As Escrituras e a oração

     Um crente que não ora é uma contradição de termos. Tal como um aborto é uma criança morta, assim também o crente professo que não ora está destituído de vida espiritual. A oração é como que a respiração da nova vida dos santos, do mesmo modo que a Palavra de Deus é o seu alimento.

     Quando o Senhor quis assegurar ao Seu discípulo de Damasco que Saulo de Tarso verdadeiramente se convertera, disse-lhe: "... pois eis que ele está orando" (Actos 9:11). Em muitas ocasiões anteriores aquele Fariseu, tão justo aos seus próprios olhos, tinha dobrado os joelhos diante de Deus nas suas "devoções"; mas aquela era a primeira vez em que ele realmente orava. Essa importantíssima distinção precisa de ser frisada neste nosso tempo de formalidades externas mas sem poder (II Timóteo 3:5). Aqueles que se contentam em dirigir-se formalmente a Deus, na realidade não O conhecem; e isso porque "o espírito de graça e de súplicas" (Zacarias 12:10) jamais poderão ser separados. Deus não possui filhos mudos na Sua família de regenerados: "Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a Ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los?'' (Lucas 18:7). Sim, os escolhidos "clamam" ao Senhor, e não meramente "rezam".

     Mas, ficará o prezado leitor surpreendido se este pregador lhe disser que a sua profunda convicção é que o povo do Senhor, com toda a probabilidade, peca mais nos seus esforços em orar do que em relação a qualquer outra coisa que costumam fazer? Quanta hipocrisia existe, onde deveria haver sinceridade! Quantas exigências presunçosas, onde deveria haver submissão! Quanta formalidade, onde deveria haver quebrantamento de coração! Quão pouco realmente sentimos os pecados que confessamos, e quão superficial é nosso sentido de necessidade das misericórdias que buscamos! E até mesmo nos casos em que Deus nos confere certa medida de livramento desses tremendos pecados, quanta frieza de coração, quanta incredulidade, quanta atitude voluntariosa e quanto desejo de nos agradarmos a nós mesmos deveríamos lamentar! Aqueles que não têm consciência destas coisas são inteiramente estranhos ao espírito de santidade.

     Ora, a Palavra de Deus deveria ser o nosso manual de orações. Infelizmente, porém, com quanta frequência as nossas próprias inclinações carnais servem de regra para as nossas petições. As Sagradas Escrituras foram-nos outorgadas para que "... o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra" (II Timóteo 3:17). Visto que de nós é requerido orar "... no Espírito Santo... " (Judas 20), segue-se que as nossas orações deveriam seguir o padrão das Escrituras, posto que Ele é o Seu autor do princípio ao fim. E disso se conclui, de modo semelhante, que segundo a medida em que habitar em nós ''ricamente" (Colossenses 3:16) a Palavra de Deus – ou então com pobreza – as nossas orações estarão mais ou menos em harmonia com a mente do Espírito, porquanto "... a boca fala do que está cheio o coração" (Mateus 12:34). Na proporção em que entesourarmos a Palavra nos nossos corações, e na medida em que ela limpa, molda e rege o nosso homem interior, assim também as nossas orações são aceitáveis aos olhos de Deus. Então seremos capazes de dizer, conforme fez Davi noutra relação: "Porque tudo vem de Ti, e das Tuas mãos To damos" (1 Crónicas 29:14).

     Por conseguinte, a pureza e o poder da nossa vida de oração servem de um outro indicador mediante o qual podemos determinar até que ponto estamos a tirar proveito da nossa leitura e pesquisa bíblicas. Se, sob a bênção do Espírito Santo, os nossos estudos da Bíblia não nos estão a convencer de que não orar é pecado, nem nos estão a revelar o papel que a oração deve ocupar nas nossas vidas diárias, para dedicarmos mais tempo real a abrigarmo-nos no esconderijo do Altíssimo; a menos que isso nos esteja a ensinar como orar de maneira mais aceitável a Deus, a apropriarmo-nos das Suas promessas, a dirigir-Lhe os nossos rogos, e a apropriamos dos Seus preceitos para os transformarmos em petições, então o tempo que gastamos com a Bíblia não somente pouco ou nada tem contribuído para o enriquecimento da alma, como também o próprio conhecimento que temos adquirido com a letra das Escrituras contribuirá para a nossa condenação, naquele dia vindouro. "Tornai-vos, pois, praticantes da Palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos" (Tiago 1:22). Esta declaração aplica-se às admoestações da Bíblia relativas à oração, e a todas as demais instruções que nela há. Desejamos, em seguida, salientar sete critérios a esse respeito.


1.Tiramos proveito das Escrituras quando somos levados a perceber a importância profunda da oração.

É de se temer que, de facto, muitos dos leitores (e até mesmo estudiosos) da Bíblia não tenham qualquer convicção formada de que uma vida definida de oração é absolutamente essencial para andarmos e comungarmos diariamente com Deus, tal como é essencial para sermos libertados do poder do pecado no íntimo, das seduções do mundo e dos assédios de Satanás. Se tal convicção realmente se tivesse apossado dos seus corações, não passariam muito mais tempo prostrados diante de Deus? É mais do que vão, dizer: "Uma multidão de deveres impede que eu me entregue à oração, embora isso seja contra os meus desejos". Porém, permanece de pé o facto de que cada um de nós dedica tempo a qualquer coisa que consideramos imperativo. Quem jamais viveu uma vida tão atarefada como o nosso Salvador? No entanto, quem encontrava mais tempo do que Ele para orar? Se verdadeiramente anelamos ser suplicantes e intercessores diante de Deus, e usarmos todo o tempo disponível, Ele porá as coisas numa tal ordem que nos sobrará mais tempo.

     A falta de convicção positiva sobre a profunda importância da oração evidencia-se claramente na vida colectiva dos crentes professos. Deus declarou com toda a clareza: "A Minha casa será chamada casa de oração" (Mateus 21:13). Notemos que não se trata de uma casa para "pregar" ou para "cantar", e, sim, uma casa de oração. No entanto, na maioria até mesmo das chamadas igrejas ortodoxas, o ministério da oração tem-se reduzido a um ponto desprezível. Continua a haver campanhas evangelísticas e conferências bíblicas, mas quão raramente se ouve falar na dedicação de duas semanas a orações especiais! E quanto bem podem fazer essas "conferências bíblicas", se a vida de oração das igrejas não for fortalecida?

     Porém, quando o Espírito Santo aplica poderosamente aos nossos corações palavras como "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação" (Marcos 14:38), ". . . em tudo, porém, sejam conhecidas diante de Deus as vossas petições, pela oração e pela súplica, com acções de graça" (Filipenses 4:6), e "Perseverai na oração, vigiando com acções de graça" (Colossenses 4:2), então é que estamos a tirar proveito dos nossos estudos das Escrituras.


2. Tiramos proveito das Escrituras quando somos levados a reflectir que não sabemos como orar.

     ". . .não sabemos orar como convém... " (Romanos 8:26). Quão poucos crentes professos realmente acreditam nisto! A ideia mais generalizada entre os homens é que eles sabem bem sobre o que devem orar, mas que por serem descuidados e ímpios, não oram em favor daquilo que sabem com certeza ser o seu dever. Esse conceito, entretanto, está em total desarmonia com a inspirada declaração de Romanos 8:26. Devemos também observar que essa afirmação, tão humilhante para a carne, não diz respeito apenas aos homens em geral, mas dirige-se particularmente aos santos de Deus, entre os quais o apóstolo não hesitou em incluir-se: "... não sabemos orar como convém.... '' 

     Ora, se essa é a condição que prevalece entre os regenerados, quanto mais no caso dos não regenerados! Contudo, uma coisa é lermos e concordarmos mentalmente com o que este versículo assevera; mas é coisa totalmente diferente perceber experimentalmente a sua verdade, pois, para que o coração seja levado a sentir aquilo que Deus requer de nós, é necessário que Ele mesmo opere em nós e por nosso intermédio.

Com frequência digo as minhas orações,
Mas, realmente chego a orar?
E harmonizo os desejos do coração
Com as palavras que profiro?
Equivaleria a ajoelhar-me
E a adorar deuses de pedra,
Se apenas ofereço ao Deus vivo
Orações que são meras palavras.

     Há muitos anos que estas linhas foram ensinadas a um teólogo pela sua mãe – já falecida – mas a sua perscrutadora mensagem ainda o impressiona muitíssimo. O crente não pode orar sem a aptidão dada directamente pelo Espírito Santo, como também não pode criar um mundo. Assim realmente deve ser, pois a oração verdadeira é uma necessidade sentida e despertada em nós pelo Espírito, porquanto pedimos a Deus, em nome de Cristo, aquilo que está em conformidade com a Sua santa vontade. "E esta  é a confiança que temos para com Ele, que, se pedirmos alguma coisa segundo a Sua vontade, Ele nos ouve" (I Joio 5:14). Por outro lado, pedir qualquer coisa que não esteja de acordo com a vontade de Deus não é oração, mas presunção.

     É verdade que a vontade revelada de Deus faz-se conhecida na Sua Palavra; mas não da mesma maneira que um livro de receitas de cozinha contém receitas para o preparo de vários pratos. As Escrituras enumeram frequentemente princípios que exigem um contínuo exercício do coração, bem como a ajuda divina, para que nos seja mostrada a sua aplicação a diferentes casos e circunstâncias.

     Portanto, estamos realmente a tirar proveito das Escrituras quando nos é ensinada a nossa profunda necessidade de clamar: "Senhor, ensina-nos a orar" (Lucas 11:1). Porque é então que realmente somos constrangidos a pedir d’Ele o espírito de oração.


3. Tiramos proveito dos nossos estudos bíblicos quando tomamos consciência da necessidade que temos da ajuda do Espírito Santo. 

     Em primeiro lugar, para que Ele nos torne conhecidas as nossas autênticas necessidades. Tomemos, por exemplo, as nossas necessidades temporais. Com quanta frequência nos achamo em alguma situação aflitiva; externamente falando, as coisas pressionam-nos fortemente, e desejamos muito ser libertos desses testes e dessas dificuldades. Certamente que, nesse caso, sabemos, por nós mesmos, sobre o que nos convém orar.

     Mas não! De facto, as coisas são bem diferentes disso! Pois a verdade é que, a despeito do nosso desejo natural de alívio, tão ignorantes somos nós e tão embotado é o nosso discernimento, que (até mesmo quando a nossa consciência está desperta) não sabemos em que ponto Deus quer que nos submetamos à Sua vontade, ou de que modo podemos ser santificados nessas aflições, fazendo-as redundar em nosso bem interno. Por conseguinte, Deus designa as petições da maioria daqueles que buscam alívio, devido a aflições externas, de "uivos", e não "clamores de coração" (Oséias 7:14). "Pois quem sabe o que é bom para o homem, durante os poucos dias da sua vida de vaidade os quais gasta como sombra?" (Eclesiastes 6:12). Ah, a sabedoria celestial torna-se necessária, para ensinar-nos a orar sobre as nossas "necessidades" temporais, em conformidade com a mente de Deus.

     Talvez algumas poucas palavras precisem de ser acrescentadas àquilo que acabámos de dizer. Podemos orar, com sanção bíblica, pelas coisas temporais (Mateus 6:11ss.); mas isso com a seguinte limitação tríplice: Incidentalmente, mas não primariamente, podemos orar por elas, pois não são essas as coisas que mais preocupam o crente (Mateus 6:33). As realidades celestiais e eternas (Colossenses 3:1) é que devem ser procuradas primeiro e principalmente, por serem de muito maior importância do que as coisas de valor meramente temporal.

     Também podemos orar subordinadamente, como meio para obtenção de um fim qualquer. Ao pedirmos as coisas materiais da parte de Deus, não devemos fazê-lo a fim de obter satisfação própria, e, sim, como ajuda que nos permita agradar melhor ao Senhor. Por fim, podemos orar de maneira submissa, e não como ditadores, porquanto isso importaria no pecado de presunção. Também não sabemos dizer com certeza se qualquer misericórdia temporal realmente contribuiria para nosso maior bem (Salmo 106:18), pelo que também devemos permitir que Deus decida a questão.

     Temos desejos internos; tanto quanto desejos externos. Alguns desses desejos podem ser discernidos à luz da consciência, tal como a culpa e a contaminação do pecado, como os pecados contra a luz e contra a natureza de acordo com a clara letra da lei. Não obstante, o conhecimento que temos de nós mesmos, através da consciência, é tão obscuro e confuso que, sem o auxílio do Espírito Santo, de forma alguma seremos capazes de descobrir a verdadeira fonte da purificação. As coisas a respeito das quais os crentes devem tratar primariamente com Deus, e geralmente o fazem, nas suas súplicas, são as atitudes íntimas e as disposições espirituais das suas almas.

     Assim é que Davi não se satisfez somente em confessar todas as transgressões conhecidas e o seu pecado original (Salmo 51:1-5), nem ainda em reconhecer que ninguém poderia compreender os seus próprios erros, pelo que almejava ser purgado das suas ''faltas ocultas" (Salmo 19:12); mas também implorou a Deus que levasse a efeito a sondagem profunda do seu coração, para que desvendasse o que havia de errado ali (Salmo 139:23,24), porque sabia que Deus, antes de tudo, requer a "... verdade no íntimo... " (Salmos 51:6).

     Portanto, em face do trecho de I Coríntios 2:10-12, devemos buscar, de maneira bem definida, a ajuda do Espírito Santo, a fim de podermos orar de modo aceitável a Deus.


4. Extraímos benefícios das Escrituras quando o Espírito Santo nos ensina a finalidade correcta da oração.

     Deus determinou a ordenança da oração com, pelo menos, um desígnio tríplice. Primeiro, para que o grande Deus triuno seja honrado, já que a oração é um acto de adoração, a prestação de uma homenagem – a Deus Pai, como o Doador, em nome do Filho, o Único por intermédio de Quem nos aproximamos d’Ele, devido ao poder impulsionador e orientador do Espírito Santo. Segundo, para humilhar os nossos corações, já que a oração foi determinada para levar-nos a uma posição de dependência, para que em nós se desenvolva o sentido de incapacidade reconhecendo que sem o Senhor nada podemos fazer, porquanto também dependemos da Sua caridade por tudo quanto somos e temos. Porém, quão debilmente isso é percebido (se é que é percebido) por qualquer de nós, até que o Espírito Santo nos tome na Sua mão, remova de nós o orgulho e dê a Deus o lugar que a Ele compete, nos nossos corações e nos nossos pensamentos. Terceiro, como meio pelo qual obtemos para nós mesmos as coisas boas que pedimos. 

     É de temer-se grandemente que uma das principais razões pelas quais tantas das nossas orações ficam sem resposta é porque temos alguma finalidade errônea e indigna em mira. O nosso Salvador disse: "Pedi, e dar-se-vos-á" (Mateus 7 :7). No entanto, Tiago ensina a respeito de certos homens: ". . . pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres" (Tiago 4:3). Orar em prol de qualquer coisa, mas não expressamente para a finalidade designada por Deus, é "pedir mal", e, portanto, é pedir sem propósito algum. Qualquer que seja a confiança que podemos ter na nossa própria sabedoria e integridade, se formos abandonados aos nossos próprios recursos, os nossos alvos jamais se harmonizarão com a vontade de Deus. A menos que o Espírito Santo refreie a natureza carnal que há em nós, os nossos próprios afectos naturais e insubmissos se imiscuirão nas nossas súplicas, e estas se tornarão vãs. "Quer comais, quer bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus" (I Coríntios 10:31). Contudo, só o Espírito pode capacitar-nos a subordinar todos os nossos desejos à glória divina.


5. Tiramos proveito das Escrituras quando somos ali ensinados sobre como devemos pleitear as promessas de Deus.

     Toda a oração deve ser feita na atmosfera da fé (Romanos 10:14), pois, do contrário, Deus não a ouvirá. Ora, a fé diz respeito às promessas de Deus (Hebreus 4:1; Rom. 4:21); por conseguinte, se não entendermos o que Deus Se comprometeu a dar-nos, não poderemos nem ao menos orar. As promessas de Deus contêm a matéria da oração e definem as suas dimensões. Aquilo que Deus tem prometido, tudo quanto Ele tem prometido, e nada mais, sobre isso podemos orar. "As cousas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus. . ." (Deut. 29:29), mas aquilo que Ele tem mostrado ser da Sua vontade, como revelação à Sua igreja, pertence a nós; e isso serve-nos de regra.

     Não há nada de que tenhamos necessidade que Deus não tenha prometido suprir; mas fá-lo de tal maneira e sob tais limitações, que seja bom e útil para nós. De modo semelhante, nada há que Deus tenha prometido, e de que não tenhamos necessidade, ou que, de um modo ou de outro, não se refira a nós, na qualidade de membros do corpo místico de Cristo. Portanto, quanto melhor estivermos familiarizados com as promessas divinas, e quanto mais formos capazes de compreender a bondade, a graça e a misericórdia preparadas e propostas naquelas promessas, tanto melhor equipados estaremos para fazer orações aceitáveis ao Senhor.

     Algumas das promessas de Deus são gerais, e não específicas; algumas delas são condicionais, ao passo que outras são incondicionais; algumas se cumprem ainda nesta vida, mas outras, somente no mundo vindouro. Por nós mesmos, não somos capazes de discernir qual a promessa se adapta melhor ao nosso caso específico e à nossa presente urgência e necessidade, para que dela nos apropriemos pela fé e façamos um apelo correcto diante de Deus. É por isso que nos é expressamente dito: "Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu próprio espírito que nele está? Assim também as coisas de Deus ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus. Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e, sim, o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dada gratuitamente" (I Coríntios 2:11,12).

     Se porventura alguém replicar: "Se tanta coisa é exigida para que se façam orações aceitáveis, e se não se podem fazer súplicas correctas a Deus sem tanta dificuldade como aqui é indicado, poucos se dedicarão por muito tempo a este mister", então a resposta é que a pessoa que assim objecta não sabe o que é orar, e nem está disposta a aprender a fazê-lo.


6. Tiramos real proveito das Escrituras quando somos levados a uma completa submissão a Deus.

     Conforme foi declarado acima, uma das finalidades divinas, ao determinar a ordenança da oração, é que assim fôssemos humilhados. Isso é externamente denotado quando nos prostramos de joelhos perante o Senhor. A oração é o reconhecimento da nossa incapacidade e impotência, em que olhamos para Aquele de onde chega toda a nossa ajuda. Isso reconhece a Sua suficiência para suprir cada uma das nossas necessidades. Orar é tornar conhecidas as nossas "petições" (Filipenses 4:6) a Deus; mas petições são bem diferentes de exigências. "O trono da graça não foi erigido para que ali cheguemos e descarreguemos os nossos sentimentos indignados perante Deus" (Wm. Gurnall). Compete-nos expor o nosso caso na presença de Deus, mas permitir que a Sua sabedoria superior prescreva como a questão deve ser solucionada. Não podemos ditar a Deus, e nem podemos "reivindicar" qualquer coisa da parte de Deus, porquanto somos esmoleiros que dependem da Sua pura misericórdia. Em todas as orações devemos acrescentar: "No entanto, não seja feita a minha vontade, e, sim, a Tua".

     Porém, não pode a fé pleitear as promessas de Deus e esperar a resposta? Certamente, mas deve ser a resposta de Deus. O apóstolo Paulo rogou ao Senhor, por três vezes, que lhe removesse certo espinho na carne; em vez de fazê-lo, o Senhor conferiu-lhe a graça para suportar tal espinho (II Coríntios 12:7-9). Muitas das promessas de Deus são colectivas, e não pessoais. Ele prometeu dar à Sua Igreja pastores, mestres e evangelistas; no entanto, muitas das comunidades dos Seus santos têm definhado por longo tempo sem esses ministérios. Outras promessas divinas são indefinidas e gerais, ao invés de serem absolutas e universais. Isso verifica-se, por exemplo, no trecho de Efésios 6:2,3. Deus jamais Se comprometeu a dar-nos bens definidos em espécie ou tipo, a conferir-nos aquela coisa específica que pedimos, embora a peçamos com fé.

     Ele também reserva para Si mesmo o direito de determinar o tempo próprio, a ocasião certa, para derramar sabre nós a Sua mercê. "Buscai o Senhor, vós todos os mansos da terra... porventura lograreis esconder-vos no dia da ira do Senhor" (Sofonias 2:3). Justamente porque "pode" fazer parte da vontade de Deus proporcionar-me determinada bênção temporal, é meu dever lançar-me aos Seus cuidados e pleitear essa bênção; mas sempre com inteira submissão ao Seu beneplácito, para que isso se realize.


7. Tiramos proveito das Escrituras quando a oração se torna uma alegria real e profunda.

     Meramente "dizer orações" em cada manhã e tarde é uma tarefa enfadonha, um dever que produz um suspiro de alívio ao ser realizado. Porém, realmente chegar à presença consciente de Deus, contemplar a luz gloriosa da Sua face, ter comunhão com Ele diante do propiciatório, é prelibação da bem-aventurança eterna que nos espera nos Céus. Aquele que é abençoado com essa experiência pode dizer juntamente com o salmista: "Quanto a mim, bom é estar junto a Deus... " (Salmo 73:28). Sim, é bom para o coração, porque esse é aquietado; é bom para a fé, pois essa é fortalecida; é bom para a alma, pois ela é abençoada. A ausência dessa comunhão de alma com Deus é a raiz que impede a resposta às nossas orações: "Agrada-te do Senhor, e Ele satisfará os desejos do teu coração" (Salmo 37:4).

     Qual é o factor que, sob a bênção do Espírito Santo, produz e promove essa alegria na oração? Em primeiro lugar, é o deleite do próprio coração em Deus, como o grande Objecto da oração; e, mais particularmente, o reconhecimento e a percepção de Deus como nosso Pai. Por essa razão é que quando os discípulos pediram ao Senhor Jesus que lhes ensinasse a orar, Ele respondeu: "... vós orareis assim: Pai nosso que estás nos Céus..." (Mateus 6:9). E também se lê : "E, porque vós sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba (termo hebraico que significa "Pai") Gálatas 4:6. E isso inclui um deleite filial e santo em Deus, tal como as crianças têm em seus progenitores, quando se dirigem de maneira muito amorosa a eles. Por essa razão, de modo semelhante, é que nos é dito, em Efésios 2:18, para fortalecimento da fé e para consolo de nossos corações que "...por Ele (ou seja, Cristo), ambos temos acesso ao Pai em um Espírito". Que paz, que certeza e que liberdade isso nos confere à alma – sabermos que nos aproximamos do nosso Pai!

     Em segundo lugar, a alegria na oração é promovida pelo facto de que o coração aprende e a alma vê a Deus, como Alguém assentado no trono da graça – uma visão de expectação, conferida, não pela imaginação carnal, e, sim, pela iluminação espiritual, já que é pela fé que vemos "... Aquele que é invisível" (Hebreus 11:27), porque também a fé é "... a convicção de factos que se não vêem" (Hebreus 11:1), o que faz com que o seu objecto se torne evidente e presente para aqueles que crêem. Tal vista de Deus sobre um "trono" não pode deixar de arrebatar a alma. Por isso mesmo, somos exortados: "Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna" (Hebreus 4:16).

     Em terceiro lugar, e isso com base no último trecho bíblico citado, a liberdade e o deleite na oração são estimulados pela consciência de que Deus, por intermédio de Jesus Cristo, está disposto e pronto a dispensar graça e misericórdia aos pecadores súplices. Não há n’Ele qualquer reluctância que precisemos de vencer. Por esse motivo é que ele é representado, em Isaías 30:18, do seguinte modo: "Por isso o Senhor espera, para ter misericórdia de vós, e se detém para se compadecer de vós, porque o Senhor é Deus de justiça; bem-aventurados todos os que n’Ele esperam".

     Sim, Deus espera ser solicitado por nós; Ele espera que depositemos fé na Sua pronta disposição para nos abençoar. Os seus ouvidos estão perenemente abertos aos clamores dos justos. Assim sendo, "... aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé... " (Hebreus 10:22). E também se lê em Filipenses 4:6,7 : "... em tudo, porém, sejam conhecidas diante de Deus as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graça. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus".
- A. W. Pink

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