Os Dons Sinais Sobrenaturais do Período dos Actos - Segues na direcção correcta? (XIII)

Paul Sadler

Capítulo 5

Uma Trombeta Com Som Incerto

     “... e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas.” (1 Cor. 12:10).

     O dom de línguas consistia na atribuição sobrenatural de línguas, que dava ao receptor a capacidade de falar fluentemente línguas que ele nunca tinha aprendido. Tem havido um contínuo debate desde a viragem do século passado quanto a se Deus atribui ou não este dom hoje. Com o lema “De volta a Pentecostes!” a soar por toda a Cristandade, as assembleias Carismáticas estão convencidas que sim. A maioria dos Evangélicos é peremptória a achar que não, mesmo apesar da sua defesa da Grande Comissão contradizer categoricamente a sua posição.

     O dom de línguas, de todos os dons sinais, talvez seja o mais abusado, exorbitado e incompreendido dos dons, tanto do passado como do presente, principalmente porque hoje não está mais em operação! Os nossos amigos Carismáticos, na sua maioria, crêem que “as línguas” são uma língua celestial apenas compreendida por Deus. Eles baseiam a sua conclusão em duas passagens das Escrituras:

     “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse caridade, seria como o metal que soa ou como o sino que tine” (1 Cor. 13:1).

     “Porque o que fala língua estranha não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o entende, e em espírito fala de mistérios” (1 Cor. 14:2).

     Mas será que estas referências sustentam a posição deles? Eles defendem que as “línguas dos anjos” é uma referência clara a uma língua celestial. Porém isto levanta duas questões: Qual é a língua que os anjos falam? E, qual é a língua do céu? Segundo as Escrituras, não é uma algaraviada celestial ininteligível. A língua primária do céu parece ser a Hebraica. Quando o Senhor falou da glória ao principal dos pecadores, Paulo relatou:

     “E, caindo nós todos por terra, ouvi uma voz que me falava, e em língua hebraica dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa te é recalcitrar contra os aguilhões. E disse eu: Quem és, Senhor? E ele respondeu: Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (Actos 26:14,15).

     Apesar dos anjos serem incontáveis, deve ser notado que a cada um foi dado um nome Hebreu ou Grego – por vezes ambos. Por exemplo: “E tinham sobre si rei, o anjo do abismo; em hebreu era o seu nome Abadom, e em grego Apoliom” (Apoc. 9:11). Como ministros de Deus eles são indubitavelmente fluentes em todas as línguas. É claro que os anjos falavam sempre na língua daqueles a quem eles ministravam. Quando Gabriel foi enviado do céu e apareceu a Daniel ele deve-se ter dirigido a ele em Hebraico, a língua mãe (dialecto) da nação eleita (Dan. 9:21-27 cf. Actos 21:40; 22:1-3). 

     Assim então, a referência de Paulo à “línguas dos anjos” em 1 Coríntios 13:1 não tem nada a ver com uma língua celestial – tal ideia é estranha à Palavra de Deus. Um exame mais cuidadoso desta passagem talvez sirva de ajuda. “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse caridade, seria como o metal que soa ou como o sino que tine”. Se consultarmos a língua original, descobrimos que nesta passagem os verbos “falar” e “ter” estão no modo subjuntivo. Por outras palavras, o apóstolo está a usar uma suposição ou a declarar um caso hipotético. Ele está simplesmente a dizer: “Se eu falasse todas as línguas conhecidas com a persuasão dos homens e a eloquência dos anjos, e não tivesse amor, seria meramente um instrumento ruidoso que os homens evitariam.

     Com respeito a 1 Coríntios 14:2, Paulo escreve: “Porque o que fala língua estranha não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o entende, e em espírito fala de mistérios”. A frase “língua estranha”, aqui, é muitas vezes recorrida pelos nossos amigos Carismáticos para sustentarem o seu ponto de vista de que este dom era uma língua celestial. Contudo, a palavra Grega glossa, traduzida por “língua”, é consistentemente uma referência a línguas conhecidas no Novo Testamento. Eis um caso em apreço:

     “Porque está escrito: Pela Minha vida, diz o Senhor: que todo o joelho se dobrará diante de Mim, e toda a língua confessará a Deus” (Rom. 14:11).

     Duvidamos que alguém extraia a conclusão de que uma língua desconhecida celestial está aqui a ser falada. Ademais, a palavra estranha, em itálico, que é suprida pelos tradutores muitas vezes obscurece o sentido em 1 Coríntios 14:2. A adição do termo servirá de ajuda se for compreendido no seu próprio contexto. A língua não era desconhecida porque seria uma comunicação celestial que só Deus poderia compreender. Era particularmente desconhecida porque o ouvinte não tinha conhecimento da língua falada. Este é o argumento completo do apóstolo quando ele constrói um processo completo contra os Coríntios que estavam a usar mal o dom. Que proveito haveria se eles impressionavam a sua audiência falando numa língua desconhecida, se ninguém compreendia o que eles estavam a dizer?

     De novo, “Porque o que fala língua estranha não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o entende, e em espírito fala de mistérios”. Há uma passagem do Velho testamento que pode ajudar a clarificar o que o apóstolo diz: “O Senhor levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra, que voa como a águia, nação cuja língua não entenderás” (Deut. 28:49). A nação que levaria Israel cativa era Babilónia. Eles falaram aos Israelitas numa língua desconhecida, que somente acrescentou insulto à afronta e trouxe confusão no acampamento.

     Assim, aqueles que usavam o dom de línguas na assembleia sem um intérprete não estavam a falar aos homens, mas a Deus. Porquê? Porque ninguém, a não ser Deus, os compreendia – apesar de no espírito falarem em mistérios. Isto ia muito para além da pregação da Palavra; também se aplicava à oração e ao canto na igreja. “Porque, se eu orar em língua estranha, o meu espírito ora bem, mas o meu entendimento fica sem fruto. Que farei pois? Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento” (1 Cor. 14.14,15). No espírito, podiam erguer uma das maiores orações espirituais que jamais entraram na glória, mas se fosse proferida numa língua desconhecida, de que proveito serviria aos presentes? Seria estéril!

     Uma vez que Deus não é autor de confusão, Paulo mostra aos Coríntios a importância de se fazer tudo de modo bem organizado. Assim, “Mas, se não houver intérprete, esteja calado na igreja, e fale consigo mesmo, e com Deus” (1 Cor. 14:28). Será dito mais sobre o papel do intérprete em momento oportuno.

     Se prosseguirmos com o argumento do apóstolo (vs. 7,8), torna-se mesmo mais claro que ele tem em mente línguas terrenas, e não um tipo de linguagem celestial obscura. Ele ilustra este ponto ao mostrar que mesmo as coisas sem vida, como os instrumentos musicais, têm os seus próprios sons distintos. De outro modo há confusão. Por exemplo, “Porque, se a trombeta der sonido incerto, quem se preparará para a batalha?”.

     Ele depois acasala isto com uma declaração interessante no versículo 10: “Há, por exemplo, tanta espécie de vozes no mundo [Gr. Kosmos, isto é, terra, sistema mundial], e nenhuma delas é sem significação”. Em resumo, há muitas espécies de vozes ou sons de línguas aqui na terra, e cada uma é significativa no seu próprio direito. Paulo acrescenta: “Mas, se eu ignorar o sentido da voz, serei bárbaro para aquele a quem falo, e o que fala será bárbaro para mim” (v. 11).

     Portanto então, estas eram línguas geralmente conhecidas para a família humana. Paulo estava meramente a tentar corrigir os abusos do dom de línguas. Como sabe, os Coríntios gostava da atenção que este dom atraía; fazia-os parecer espirituais. Mas o apóstolo desmascarou a sua conduta quando disse: “O que fala língua estranha edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza edifica a igreja” (v. 4). Postas as coisas de forma simples: as palavras deles não tinham qualquer significado para os ouvintes.


- Paul M. Sadler
(Continua)

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