Qual é a nossa Grande Comissão? (XLI)

Cornelius R. Stam

A COMISSÃO AOS ONZE SUBSTITUÍDA PELA COMISSÃO A PAULO

     Certamente que ninguém, mesmo que tendo um conhecimento superficial do Livro dos Actos e das Epístolas de Paulo, questionará o facto de que algum tempo depois da comissão do Senhor aos onze, Paulo foi enviado, como apóstolo de Cristo, a proclamar a toda a humanidade “o Evangelho da graça de Deus”.

     A questão, contudo, é se Paulo foi enviado sob uma comissão diferente da dos onze; se a sua mensagem era diferente da deles, e se esse facto constituía uma mudança de comissão. A resposta a isto encontra-se em muitas passagens das epístolas de Paulo, mas especialmente em Gál.2:1-9.

     Ele relata ali como subiu de novo a Jerusalém, dizendo que, dessa vez, “levou também consigo Tito”. Quando consideramos a passagem adiante veremos o significado dessa declaração. Contudo, é digno de nota, ali, o facto do apóstolo acrescentar que subiu a Jerusalém nesta ocasião “por revelação”, isto é, o Senhor instruiu-o a ir. Porquê? Isso é-nos respondido no resto da frase:

     “… e lhes expus O EVANGELHO, QUE PREGO ENTRE OS GENTIOS, E PARTICULARMENTE AOS QUE ESTAVAM EM ESTIMA; PARA QUE DE MANEIRA ALGUMA NÃO CORRESSE OU NÃO TIVESSE CORRIDO EM VÃO” (Ver.2).

     À luz desta passagem, quão fútil é argumentar que Paulo subiu meramente para confrontar com os outros apóstolos a mensagem que pregava e certificar-se de que era a mesma!

     Em primeiro lugar, ele fora enviado pelo Senhor a Jerusalém porque os crentes da Judeia tinham procurado impor a circuncisão e a lei aos crentes Gentios (Actos 15:1,2). Em segundo lugar, ele declara que “expôs” aos líderes em Jerusalém “o Evangelho que prego entre os Gentios”. Esta fraseologia é comum às epístolas de Paulo, indicando que “o Evangelho” que ele pregava aos Gentios não era o mesmo que os apóstolos em Jerusalém tinham estado a pregar ao povo de Israel. Em terceiro lugar, isto é ainda confirmado pelo facto de ao comunicar esta informação aos líderes em Jerusalém ele ter ido primeiramente “particularmente (ou, privadamente) aos que estavam em estima”. Porque é que ele havia de fazer isso se a sua mensagem era a mesma que a que eles estavam a pregar em Jerusalém? É óbvio que ele estava a tentar convencê-los da verdade e da validade do“Evangelho” que ele pregava entre os Gentios.

     Sendo assim, era importante para o apóstolo ter Tito, um Gentio, com ele como um caso de teste, pois no versículo 3 ele diz:

     “Nem ainda Tito, que estava comigo, sendo Grego, foi constrangido a circuncidar-se”.

     Notemos a palavra “constrangido”. Alguns teriam intimidade ou exercido coacção em Tito para o sujeitar à circuncisão e à lei, mas Tito, como Paulo, era um homem piedoso, de carácter forte, e Paulo diz, por assim dizer: “E eles não constrangeram Tito, Gentio, a circuncidar-se!” E depois, referindo-se a certos “falsos irmãos que se tinham intremetido” e que tinham procurado “entrar secretamente a espiar” a liberdade dos Gentios em Cristo, declara:

     “Aos quais nem ainda por uma hora cedemos com sujeição, para que a verdade do Evangelho permanecesse entre vós” (Ver. 5).

     Tudo isto torna claro que “o Evangelho” que Paulo pregava entre os Gentios era uma nova revelação, nunca antes tornada conhecida. E se isto não for suficiente temos uma declaração nos Versículos 7-9 que, sem dúvida alguma, prova que a comissão de Paulo substituiu a dos onze. Lemos ali que eles “viram que o Evangelho da incircuncisão me (Paulo) estava confiado, como a Pedro o da circuncisão”.

     “E CONHECENDO Tiago, Cefas e João… a graça que se me (Paulo) havia dado, DERAM-NOS AS DESTRAS, EM COMUNHÃO COMIGO E COM BARNABÉ, PARA QUE NÓS FOSSEMOS AOS GENTIOS, E ELES À CIRCUNCISÃO” (Ver. 9).

     Por meio dum acordo oficial solene, Pedro, Tiago e João prometeram, aqui, limitar o seu ministério a Israel enquanto Paulo iria aos Gentios. Isto é espantoso face ao facto dos doze, não Paulo, ter sido originalmente enviado a todo o mundo.

     Será que estariam todos fora da vontade de Deus ao efectuarem este acordo? De modo algum! A revelação sequente prova que eles se encontravam muitíssimo dentro da vontade de Deus e que a rejeição a que Israel votara a Cristo tinha trazido uma alteração ao programa.

     Assim os líderes em Jerusalém “desligaram-se”, sob a guia do Espírito Santo, da comissão sob a qual tinham sido primeiramente enviados, e o que eles “ligaram na terra” foi na verdade “ligado no céu” (Mat. 18:18).

     Os onze não tinham sido enviados a “todo o mundo”, para fazerem “discípulos de todas as nações”? Isso não incluía os Gentios? No entanto, aqui, eles reconheceram Paulo como o apóstolo para os Gentios, concordando ao mesmo tempo que deveriam suspender a prossecução da sua primeira comissão para evangelizar todo o mundo. Como é que se pode ler isto, ler-se simplesmente, e questionar-se o facto de que a Paulo foi dada uma comissão especial, e que tal comissão substituiu, historicamente, a comissão dada aos onze?

     Esta passagem apenas, seria suficiente para convencer os que ainda desejam levar a cabo a chamada “grande comissão”, que agora isso é impossível. Isso foi há muito abandonado quando Deus levantou o outro apóstolo, Paulo, e lhe confiou a mensagem que desde então tem trazido salvação e bênção a milhões de pessoas ao longo dos séculos.
C. R. Stam

Ver anteriores: 

Qual é a nossa Grande Comissão? (XLIV)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XLIII)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XLII)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XLI)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XL)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXXIX)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXXVIII)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXXVII)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXXVI)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXXV)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXXIV)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXXIII)
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Qual é a nossa Grande Comissão? (XXXI)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXX)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXIX)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXVII
I)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXVII)
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Qual é a nossa Grande Comissão? (I)

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