A verdadeira esperança do membro do Corpo de Cristo
Vamos tomar como exemplo a Primeira Epístola aos Tessalonicenses. Escolhemos esta epístola porque é reconhecida como a mais antiga dentre os escritos de Paulo, e também porque foi escrita para um grupo de convertidos muito novos. Esta última observação é importante, já que às vezes ouvimos afirmações de que a verdade da vinda do Senhor não deve ser apresentada a novos convertidos. Fica evidente que o apóstolo Paulo não a considerava imprópria para novos convertidos pelo fato de que, dentre todas as epístolas que escreveu, nenhuma fala tanto da vinda do Senhor quanto a que foi escrita para os recém-convertidos tessalonicenses. A verdade é que, quando uma alma é convertida e exposta à plena luz e liberdade do evangelho de Cristo, é divinamente natural que ela aguarde a vinda do Senhor. Esta verdade tão preciosa é parte integral do evangelho.
A primeira vinda e a segunda vinda estão ligadas da forma mais bendita pelo elo divino da presença pessoal do Espírito Santo na Igreja. Por outro lado, onde quer que a alma não esteja fundamentada na graça, onde quer que paz e liberdade não estejam sendo desfrutadas e onde um evangelho incompleto tiver sido apresentado, se descobrirá que a esperança da vinda do Senhor não é tratada com carinho, pelo simples motivo de que a alma estará, por necessidade, ocupada com a questão de sua própria condição e seus objetivos.
Se eu não tenho a certeza da minha salvação — se não sei que tenho vida eterna, que sou filho de Deus — não posso estar esperando pela volta do Senhor. É só quando conhecemos o que Jesus fez por nós em Sua primeira vinda que podemos buscar, com uma santa e viva inteligência, pela Sua segunda vinda.
Mas vamos abrir em nossa Epístola. Leia as seguintes sentenças do primeiro capítulo:
"Porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza... De maneira que fostes exemplo para todos os fiéis na Macedónia e Acaia. Porque por vós soou a palavra do Senhor, não somente na Macedônia e Acaia, mas também em todos os lugares a vossa fé para com Deus se espalhou, de tal maneira que já dela não temos necessidade de falar coisa alguma; Porque eles mesmos anunciam de nós qual a entrada que tivemos para convosco, e como dos ídolos vos convertestes a Deus, para servir o Deus vivo e verdadeiro, e esperar dos céus a Seu Filho, a quem ressuscitou dentre os mortos, a saber, Jesus, que nos livra da ira futura" (1 Ts 1:5-10).
Temos aqui uma bela ilustração do efeito de um evangelho completamente claro, recebido com uma fé simples e sincera. Eles se converteram dos ídolos para servir o Deus vivo e verdadeiro, e esperar pelo Seu Filho. Estavam realmente convertidos à bendita esperança da vinda do Senhor.
Aquela era uma parte integral do evangelho que Paulo pregava, e uma parte integral da fé deles. Era real a conversão dos ídolos? Sem dúvida. Era uma realidade servir o Deus vivo? Indubitavelmente. Bem, então era igualmente tão real, tão positivo, tão simples que esperassem pelo Filho de Deus vindo do céu. Se questionarmos a realidade de uma coisa, seremos obrigados a questionar a realidade de todas, já que todas estão ligadas e formam um belo conjunto da verdade cristã na prática.
Se perguntasse a um cristão tessalonicense o quê ele esperava, qual teria sido sua resposta? Será que teria respondido, "estou esperando que o mundo melhore por meio do evangelho que eu próprio recebi" ou "estou esperando pelo momento de minha morte quando irei me encontrar com Jesus"? Não. Sua resposta teria sido simplesmente esta: "Estou esperando pelo Filho de Deus vindo do céu".
Esta, e nenhuma outra, é a esperança adequada ao cristão, a esperança adequada à Igreja. Esperar pela melhoria do mundo não é esperança cristã alguma. Se fosse, você poderia igualmente esperar pela melhoria da carne, pois há tanta esperança para a carne como para o mundo.
E quanto à questão da morte — que sem dúvida pode ocorrer — ela não é apresentada sequer uma vez como a verdadeira esperança adequada ao cristão. E pode-se afirmar, com toda confiança, que não existe sequer uma passagem em todo o Novo Testamento na qual a morte seja citada como a esperança do crente. Por outro lado, a esperança da vinda do Senhor está ligada, da forma mais íntima, a todas as preocupações, questões e relacionamentos da vida, conforme vemos na epístola que temos diante de nós.
Assim, ao procurar fazer referência à interessante questão de sua própria ligação pessoal com os amados santos em Tessalónica, o apóstolo diz:
"Porque, qual é a nossa esperança, ou gozo, ou coroa de glória? Porventura não o sois vós também diante de nosso Senhor Jesus Cristo em Sua vinda? Na verdade vós sois a nossa glória e gozo".
Mais uma vez, ao pensar em seu progresso em santidade e amor, ele acrescenta, "E o Senhor vos aumente, e faça crescer em amor uns para com os outros, e para com todos, como também o fazemos para convosco; para confirmar os vossos corações, para que sejais irrepreensíveis em santidade diante de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo com todos os Seus santos" (1 Ts 3:12-13).
Finalmente, ao querer confortar o coração de seus irmãos acerca dos que já dormiam, como o apóstolo faz? Acaso ele lhes diz que em breve eles deviam seguilos? Não, isso teria sido bem adequado para os tempos do Antigo Testamento, como diz Davi acerca de sua criança que tinha partido: "Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim" (2 Sm 12:23).
Todavia não é assim que o Espírito Santo nos instrui em 1 Tessalonicenses, muito pelo contrário.
"Não quero, porém, irmãos", diz ele, "que sejais ignorantes acerca dos que já dormem, para que não vos entristeçais, como os demais, que não têm esperança. Porque, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que em Jesus dormem, Deus os tornará a trazer com Ele. Dizemo-vos, pois, isto, pela palavra do Senhor: que nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, não precederemos os que dormem. Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor. Portanto, consolaivos uns aos outros com estas palavras" (1 Ts 4:13-18).
É praticamente impossível algo ser mais simples, direto e conclusivo do que isto. Os cristãos tessalonicenses, como já assinalamos, se converteram na esperança da volta do Senhor. Foram ensinados a buscar por isso diariamente. Crer que Ele voltaria era algo tão integrado ao seu cristianismo quanto crer que Ele veio e partiu. Por isso eles foram apanhados de surpresa quando alguns foram levados a passar pela morte; eles não esperavam por isso e temiam que os que tinham partido pudessem perder o gozo daquele momento tão bem-aventurado e aguardado que era a volta do Senhor.
Portanto o apóstolo escreve para corrigir o equívoco e, ao fazê-lo, derrama sobre o tema uma fresca torrente de luz, assegurando-lhes que os mortos em Cristo — o que inclui todos que dormiram ou dormirão ... — ressuscitarão primeiro, isto é, antes que os vivos sejam transformados, e todos subirão juntos para encontrar seu Senhor que desce.
Teremos oportunidade de voltar a esta notável passagem, quando tratarmos de outros aspectos deste glorioso assunto. Nós tão somente a citamos aqui como uma das quase inumeráveis provas de que nosso Senhor voltará — pessoal, real e verdadeiramente — e que Sua vinda pessoal é a verdadeira e adequada esperança da Igreja de Deus, coletivamente, e do crente, individualmente.
Devemos encerrar esta porção lembrando o leitor cristão de que ele jamais poderá se sentar à mesa de seu Senhor sem ser lembrado desta gloriosa esperança, considerando as palavras que brilham nas páginas inspiradas: "Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até..." quando? Até você morrer? Não, mas "até que venha" (1 Co 11:26).
Quão precioso é isto! A mesa do Senhor permanece entre essas duas maravilhosas épocas, a cruz e o advento — a morte e a glória. O crente pode elevar os olhos acima da mesa e ver os raios de glória iluminando o horizonte. É nosso privilégio, ao nos reunirmos a cada dia do Senhor em torno da mesa do Senhor para anunciar Sua morte, podermos dizer:
"Talvez esta seja a última oportunidade de celebrar esta preciosa festa. Ele poderá voltar antes que outro dia do Senhor amanheça sobre nós". Mais uma vez dizemos: Quão precioso é isto!.
- Charles H. Mackintosh
(via e sabia mais das Escrituras, há quase 200 anos,
do que muitos que hoje se insinuam seus continuadores.)



