O reino da graça transformará obrigatoriamente uma vida?

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     Nós cremos que Deus agora está a salvar os homens somente pela graça por meio da fé. Esta é a mensagem de Deus para nós hoje e necessitamos de ter cuidado em sermos fiéis a esta mensagem em toda a nossa pregação e ensino. Temos que ser fiéis à proclamação da salvação “somente pela fé” (Rom. 4:5; Efé. 2:8,9)! 

     Contudo há alguns que algumas vezes contradizem esta verdade (talvez até sem se aperceberem disso) ao ensinarem que uma pessoa que realmente só tenha fé, apenas , não pode ser salva. Quantas vezes temos ouvido dizer: A verdadeira fé produz sempre uma vida de boas obras, e isto de tal modo que se uma pessoa não tiver obras a acompanhar a fé, não estará salva”. 

     Será que a Bíblia ensina que uma pessoa salva terá obrigatoriamente uma vida de boas obras, ou será que ensina que deve ter? Há uma grande diferença entre estes dois conceitos. Certamente oue a Bíblia declara que  “a graça reina por meio da justiça para a vida eterna” (Rom. 5:21), mas isto não se trata de uma justiça produzida por nós, e a referência é à “vida eterna”, e não à nossa vida diária. Mais, o argumento em Romanos 5 levanta claramente a questão, “permaneceremos no pecado?" (versículo seguinte). Todavia, se o argumento de Paulo fosse que a graça reinaria por meio de uma justiça prática, não levantaria tal questão. Assim, não será razoável interpretar Romanos 5:21 desse modo. Não! É por meio da justiça imputada ( como o contexto de Rom. 5:12-21 revela claramente) que a graça reina para a vida eterna. Precisamente do mesmo modo que o pecado reinou trazendo a morte aos seus súbditos, também a graça reina por meio da justiça imputada trazendo a vida eterna aos seus súbditos.

     O que Paulo continua a explicar em Romanos 6 é que uma vez que o crente entra no programa de Deus, que culminará na vitória total sobre o pecado, a sua vida será inconsistente se agora ele estiver em desacordo com este programa, vivendo uma vida de pecado. “O pecado não terá (futuro, no Grego) domínio sobre vós …” (versículo 14). Assim, ele argumenta ao longo de todo o capítulo dizendo que nós não devemos ser inconsistentes e vivermos agora uma vida de pecado. Ele não argumenta dizendo que agora o pecado não pode reinar no corpo mortal do crente. Não! Ele ensina que não deveria reinar. Ele insta conosco para nos certificarmos que não permitimos que tal suceda (o que mostra haver um real perigo em o podermos permitir). Ele diz “não reine”; não diz, “não reinará” (Ver. 12).

     No princípio desta epístola Paulo indicou claramente a possibilidade  de um crente ser alguém que não tenha obras. Ele disse, “Àquele que não_ practica, mas crê…” (Rom. 4:5). Como é que então se pode defender que uma vida de boas obras anda necessariamente sempre de mãos dadas com a fé? Decerto que deveríamos aprender desta frase - “aquele que não practica, mas crê” - que é possivel uma pessoa ter verdadeira fé sem obras. 

     Há muito mais nas Escrituras que nos mostra que as pessoas salvas nem sempre produzem o fruto que deveriam. Consideremos, por exemplo: 

      João 15:2: “Toda a vara em Mim, que não dá fruto …” · 

     1 Cor. 5:1-5: Eis aqui um homem que estava salvo mas cuja fé decerto não produzia boas obras. A maior parte das pessoas diria que ele não estava salvo, mas a Bíblia indica que estava (Versículo 5). 

     Efésios 2:10: “Criados … para as boas obras” não significa que as boas obras sigam obrigatoriamente a salvação. Significa que a salvação torna as boas obras possíveis e que nós “deveríamos andar nelas”. Os estudiosos do Grego saberão que a palavra aqui traduzida por “andássemos nelas” encontra-se no modo conjuntivo, que significa que Deus ordenou que nós andássemos nessas obras, mas havendo a possibilidade de não ardarmos

     Tito 3:14: Paulo diz “E os nossos aprendam também a aplicar-se às boas obras”. Ora, ao dizer isto revela que a fé nem sempre produz boas obras. As boas obras são algo que os crentes devem aprender para que não sejam infrutuosos”. Estudemos.este versículo e veremos que o perigo dos crentes serem “infrutuosos” é muitíssimo real. 

     Tito 3:8: Nós vemos aqui que os crentes necessitam que se lhes diga constantemente que “procurem” aplicar-se às boas obras, mas se a “verdadeira fé” produz sempre uma vida de boas obras tal cuidado especial não seria necessário para o crente verdadeiro.

     Efé. 4:17; 5:8: Se realmente pararmos para pensar nisto, veremos que todas as vezes que a Bíblia nos diz para fazermos ou para não fazermos uma determinada coisa evidencia a possibilidade de fazermos o oposto. A Bíblia diz-nos que uma vez que somos filhos da luz, devemos “andar como filhos da luz” (Efé. 5:8), o que revela haver uma possibilidade real de não andarmos assim. A Bíblia diz-nos para não andarmos como andam os outros Gentios” (Efé. 4.17), e isto revela que é possivel andamos como eles, mesmo apesar de termos verdadeira fé. A BÍblia exorta repetidamente os que têm verdadeira fé, exortando-os a praticarem boas obras, mas se a fé em si produz uma vida de boas obras, então não haveria necessidade de tal exortação. 

     Gál. 5:6: “A fé que opera por amor”. Notemos isto com cuidado. Paulo fala da “fé que opera por amor”, mas nunca nos diz que, por si, esta produz obras. Qualquer pregador que tem procurado ajudar diversas vezes outros crentes decerto que terá ficado impressionado com a esterilidade de muitos, e certamente que ele deveria aprender daí que a fé em si não produz uma vida de boas obras. A fé só produz boas obras quando o crente aprende a render-se ao Espírito de Deus. 

     Numerosas passagens das Escrituras têm sido descompreendidas e mal aplicadas sobre este assunto. Por exempIo, Paulo diz que não se envergonhava do Evangelho (Rom. 1:16), mas não dizia isso por causa da vida que os crentes vivem, mas porque é o poder de Deus para salvação”. É verdade que Paulo diz que o pecado o tedomínio sobre s” (Rom. 6.14), mas isso é no futuro, e no mesmo capítulo ele avisa-nos para nos certificarmos de que o pecado agora não reina nos nossos corpos mortais, o que revela que isso é realmente possível (Versículo 12). O Senhor aperfeiçoará a boa obra que Ele começou em nós até ao dia de Jesus Cristo (Fil. 1:6), mas isto não garante que nós realizaremos boas obras. Há uma esperança purificadora em 1 João 3:3, mas isso pertence a uma apreciação da verdade relacionada com o retorno do Senhor (Ver. 2) e não ao simples facto de uma pessoa ser salva. Mais, quando lemos em 1 João 3:9 que os que são nascidos de Deus não pecam, isso não se pode referir ao facto de os crentes “não pecarem” pois o versículo continua e diz que “e não pode pecar porque a Sua semente permanece nele”. É a parte da pessoa que é nascida de Deus que não pode pecar. Como nascidos de Deus não podemos pecar, mas também somos nascidos da carne e como tal podemos pecar e pecamos mesmo. Em Tito 2:11,12 nós não lemos que a graça nos ensina a viver corretamente, mas que "vivamos (ou, devemos viver) neste presente século sóbria, justa e piamente”. O facto de Cristo Se ter entregue para nos remir e fazer de nós um povo zeloso de boas obras (Tito 2.14) não significa que a pessoa remida produza automaticamente boas obras. E quando lemos em 2 Cor. 5:15 que os crentes não deveriam viver “mais para si", é exatamente isso; a palavra “vivam” significa isso nesmo.

     A doutrina da santificação não muda nada disto. Nós somos santificados pela fé (Actos 26:18), e certamente que é da vontade de Deus que tornemos isso prático nas nossas vidas. Mas em alguns casos este processo é tão lento que não se vê nada, não se vendo processo algum, e há mesmo ocasiões em que os crentes perdem terreno nesta área. A graça é verdadeiramente um poder que é superior ao pecado, mas nem todos os crentes se apropriam deste poder e o utilizam como deveriam, e alguns não somente falham em se apropriar dele, como se rebelam contra ele e trazem a repreensão do Senhor sobre si. Certamente que os crentes que vivem vidas ímpias não “herdarão o reino de Deus”, como Paulo diz em 1 Cor. 6:9-11 e Efé. 5:5,6, mas este "galardão da herança" (Col. 3.24) não é de forma alguma o mesmo que a entrada pela fé. *

     É um facto insofismável que as vidas de muitos do povo do Senhor, espiritualmente, são deploráveis, e que devemos ficar profundamente apreensivos com isso. Nas a solução não é levar essas pessoas a pensar que não se encontram salvas. Devemos pregar a salvação somente pela graça por meio da fé e depois firmarmo-nos na mensagem independentemente de como as pessoas se comportam. O apóstolo Paulo enfrentou o mesmo problema, pois mesmo através de uma leitura superficial das suas epístolas apercebemo-nos logo que os crentes dos seus dias não viveram vidas produtivas como deveriam (1 Cor. 3:1-4; 5:1-5; Gál. 4:8-11; Heb. 5:12-14; 2 Tes. 3:15, 13-15). E o que é que ele fez? Decerto que não lhes disse que não estavam salvos. Não! Ele afirmou que os que realmente criam estavam verdadeiramente-salvos, enfatizando a seguir as doutrinas adequadas para suprir as necessidades de tais pessoas. As grandes verdades transformadoras como, a habitação do Espírito Santo de Deus no crente, o retorno de Cristo a qualquer o momento, a repreensão e correção do Senhor, e o tribunal de Cristo eram, todas elas, apresentadas ao povo de Deus e o Espírito Santo fazia a Sua obra de convencer e transformar as suas vidas. Enfatizemos, então, tais doutrinas e exortemos fervorosamente o povo do Senhor a viver vidas puras, produtivas, que O honrem, mas punhamos de parte tudo o que lance dúvidas à veracidade do “Evangelho da graça de Deus”. 

- Art Sims

_________________________
* NOTA do tradutor:
Esta frase final deste parágrafo não foi escrita de forma clara pelo autor do artigo. O que Paulo diz em 1 Cor. 6:9-11 e Efé. 5:5,6 é que os descrentes que praticam os pecados ali referidos não serão salvos obviamente, pelo que não faz sentido quem faz profissão de servir a Deus agora, e que, portanto, é crente, como era o caso dos crentes Coríntios e Efésios, praticar aquilo pelo qual os perdidos serão condenados. Uma coisa é herdar o reino de Deus, que é o que acontece a quem crê verdadeiramente no Evangelho. Outra coisa diferente é, depois de herdar a herança da salvação, viver a vida cristã de modo obter o "galardão da herança" (Col. 3.24) no Tribunal de Cristo. - C. M.O.

 

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