Os Dons Sinais Sobrenaturais do Período dos Actos - Segues na direcção correcta? (XIV)

Os que se têm dedicado a aprender mais do que uma língua dir-lhe-ão que se trata de uma tarefa meticulosa que demora anos a aprender. Portanto é realmente bastante admirável que o dom de línguas fosse miraculosamente concedido aos primeiros membros do Corpo de Cristo para que estes falassem línguas que não conheciam anteriormente. Esta particular manifestação sobrenatural durante o período dos Actos tinha um propósito duplo.
Primeiro, as línguas serviam como sinal. “Está escrito na lei: Por gente doutras línguas, e por outros lábios, falarei a este povo; e ainda assim Me não ouvirão, diz o Senhor. De sorte que as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis; e a profecia não é sinal para os infiéis, mas para os fiéis” (1 Cor. 14:21,22).
O apóstolo viaja, uma vez mais aqui, aos dias do cativeiro Babilónico. Quando os Caldeus falaram de forma dura a Israel numa língua desconhecida, isso era um sinal para a nação eleita da sua incredulidade. As línguas, então, visavam ser um sinal para o incrédulo!
Uma vez que os Judeus pediam sinal, os Gentios foram abençoados com o dom de línguas como sinal para Israel de que estava fora da vontade de Deus (1 Cor. 1:22 cf. Rom. 11:11,32). Portanto, era uma ferramenta evangelística valiosa para alcançar com o Evangelho da Graça os Judeus individualmente, depois de Israel ter sido posta de parte nacionalmente. Historicamente, Israel foi espalhada por todo o mundo conhecido, a seguir aos cativeiros Assírio e Babilónico. Apenas uma minoria de Hebreus regressou à Palestina antes dos dias de João Baptista. A grande maioria ainda vivia fora da terra e adoptou naturalmente as línguas das nações.
Quando o Evangelho da Graça se espalhou por todo o mundo Gentílico, a diversidade de línguas dava aos membros do Corpo de Cristo a oportunidade de anunciar à dispersão a queda de Israel. Também acelerou grandemente a campanha evangelística entre os Judeus e os Gentios, dando à Igreja, que é o Seu Corpo, reconhecimento mundial praticamente de um dia para o outro. De facto, dos que pregavam o Evangelho nesta altura foi dito terem “alvoraçado o mundo” (Act. 17:6). Ao contrário de hoje, isto revela a profunda influência que a Igreja primitiva teve nos afazeres dos homens.
Segundo, o dom de línguas foi usado como um instrumento de ensino. “E agora, irmãos, se eu for ter convosco falando línguas estranhas, que vos aproveitaria, se vos não falasse ou por meio da revelação, ou da ciência, ou da profecia, ou da doutrina?” (1 Cor. 14:6).
Nos tempos bíblicos, a maioria das assembleias locais eram estabelecidas em cidades que tinham portos de mar ou estavam localizadas em rotas comerciais, como era o caso de Corinto. Os que estavam interessados nas coisas do Senhor procuravam naturalmente os santos em Corinto, quando passavam por lá. Com o crescente número de crentes na assembleia, alguns dos Coríntios viram nisso uma oportunidade para causarem uma impressão favorável aos irmãos mostrando-lhes a sua capacidade de falar noutras línguas. Apesar de isso ser uma tremenda demonstração inspiradora do seu intelectualismo, ou assim pensavam eles, o apóstolo depressa pôs a nu a loucura de tal prática.
“Se pois toda a igreja se congregar num lugar, e todos falarem línguas estranhas, e entrarem indoutos ou infiéis, não dirão porventura que estais loucos?” (1 Cor. 14:23)
Imagine-se sentado ali como descrente a observar aquela execução teatral. Seria incapaz de entender uma palavra do que estava a ser dito, e para complicar ainda mais a questão dois ou três falavam ao mesmo tempo. Provavelmente sairia dali a pensar que aquela gente teria alguma forma de demência. Eles poderiam ser mentalmente sãos, mas é claro que estariam completamente desatinados. Assim, Paulo apresenta quatro mandamentos de Cristo para corrigir o mau uso das línguas na assembleia.
1. “E se alguém falar língua estranha, faça-se isso por dois, ou quando muito três, e por sua vez, e haja intérprete” (v. 27). A última parte desta passagem é uma indicação clara de que o dom de línguas podia ser mantido sob controlo. Como a profecia, era matéria para o espírito daquele que possuía o dom. Todas as coisas deveriam ser feitas com decência e ordem. Embora houvesse permissão para dois ou três usarem o dom, só um de cada vez o podia fazer. É claro que isto deveria ter sido óbvio, mas o senso comum sumia-se quando os Coríntios começavam a pensar demasiado de si mesmos. Tristemente, eles tinham um apetite insaciável pelo louvor dos homens. Mas “a soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda”.
2. “E … haja intérprete. Mas, se não houver intérprete, esteja calado na igreja, e fale consigo mesmo, e com Deus” (Vs. 27,28). A interpretação de línguas também era um dos dons sinais sobrenaturais do período dos Actos. Os tradutores dir-lhe-ão que é impossível traduzir de uma língua para outra palavra por palavra. De facto, passam por vezes dias debruçados sobre um texto à procura de uma palavra próxima do termo que estão a traduzir. Normalmente são necessários anos para se dominar duas línguas. Além disso, o tradutor tem de possuir um conhecimento prático das várias definições de cada palavra para transmitir o sentido adequado na outra língua. A interpretação de línguas facultava esta compreensão instantaneamente aos que eram abençoados com este dom.
Se os que falavam em línguas recebessem luz adicional do Espírito sobre uma doutrina particular, não tinham permissão de usar o dom de línguas a menos que um intérprete estivesse presente. Eles tinham ordens para estar calados. O intérprete era a ponte de Deus para as barreiras linguísticas. Se estes dons fossem praticados de acordo com a Sua vontade, eles produziam unidade na assembleia e facultavam o meio de todos serem edificados. Tristemente, se há algo que caracterize os dias modernos do movimento de línguas, é a confusão!
3. “… o que profetiza é maior do que o que fala línguas estranhas, a não ser que também interprete para que a igreja receba edificação” (v. 5). Como foi mencionado antes, o dom de línguas nunca visou excitar a assembleia emocionalmente. Antes era uma ferramenta de ensino importante para comunicar um entendimento mais perfeito da verdade do Mistério aos que falavam outra língua. Isto assegurava que também eles podiam ser edificados na fé juntamente com os outros membros da assembleia , quando as Escrituras estavam a ser ensinadas. Sem qualquer espaço para se gloriarem, todos podiam dar a glória a Deus pelas “grandiosas coisas que [Ele] fez”.
4. “As mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido falar” (v. 34). Apesar da maioria compreender o princípio de que a mulher não deve ensinar, nem usurpar a autoridade sobre o homem, Paulo também torna claro como a água, no contexto de 1 Coríntios 14, que ela não deve profetizar nem falar línguas na igreja. Mesmo que tivessem dons sobrenaturais do Espírito, as mulheres só tinham permissão de exercer esses dons fora da assembleia local (Actos 21:8,9). Tem sido dito que se removêssemos as mulheres do actual movimento de línguas este entraria em colapso. Aparentemente vemos quão proeminente é o papel que elas desempenham. Mas o que dizem as Escrituras?
Alguns têm tido problemas com a declaração de Paulo: “Portanto, irmãos, procurai, com zelo, profetizar, e não proibais falar línguas” (1 Cor. 14:39). Amado, é importante lembrar que na altura em que esta carta foi escrita estes dons ainda estavam a ser usados por Deus para o estabelecimento do Corpo de Cristo. Eram manifestações das maravilhosas obras de Deus. Por conseguinte, Paulo instruiu os Coríntios, “não proibais falar línguas,” ou seja, usem-nas para a honra e glória de Deus. Tendo dito isto, temos também de ter em mente que os dons sinais depressa tornar-se-iam uma memória do passado. Mas até isso acontecer o apóstolo lutou incansavelmente pelo seu uso adequado.
Mas como é que nós explicamos o fenómeno das “línguas” actualmente? Como sabemos, há os que defendem inflexivelmente a sua experiência das línguas, que nós não questionamos por um momento que seja. Primeiramente, antes de tudo, Satanás tem sempre procurado falsificar as coisas de Deus. As línguas proporcionam-lhe um método fácil de levar os seus sujeitos a seguirem a experiência em vez da revelação escrita de Deus.
Em segundo lugar, alguns têm procurado imitar o dom. Uma vez que as línguas hoje são uma medida de espiritualidade em muitas assembleias, estas almas torturadas são pressionadas a falar línguas para serem aceites entre os seus pares. De facto, um relatório de uma investigação recente produziu um impressionante número de testemunhos quanto à extensão deste engano.
Finalmente, alguns são apanhados na emoção do momento. Essas reuniões estão electricamente carregadas de louvor, música barulhenta, gritaria, movimento corporal para diante e para trás com as mãos levantadas, pessoas a rolarem nos corredores, manifestação de línguas, etc.. Portanto não é irracional concluir que alguns são dominados pela emoção e falam uma língua ou uma mistura de línguas que aprenderam no passado.



