Justiça” (Ml 4:2), e a lua que fala de Israel e da Igreja (Ap 12:1), tomando emprestado e reflectindo a luz do sol. E observe as suas funções: primeiro, eles existem “para alumiarem a terra” (v 18). Do mesmo modo acontece com Cristo e o Seu povo. Durante o presente intervalo de trevas, a noite do mundo, Cristo e o Seu povo são “a luz do mundo”, mas durante o Milénio eles vão governar e reinar sobre a terra.

     Portanto, na obra dos quatro primeiros dias de Génesis 1, vemos a prefiguração dos quatro grandes estágios ou crises na realização da Obra de Redenção. A Encarnação, a Morte, a Ressurreição e a Ascensão de nosso abençoado Senhor estão, respectivamente, tipificadas. À luz desta prefiguração, quão preciosas são as palavras no final da obra dos seis dias: “Assim, pois, foram acabados os céus e a terra e todo o seu exército. E havendo Deus terminado no dia sétimo a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito”(Gn 2:1,2). A obra da Redenção está completa, e nesta obra Deus encontrou o Seu descanso!

     Como vamos continuar nossas meditações sobre o livro de Génesis, possa Deus, em Sua graça misericordiosa, revelar-nos “os aspectos maravilhosos da Sua Lei”.

- Arthur W. Pink

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Fonte: Capítulo 2 do livro Gleanings In Genesis (Respigos em Génesis).

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