A Parábola Tripla (I)

Cornelius R. Stam

 
     Interpretar primeiro; aplicar depois: - É uma regra básica para o estudo da Bíblia, e a não observação desta regra conduz inevitavelmente a uma grande confusão e erro.
 

     A parábola tripla1  de Lucas 15 é a parábola em causa. As palavras ali transcritas, como as de toda a Escritura, foram escritas “para nosso ensino” (Rom. 15:4) e “para aviso nosso” (1 Cor. 10:11), todavia, originalmente, não foram dirigidas a nós. Foram dirigidas a uma audiência Judaica enquanto Israel ainda era a nação favorecida de Deus. Se, por conseguinte, quisermos realmente “aprender” e sermos “avisados” ou “admoestados” por elas, temos de nos colocar primeiro, por assim dizer, entre aqueles a quem o Senhor na realidade se dirigiu, e determinar com precisão o que é que Ele desejava que eles compreendessem das Suas palavras. Só quando extrairmos tais lições é que as poderemos aplicar a nós.

    Este é o único modo de realmente compreendermos e tirarmos proveito das Escrituras que não nos são dirigidas a nós. Se, em vez disso, começarmos a aplicar directamente a nós estas parábolas, como se nos tivessem sido dirigidas e acerca de nós falassem, seremos obrigados a compreendê-las mal, a interpretá-las mal, e a aplicá-las mal.

     Quanta vez a história da ovelha perdida tem sido usada em mensagens evangelísticas como ilustração da salvação hoje! As noventa e nove representam supostamente os salvos, jazendo seguramente no aprisco, e a ovelha perdida os perdidos. Mas que diremos da asserção do Senhor, a saber, que os muitos andavam pelo caminho espaçoso e os poucos pelo caminho apertado? (Mat. 7:13,14). E porque é que o pastor “deixa” as noventa e nove? E porque é que o Senhor assemelha estas, a  pessoas “que não necessitam de arrependimento”?

     O mesmo se passa com a história do filho pródigo. Esta parábola é supostamente uma ilustração da necessidade da salvação e do caminho para ela nesta presente dispensação da graça de Deus. Mas como é que na parábola ambos os homens são vistos como filhos, e ambos se tornam recipientes das riquezas do pai antes de um deles estar salvo, ou como é que o pai diz ao que é justo a seus próprios olhos e que acaba por não ir à festa: “Filho, todas as minhas coisas são tuas”? Tudo isto fica por explicar.

     E estas questões continuarão por responder a menos que esperemos pela aplicação que depende de encontrarmos a verdadeira interpretação das palavras do Senhor; a menos que tomemos em consideração o facto de que os destinatários directos destas palavras eram os Judeus, sob a lei; que eles não possuíam cópias de Romanos, Gálatas ou Efésios; que Cristo ainda não tinha morrido e que muitos deles ainda nem sequer O reconheciam como o Messias.

     Quando o fizermos tornar-se-á claro, primeiro de tudo, que temos aqui uma parábola progressiva a respeito de Israel. Quase que já estamos a ouvir um protesto. “Ele também nos quer tirar isto de nós?” A isso responderemos: Não. Esta passagem das Escrituras, como as restantes, é para nós, mas só tiraremos dela o maior proveito quando primeiro reconhecermos a quem é que as palavras foram realmente dirigidas. Quando fizermos isso creremos que o leitor verá por si que não perdeu nada e que, pelo contrário, ganhou incomensuravelmente.


A OCASIÃO EM QUE A PARÁBOLA FOI PRONUNCIADA

     “E chegavam-se a Ele todos os publicanos e pecadores para O ouvir.

     “E os Fariseus e os Escribas murmuravam, dizendo: Ele recebe pecadores e come com eles”
(Lucas 15:1,2).

     Foi esta justiça aos próprios olhos, manifestada pelos Fariseus e Escribas, que originou a parábola tripla. João Baptista instara com os líderes em Israel para que produzissem frutos dignos de arrependimento, porém eles não acharam necessidade de mudar a sua forma de viver. Lemos acerca deles:

     “Mas os Fariseus e os doutores da lei REJEITARAM O CONSELHO DE DEUS CONTRA SI MESMOS, não tendo sido baptizados por ele (João)” (Lucas 7:30).

     O conceito deles era quase inacreditável. Certa ocasião, um homem cuja vista o Senhor restaurara ousou dizer-lhes: “Se Este não fosse de Deus, nada poderia fazer,” ao que os Fariseus replicaram iradamente:

     “Tu és nascido todo em pecados, e nos ensinas a nós?” (João 9:34).

     Como se eles não tivessem nascido em pecados!

     E agora murmuram contra o Senhor por Ele receber pecadores e comer com eles. Naturalmente eles não eram pecadores! E tinham um número surpreendente de seguidores em Israel: justos aos seus próprios olhos, satisfeitos consigo mesmos, não sentindo qualquer necessidade de arrependimento.

     Foi esta situação que originou a parábola tripla da ovelha perdida, da moeda perdida e do filho perdido.


1 As três parábolas separadas de Lucas 15 formam na realidade um todo progressivo. Notemos: 1) “Esta parábola” (Ver. 3). 2) As três parábolas separadas dizem todas respeito a coisas perdidas. 3) Os versículos 8 e 11 prosseguem simplesmente com a ilustração. Como acontece noutros grupos de parábolas, não dizem: “Propôs-lhes outra parábola”, etc.


(Continua)
Cornelius R. Stam


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