O Corpo de Cristo passará pela Grande Tribulação?

Cornelius R. Stam

 

     Nos últimos anos, numerosos argumentos têm sido apresentados para supostamente provar que a Igreja, o Corpo de Cristo, passará pela “Grande Tribulação” antes de ser “arrebatada” para estar com o Senhor.

     A tendência atual dos eventos está, é claro, a fazer com que muitos crentes sinceros temam que seja assim, porém nós colocamos a nossa confiança somente na Palavra de Deus e estamos amplamente confirmados na nossa fé de que o Arrebatamento da Igreja terá lugar antes do início do período da Grande Tribulação, e que os membros do Corpo de Cristo escaparão assim aos sofrimentos que os santos da Grande Tribulação serão chamados a suportar.

     O nosso propósito ao escrever este artigo não é defender ou atacar ninguém, mas simplesmente considerar se os argumentos para um Arrebatamento pós-tribulação são válidos.

 

Nenhum versículo das Escrituras?

     Alguns que defendem a posição do Arrebatamento depois da Grande Tribulação dizem que não existe um único versículo das Escrituras que afirme explicitamente o Arrebatamento da Igreja antes da Grande Tribulação.

     Mas porque há necessidade de haver? Não há um único versículo das Escrituras que afirme explicitamente que o nosso Senhor foi batizado antes da Sua tentação pelo diabo, ou que Ele foi coroado com espinhos antes de ser crucificado, ou que o batismo com água não está mais incluído no programa de Deus para os crentes, ou que Deus é uma Trindade. No entanto, há provas bíblicas abundantes para tudo isso e estas são aceites como a verdade da Palavra de Deus.

     Há anos, imprimimos um artigo intitulado First the Departure (Primeiro o Arrebatamento), no qual tratámos detalhadamente uma passagem das Escrituras que afirma explicitamente que o Arrebatamento precederá a Grande Tribulação. Neste artigo, demos evidências conclusivas de que as palavras hee apostasia em 2 Tessalonicenses 2:3 deveriam ter sido traduzidas por “a partida” em vez de “apostasia”. Essa passagem diz:

     “Ninguém, de maneira alguma, vos engane, porque não será assim[1] sem que antes venha a apostasia [a partida] e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição.”

     Os versículos anteriores e a carta anterior escrita por Paulo a essas mesmas pessoas dão testemunho de que “a partida” a que ele se refere é a partida dos crentes para irem e estar com Cristo.

     Ficamos bastante surpresos ao ver quão levianamente alguns descartaram as evidências que apresentámos para esta tradução de 2 Tessalonicenses 2:3. Demos provas bíblicas após provas de que a palavra apostasia não significa partida da verdade, mas simplesmente partida, e que a passagem original em questão certamente não usa as palavras "uma apostasia", mas sim "a partida".

     A tudo isso os nossos irmãos pós-tribulacionistas reagem simplesmente declarando com autoritarismo e dogmatismo que a palavra apostasia significa afastamento da verdade.

     Para que alguns dos nossos leitores não acreditem que apostasia significa partida da verdade, oferecemos novamente o que acreditamos ser uma prova bíblica conclusiva de que as palavras "a apostasia", em 2 Tessalonicenses 2: 3, deveriam ter sido traduzidas por "a partida" e que a palavra Grega apostasia não contém a ideia de revolta ou rebelião como acontece na nossa palavra portuguesa apostasia.

 

APOSTASIA e APOSTASIA

     Na verdade, o substantivo Grego apostasia ocorre em apenas uma outra passagem no Novo Testamento, a saber Atos 21:21, onde Paulo é informado do relato de que ele ensinava “todos os Judeus que estão entre os Gentios a apartarem-se de Moisés.”

     Sugerimos que aqui “partir” seria um sinónimo mais próximo da tradução “apartar” do que a palavra “apostatar”. Apartar não é exatamente revoltar ou rebelar contra, que é o significado de apostasia. Além disso, neste caso, somos explicitamente informados de que aqueles Judeus estavam a ser instados a apartar ou partir de Moisés, indicando que a palavra apostasia por si só não significa “uma partida da verdade”, mas simplesmente “uma partida”.

     Mas algumas pessoas evidentemente não consideraram o verbo raiz do qual o substantivo apostasia deriva. Este verbo, aphisteemi, ocorre 15 vezes no Novo Testamento e o seu significado é fácil de determinar a partir das passagens em que é usado. Para que não haja engano, apresentamos aqui uma lista de todos os usos desse verbo no Novo Testamento:

     Lucas 2:37—”não se afastava [ou apartava], do templo.”

     Lucas 4:13—”o diabo…ausentou-se d’Ele.”

     Lucas 8:13—”no tempo da tentação se desviam [ou, apartam].”

     Lucas 13:27—”apartai-vos de Mim, vós todos os que praticais a iniquidade.”

     Atos 5:37—”levou muito povo após si.”

     Atos 5:38—”Dai de mão a este homens.”

     Atos 12:10—”o anjo se apartou dele.”

     Atos 15:38—”que desde Panfilia se tinha apartado deles.”

     Atos 19:9—”retirou-se deles.”

     Atos 22:29—”dele se apartaram.”

     2 Cor. 12:8—”orei ao Senhor para que se desviasse [ou, se apartasse] de mim.”

     1 Tim. 4:1—”apostatarão alguns da fé.”

     1 Tim. 6:5—”aparta-te dos tais.”

     2 Tim. 2:19—”aparte-se da iniquidade.”

     Heb. 3:12—”para se apartar do Deus vivo.”

     O leitor deve observar cuidadosamente que na esmagadora maioria destas 15 ocorrências, o verbo em questão é traduzido por afastar, apartar, desviar, ausentar, dar de mão, ir após, retirar, ou partir.

     Apenas três das 15 estão preocupadas com o desvio da verdade. Em duas delas é claramente afirmado que a partida é “da fé” (1 Tim. 4:1) e “do Deus vivo” (Hb 3:12), enquanto a terceira implica claramente apartar do que fora crido por algum tempo. O verbo aphisteemi surge traduzido em cada caso simplesmente por partir. E estas são as únicas três passagens das quinze acima em que a partida da verdade está envolvida.

     Nas outras doze, o significado da própria palavra é novamente simplesmente partida - nada mais.

     Em Lucas 4:13, lemos que o diabo “se ausentou” de Cristo. Em Atos 12:10, um anjo “se apartou” de Pedro. Em Atos 15:38, lemos como um homem “se apartou” de Paulo e Barnabé. Em 2 Coríntios 12:8, lemos sobre a oração repetida três vezes de Paulo para que um espinho "se desviasse [ou, partisse, saísse]" ou fosse removido da sua carne. E assim com todas as outras.

     De facto, em dois dos 15 casos acima, o oposto de apostasia ou desvio da verdade está envolvido.

     Em 1 Timóteo 6:5, Timóteo é instruído a apartar-se ("retirar-se") dos homens que são "destituídos da verdade", enquanto em 2 Timóteo 2:19 todos os que "proferem o nome de Cristo" são exortados a "apartar-se da iniquidade”.

     Se alguém considerar cuidadosamente estas quinze ocorrências do verbo raiz do substantivo apostasia, certamente não concluirá que o significado de apostasia é “apostasia” ou “uma partida ou apartar da verdade”.

 

A VERSÃO AUTORIZADA E SUAS PREDECESSORAS

     Antes de deixar este assunto, gostaríamos de chamar a atenção para a tradução que Kenneth S. Wuest faz de 2 Tessalonicenses 2:3 na sua Expanded Translation of the Greek New Testament (Tradução Expandida do Novo Testamento Grego). Diz o seguinte:

     “Não comecem a permitir que alguém vos desvie de alguma forma, porque aquele dia não chegará, antes que partida mencionada [da Igreja para o Céu] ocorra primeiro e o homem da iniquidade seja revelado [na sua verdadeira identidade], o filho da perdição. ”

     Apesar de agora, a tradução de Wuest do Novo Testamento poder ser julgada, duvidamos que, ao traduzir o versículo, ele estivesse a tentar estabelecer uma teoria particular quanto ao momento do Arrebatamento. Ele estava apenas a tentar produzir uma boa tradução para a sua língua do que o grego realmente diz, e ele prova isso no seu prefácio a 2 Tessalonicenses, em que a dado trecho diz, e passamos a citar:

     “Se apostasia e aphisteemi significavam o que a nossa palavra 'apostasia' e 'apostatar' significam, porque razão Paulo, ao usar aphisteemi em I Timóteo 4:1, sentiu a necessidade de adicionar a frase qualificadora 'da fé' para completar o significado de aphisteemi neste exemplo da sua utilização? ... A palavra apostasia, portanto, no seu significado original e puro, não adulterado pela adição de outras ideias impostas pelos contextos em que tem sido usada, significa ‘uma partida' ”.

     Ao explicar porque a Authorized Version  (Versão Autorizada) falhou em manter a tradução “uma partida”, que eles encontraram nas cinco versões que a precederam, Wuest aponta um erro contido em todas as seis versões. Diz Wuest:

      “O erro fatal que os tradutores cometeram foi não levar em consideração o artigo definido antes da palavra apostasia que aparece no texto grego de Eberhard Nestlé, no do seu filho, Erwin Nestlé, e no de Westcott e Hort. A. T. Robertson na sua obra monumental, A Grammar of the Greek New Testament in the Light of Historical Research (Uma Gramática do Novo Testamento Grego à Luz da Investuigação Histórica), afirma que os tradutores da AV, sob a influência da Vulgata, lidaram com o artigo grego de uma forma solta e imprecisa (p. 756). Ele prossegue, dizendo que o vital é olhar para o assunto em questão sob o ângulo Grego e encontrar uma razão para o uso do artigo em qualquer caso. O uso do artigo aqui é classificado por Dana e Mantey no seu Manual Grammar of the Greek New Testament (Manual de Gramática do Grego do Novo Testamento) como denotando referência anterior. Neste uso, o artigo é usado para apontar um objeto cuja identidade é definida por uma referência anterior feita a ele no contexto (p. 141). A palavra “anterior" é muito importante aqui. Os tradutores da AV procuraram a definição da palavra no contexto subsequente, enquanto o artigo Grego aponta aqui para um contexto anterior, a saber, a vinda do Senhor Jesus aos ares e a reunião dos santos com Ele e a sua consequente ascensão ao Céu. Assim, em vez de falar de uma partida da verdadeira Fé por parte dos homens, Paulo está a referir-se à partida dos santos para o Céu. É esta partida da Igreja que está a impedir a vinda do dia do Senhor e a revelação do homem do pecado na sua verdadeira identidade.”

     O Dr. E. Schuyler English também fez um estudo abrangente do Arrebatamento em relação à tribulação e escreveu um livro sobre o assunto intitulado Re-thinking the Rapture (Repensando o Arrebatamento). Nele, trata detalhadamente o significado de apostasia e a sua raiz verbal, aphisteemi, e prossegue, dizendo:

     “O dia do Senhor não virá, então, antes de o homem do pecado ser revelado. E antes que ele seja revelado, tem que haver 'a partida'. Partida de quê ou para quê? Deve ter sido algo sobre o qual os crentes Tessalonicenses foram informados, caso contrário, o artigo definido dificilmente teria sido empregue, e sem qualquer descrição qualificadora com o substantivo[2]. Porque presumimos que esta partida tem que ser da fé? Foi demonstrado que, na sua forma verbal, a palavra significava frequentemente separação diferente de revolta religiosa. Não baseamos a nossa interpretação no que pode ser uma tradução inadequada do substantivo grego? E visto que o artigo definido sugere fortemente que a partida era algo com o qual os Tessalonicenses estavam familiarizados, porque pensamos na partida como apostasia? Não há nada em nenhuma das epístolas aos Tessalonicenses, até este ponto, sobre a grande apostasia. Supor que, embora o apóstolo não tenha escrito a esta igreja sobre a apostasia, ele deve ter falado com eles sobre a mesma, é pura conjetura.

     “Mais, como os Tessalonicenses, ou os Cristãos em qualquer século desde então, seriam qualificados para reconhecer a apostasia quando esta viesse, presumindo, simplesmente por causa desta investigação, que a Igreja poderia estar na terra quando ela viesse? Tem havido apostasia de Deus, rebelião contra Ele, desde o início dos tempos. E se for proposto que o homem do pecado, sentado no templo de Deus e mostrando-se ser Deus, é a apostasia, devemos formular a nós mesmos uma pergunta: é este ato, por parte do homem do pecado uma apostasia, ou é uma negação blasfema de alguém que nunca, em nenhum momento, reconheceu Deus?

     “Há uma partida a respeito da qual os Tessalonicenses haviam sido instruídos por carta. Isto não é conjetura, mas facto: é o Arrebatamento da Igreja, descrito em 1 Tessalonicenses 4:13-17. Foi por causa da confusão nas mentes destes jovens Cristãos, em relação aos eventos associados à vinda do Senhor, que esta epístola foi escrita - pois alguns haviam procurado enganá-los, por espírito (alegando, talvez, alguma nova revelação de Deus), ou por palavra (possivelmente uma interpretação errada de algo que Paulo disse), ou por carta como de Paulo, dizendo aos Tessalonicenses que o dia do Senhor já estava presente. E como poderia o apóstolo tranquilizar as suas mentes? Ele poderia assegurar-lhes, quanto à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, e a nossa reunião com Ele, que 'o dia do Senhor' não virá antes que primeiro venha a partida, o Arrebatamento, e o homem do pecado seja revelado, o filho da perdição. ”O dia do Senhor não estava presente, pois eles próprios, membros do Corpo místico de Cristo, ainda estavam na terra. O Arrebatamento ainda não havia acontecido, estando eles aqui; pois o homem do pecado não fora revelado.

     “Esta interpretação corresponde perfeitamente na sequência, com a dos versículos 7 e 8, se o poder que o detém é, como cremos ser o caso, o Espírito Santo. A Igreja parte e o homem do pecado é revelado (v. 3); o Espírito Santo, que o detém, é tirado do caminho, 'e então o iníquo será revelado' (v. 7,8). ”

 

CONCLUSÃO

     1. A palavra apostasia e seu verbo raiz, aphisteemi, não significam, por si só, "apostasia" e "apostatar". Eles significam “partida”, “saída”, “remoção”, nada mais.

     2. 2 Tessalonicenses 2:3 declara em Grego que o dia do Senhor não virá “a menos que venha primeiro a partida, e seja revelado o homem do pecado, o filho da perdição”.

     3. O termo “a partida”, com o artigo definido, denota referência anterior.

     4. Paulo havia escrito aos Tessalonicenses na sua carta anterior sobre a partida dos membros do Corpo de Cristo desta terra (1 Tes. 4:16,17) e até dissociou isso do profetizado "dia do Senhor" com o “Mas” de I Tessalonicenses 5:1. Ele também se referiu a esta “partida” na frase “a nossa reunião com Ele”, em 2 Tessalonicenses 2:1. Na verdade, esta foi a base para o seu apelo aos Tessalonicenses para não serem “movidos” ou “perturbados” por aqueles que os queriam fazer pensar que “o dia do Senhor” tinha chegado. Ele também havia-lhes “falado” sobre “essas coisas” enquanto ainda estava com eles (2 Tes. 2:5).

     5. “O homem do pecado” também tem que ser manifestado antes que o “dia do Senhor” possa vir (2 Tes. 2: 3,4) e ele não pode ser manifestado antes que “a partida” aconteça “primeiro”.

     6. Assim, além de muitas provas claras de que o Arrebatamento do Corpo precederá a grande tribulação, também temos uma passagem que “afirma explicitamente” isso.

 

     “Portanto consolai-vos uns aos outros ...” (1 Tes. 4:18).

     “Não vos movais facilmente do vosso entendimento, nem vos perturbeis ...” (2 Tes. 2: 2).

     “Ninguém de maneira alguma vos engane...” (2 Tes. 2: 3).

- Cornelius R. Stam

 

 

[1] 1 Tessalonicenses 2:2 é traduzido mais corretamente o “dia do Senhor”, não o “dia de Cristo”.

[2] “Um estudioso notável como o Dr. George Milligan, no seu comentário sobre o Texto Grego (Macmillan, New York), embora defendendo a tradução tradicional de apostasia, afirma que o uso do artigo definido prova [que a apostasia referida é a] que os leitores do apóstolo já estavam plenamente informados.”

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