A Parábola Tripla (III)

Cornelius R. Stam

A  MOEDA PERDIDA

QUEM É A MULHER?

Ao interpretarmos a parábola da moeda perdida perguntemos primeiramente quem é a mulher. Representará a igreja desta dispensação, como tem sido insinuado tantas vezes? Impossível, pois como já salientámos, naquela altura a Igreja desta dispensação ainda era um segredo escondido em Deus. Assim o Senhor não lhe podia ter feito qualquer alusão, nem os Seus seguidores  mais espirituais  poderiam compreender uma alusão a algo que antes nunca fora mencionado.
 

     Deveria ser notado que, independentemente das dispensações o povo de Deus é sempre visto como a mulher, o vaso mais fraco – amado e cuidado por Ele e convidado a estar-Lhe sujeito.

     Tal é a verdade acerca da Igreja hoje.

     “PORQUE O MARIDO É A CABEÇA DA MULHER, COMO TAMBÉM CRISTO É A CABEÇA DA IGREJA …”

     “VÓS, MARIDOS, AMAI VOSSAS MULHERES, COMO TAMBÉM CRISTO AMOU A IGREJA, E A SI MESMO SE ENTREGOU POR ELA” (Efé. 5:23,25).

     Mas tal também é verdade acerca de Israel, pois de Israel , sob a lei, diz Deus:

     “… eles invalidaram o Meu concerto, apesar de EU OS HAVER DESPOSADO …” (Jer. 31:32).

     Desde aí foi dada à nação de Israel um “libelo de divórcio” (Isa. 50:1), mas, como está escrito, um dia ela será restaurada a Jeová:

     “… COMO O MANCEBO SE CASA COM A DONZELA, ASSIM TEUS FILHOS SE CASARÃO CONTIGO; E, COMO O NOIVO SE ALEGRA DA NOIVA, ASSIM SE ALEGRARÁ DE TI O TEU DEUS” (Isa. 62:5).

     “… Ó FILHA DE SIÃO … O SENHOR, O REI DE ISRAEL, ESTÁ NO MEIO DE TI … PODEROSO PARA TE SALVAR; ELE SE DELEITARÁ EM TI COM ALEGRIA; CALAR-SE-Á POR SEU AMOR, REGOZIJAR-SE-Á EM TI COM JÚBLIO” (Sof. 3:14-17).

     Em João 3:29 Cristo é apresentado como “Aquele que tem a esposa”, enquanto em Apocalipse 21:2,9 vemos a Nova Jerusalém descendo de Deus, do céu, “como uma esposa ataviada para o seu marido”.

     Uma vez que no seu relacionamento com Ele o povo de Deus é visto consistentemente como  a mulher, a quem é que, então, a mulher da parábola do Senhor se refere? Aos remidos em Israel, visto que os Seus ouvintes eram Israelitas. Dissemos , aos remidos em Israel – e não a todo o Israel – porque a mulher aqui é vista a procurar o que se havia perdido.


A MOEDA

     A moeda perdida, como a ovelha perdida, representa os perdidos em Israel, ou os que se sentiam perdidos, mas a que se deve a razão do simbolismo?

     O dinheiro é um meio de câmbio. Representa valor. Assim, as dez moedas representam o valor de Israel para as nações.

     Na parábola precedente  foi a compaixão e a  misericórdia pela ovelha perdida que moveram a ida do pastor na sua procura. O seu primeiro pensamento não foi que tinha investido dinheiro na ovelha, mas que a criatura desamparada necessitava de ser resgatada do perigo e da morte. Porém, aqui, está puramente em causa o valor perdido.

     Quando a mulher descobre que perdeu uma moeda de prata, ela acende uma candeia, varre a casa, e procura-a diligentemente até a encontrar. Depois reúne os seus amigos e vizinhos para se regozijar com ela pelo facto do dinheiro ter sido encontrado. Isto leva-nos perante o valor de Israel para as nações, uma vez que a bênção das nações espera a salvação de Israel.

     Deus prometeu a Abraão a respeito da sua semente múltipla:

     “E em tua semente serão benditas todas as nações da terra …” (Gén. 22:18).

     Porém, no seu estado irregenerado, Israel não podia ser uma bênção para o mundo. Por isso o profeta Zacarias diz:

     “E há-de acontecer, ó casa de Judá, e ó casa de Israel, que, assim como foste uma maldição entre as nações, ASSIM VOS SALVAREI, E SEREIS UMA BÊNÇÃO …” (Zac. 8:13).

     Por conseguinte, o povo de Israel era de grande valor potencial para o mundo. Contudo, notemos que toda a atenção se centra sobre a moeda perdida e o regozijo todo ocorre quando é encontrada. As outras nove moedas, como na parábola anterior, representam os que não se consideravam perdidos e não sentiam qualquer necessidade de arrependimento ou de salvação.


O LUGAR HISTÓRICO

     E uma vez mais devemos perguntar aqui onde é que a história se situa cronologicamente.  Alguns detalhes na parábola ajudarão a responder a esta questão.

     Primeiro, o facto de ter sido a mulher, e não o Senhor, a procurar a moeda dá a entender que a parábola fala de uma época em que o Seu povo, e não Ele, procuraria os perdidos em Israel. Isso aconteceu em Pentecostes e depois, quando os doze apóstolos e o “pequeno rebanho” de seguidores de Cristo convidaram o povo de Israel a arrepender-se e a salvar-se daquela “geração perversa” (Actos 2:40).

    Notemos também que foi nessa altura que o valor de Israel para o resto do mundo foi tão fortemente enfatizado, como, por exemplo, na mensagem dada por Pedro junto ao Pórtico de Salomão:

     “VÓS SOIS OS FILHOS DOS PROFETAS E DO CONCERTO QUE DEUS FEZ COM NOSSOS PAIS, DIZENDO A ABRAÃO: NA TUA DESCENDÊNCIA SERÃO BENDITAS TODAS AS FAMÍLIAS DA TERRA.

     “RESSUSCITANDO DEUS A SEU FILHO JESUS, PRIMEIRO O ENVIOU A VÓS, PARA QUE NISSO VOS ABENÇOASSE, E VOS DESVIASSE, A CADA UM, DAS VOSSAS MALDADES” (Actos 3:25,26).

     Este panorama do lugar histórico da parábola da moeda perdida é ainda mais confirmado pela sua posição entre a parábola da ovelha perdida e a do filho perdido, que aponta indubitavelmente para o futuro.


(Continua)
Cornelius R. Stam
 

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