Tomando Deus à letra

Ao verem que o cumprimento da profecia cessou aparentemente pouco depois da crucificação de Cristo, e ao verificarem que muito ainda ficou por cumprir, supõem que Deus não podia querer exactamente dizer o que disse quando prometeu que Cristo se assentaria no trono de David em Jerusalém como Rei de Israel. Supõem que estas coisas devem ter sido ditas num sentido “espiritual” e concluem assim que Cristo agora encontra-se assentado no “trono de David” à dextra de Deus, confundindo assim a Jerusalém terrena com “a Jerusalém que é de cima”. Também concluem que a Igreja de hoje é o Israel “espiritual”, que o céu é Canaã, etc. Porém, de facto, não há nada de espiritual nesta interpretação das Escrituras. Não tomar Deus à letra e procurar explicar dificuldades alterando arbitrariamente o que foi escrito com clareza, decerto que não é espiritual mas carnal.
Nós objectamos vigorosamente todo este sistema de interpretação porque:
1. Deixe-nos à mercê dos teólogos. Se as Escrituras não querem dizer o que óbvia e naturalmente parecem querer dizer, quem é que tem a autoridade para decidir o que é que elas querem dizer com exactidão? Se os teólogos têm essa autoridade, então teremos que concordar com Roma, quando diz que a Igreja, não a Bíblia, é a autoridade suprema e final. De nada nos valerá voltarmo-nos para as Escrituras em busca de luz, pois a Palavra de Deus não quer dizer o que diz e só teólogos adestrados nos podem dizer o que ela quer dizer.
2. Afecta a veracidade de Deus. É um atentado à Sua própria honra. Se o significado natural e óbvio das promessas do Velho Testamento não é para nós confiarmos, como poderemos confiar em alguma promessa de Deus? Então, quando Ele diz: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”, Ele também pode querer dizer outra coisa. Isso seria impensável da parte de Deus, pois é perfeitamente justo que aquele a quem se faz a promessa tenha uma compreensão clara da mesma, uma vez que prometida, tem o direito de reclamar exactamente o que lhe foi prometido. Diz-se que uma criança afirmou: “Se Deus não quis dizer o que disse, porque é que não disse o que queria dizer?”
3. Conduz à apostasia. Na verdade, é a mãe da apostasia. Quando se “espiritualiza” Lucas 1:32-33 o Modernista concorda de todo o coração. Ele concorda que o trono de David e a casa de Israel, nesta passagem, devem ser vistos num “sentido espiritual” - como também os versículos seguintes! Assim Cristo não nasceu realmente duma virgem. Esse quadro é meramente esboçado para nos impressionar com a pureza da Sua pessoa, etc.!
E o Modernista nega a ressurreição da mesma forma. A respeito de Actos 2:30-32 é argumentado que uma vez que Cristo não ocupará realmente o trono de David, Ele também não ressuscitou realmente dos mortos! As Escrituras que dizem tanto são assim interpretadas “espiritualmente”!
E vem-nos aqui à mente o clamor das “Testemunhas de Jeová” pertencerem aos 144 000. Perguntai a uma delas a que tribo é que pertence e ela explicará que a profecia dos 144 000 se refere a Israelitas “espirituais” e não físicos! No entanto somos claramente informados de que haverão 12 000 de cada tribo, e as tribos são nomeadas!
Roma utiliza o mesmo raciocínio. Ela procura estabelecer o reino de Cristo na terra! Porque a Igreja de Roma é na realidade um sistema político, com um estado e um estadista na terra, a princípio, pode parecer que, pelo contrário, ela se incline para uma interpretação literal da profecia, porém isso não corresponde à verdade, pois a Igreja de Roma não é Israel literal, Roma não é Jerusalém, e Cristo não está a reinar.
Aqueles que têm lançado mão da “espiritualização” das Escrituras proféticas, porque não podem explicar a aparente frustração do seu cumprimento, encontrarão a solução para o seu problema no reconhecimento do mistério. Reconheçam o mistério e não haverá necessidade de se alterar a profecia.
Coisas Que Diferem



