A oração do pecador

A “oração do pecador” é uma recitação enlatada usada pelos que se chamam cristãos evangélicos nos seus esforços para converter incrédulos e, como eles dizem, “trazê-los a Cristo” e fazer com que “nascam de novo”.
Naturalmente existem várias versões dela, mas no interesse do espaço, vou citar as que mais tenho visto. É assim:
Pai Celestial, eu venho a Ti em oração, pedindo o perdão dos meus pecados. Confesso com a minha boca e creio no meu coração que Jesus é Teu Filho, e que ele morreu na Cruz no Calvário, para que eu seja perdoado e tenha vida eterna no Reino dos Céus.
Pai, creio que Jesus ressuscitou dos mortos e peço-Te neste instante que entres na minha vida e sejas meu Senhor e Salvador pessoal. Eu arrependo-me dos meus pecados e adorarei todos os dias da minha vida! Porque a tua Palavra é a verdade, confesso com a minha boca que sou nascido de novo e purificado pelo sangue de Jesus. Em nome de Jesus, amém.
Os evangélicos são ensinados (eu sei disso, porque nasci no meio) a "conduzir" os descrentes nesta oração para "salvá-los". Por outras palavras, a fim de nos assegurarmos que eles digam "as palavras certas", é necessário que os aderentes “repitam essas palavras que proferimos”.
Então, o que há de errado com isso?
Em primeiro lugar, não há uma única palavra de texto bíblico em si - é uma paráfrase total - e as Escrituras afirmam claramente que “o evangelho de Cristo ... é o poder de Deus para a salvação…”[1], não a nossa versão dele.
Segundo, mistura a doutrina de dois Evangelhos diferentes, que, de acordo com o mandamento de Paulo em 2 Timóteo 2:15 para se manejar bem a palavra da verdade, trata-se de algo reprovado.
Terceiro, coloca palavras na boca dos adeptos, o que elimina a natureza pessoal da experiência da salvação.
Então, qual é o evangelho de Cristo? Antes de mostrar o que é, permita-me dizer o que não é: não é o mesmo que “o Evangelho do reino”, que o Senhor proclamou no Seu ministério terreno às “ovelhas perdidas da casa de Israel. [2]
Havia três requisitos no Evangelho do Reino:
1. Os aderentes (que eram todos judeus) deveriam confessar os seus pecados,[3]
2. Deveriam arrepender-se dos pecados e ser batizados (fisicamente, na água) para provar que eles realmente se se tinham arrependido;[4] e depois
3. Deveriam guardar os mandamentos, vender e “perseverar até o fim” para ser salvos.[5]
Esta oração, além de colocar palavras na boca do aderente, incorpora elementos do Evangelho do Reino no que o apóstolo Paulo mencionou onze vezes nas suas epístolas como “o Evangelho de Cristo”, ao qual ele se referiu três vezes como “o meu Evangelho”, uma vez como “o Evangelho da incircuncisão” e “o Evangelho que prego entre os gentios”, e pelo menos algumas dúzias de vezes simplesmente como “o Evangelho”. Ora tudo isto faz alusão ao facto de que este Evangelho era uma mensagem diferente daquela que os 12 discípulos do Senhor receberam para levar a Israel, e de facto foi, como mostraremos agora nas Escrituras. O Evangelho de Cristo é brevemente mencionado na seguinte passagem na sua primeira carta aos Coríntios:
1 Também vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado; o qual também recebestes, e no qual também permaneceis.
2 Pelo qual também sois salvos se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado; se não é que crestes em vão.
3 Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras,
4 E que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.[6]
Observe que esta passagem nada diz sobre confessar e arrepender dos pecados, ser batizado, vender, guardar os mandamentos, etc. etc. Isso porque essas coisas NÃO fazem parte do evangelho de Paulo. Depois de ele ter pregado o Evangelho de Cristo ao carcereiro de Filipos em Atos 16, este (o carcereiro) perguntou: “o que devo fazer para ser salvo?” A resposta de Paulo foi: “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo. … ”[7]
Além disso, observe no sermão de Paulo em Antioquia, em Atos 13, que, ao contrário do mandamento de Pedro a Israel para os Judeus se arrependerem e serem batizados em Atos 2, a crença no que Paulo lhes pregava era tudo o que era necessário para obterem o perdão dos pecados:
“Seja-vos pois notório, varões irmãos, que por este se vos anuncia a remissão dos pecados. E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados por ele é justificado todo aquele que crê” (Atos 13: 38-39).
Corroborando essa ideia de que, com o Evangelho de Paulo, tudo o que alguém deve fazer para ser salvo e justificado diante de Deus é crer, está a sua doutrina de justificação pela fé na sua carta aos Romanos:
“Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado. Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas; isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que creem; porque não há diferença”[8]
Observe duas coisas na frase em negrito desta passagem: A fé que justifica é a fé em Jesus Cristo, e a justiça de Deus (justificação) é imputada (ver capítulo 4:24) a todos os que creem.
Além disso, “obras”, que incluem o arrependimento, o batismo na água, a venda dos bens, a guarda dos mandamentos e a perseverança até o fim, são excluídas do Evangelho de Paulo. De facto, em Romanos capítulo 4, lemos que aqueles que acrescentam obras a esta equação terão as suas obras contra eles:
“Ora àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida. Mas àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça.”[9]
E, finalmente, não há nenhum requisito para se confessar pecados a fim de os ter perdoados, como há no Evangelho do Reino, porque com o Evangelho de Paulo a questão do pecado foi resolvida na cruz, há 2000 anos:
“E tudo isto provém de Deus que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação;
“Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação.
“De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamos-vos pois da parte de Cristo que vos reconcilieis com Deus.
“Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Coríntios 5:18-21).
Há duas coisas estabelecidas aqui:
1. Deus está agora reconciliado com o mundo inteiro, “não lhes imputando os seus pecados (do mundo)”. E isso é porque Ele fez com que (Cristo) fosse feito pecado por nós” no Calvário, onde Ele assumiu a dívida de pecado do mundo, isto é, os pecados de todos os que já viveram ou viverão nele. Está totalmente pago; como alguém pagando uma dívida que devia a um banco.
2. Mas há algo que esta passagem NÃO diz que precisa de ser destacado: só porque a dívida do pecado está paga isso não significa que resulte na justifiça de Deus (justificação) imputada a todos, pois diz: “Rogamos-vos pois da parte de Cristo que vos reconcilieis com Deus”. Esta é a chamada para as pessoas do mundo se reconciliarem com o Deus crendo e recebendo o Evangelho, (veja 1Cor 15), que é o requisito para se ser justificado, salvo e selado “até o dia da redenção”.[10]
Este último rogo ao mundo derruba sumariamente a afirmação dos Universalistas “Cristãos” de que o verso 19, juntamente com 1 Timóteo 2: 3,4, automaticamente confere salvação a todos no mundo, do começo ao fim, colocando-os efetivamente na família de Deus. De facto, o sacrifício de Cristo no Calvário abriu o caminho para que qualquer pessoa no mundo se torne parte da família de Deus, mas Deus deixou para nós decidirmos se queremos isto. A oferta de salvação está lá para nós até o nosso último suspiro, e ninguém sabe ao certo quando esse último suspiro virá. Então, se nunca creu e recebeu o Evangelho, como Paulo insiste (roga) na passagem, faça como o carcereiro de Filipos, e reconcilie-se com Deus crendo no Senhor Jesus Cristo.
- Mike Schroeder
[1] Romanos 1:16
[2] Ref: Mateus 4:23; 9:35; 24:14; Marcos 1:14; Mateus 10:6; 15:24
[3] Mateus 3:6; Marcos 1:5; 1 John 1:9
[4] Mateus 3:6; Marcos 1:4; Lucas 3:3; Atos 2:38
[5] Mateus 24:13; 19:16-21; Marcos 13:13; João 15:10; Atos 2:42-45; 1 Pedro 1:9-13; Apocalipse 14:12
[6] 1 Coríntios 15:1-4
[7] Atos 16:31
[8] Romanos 3:20-22
[9] Romanos 4:4,5
[10] Efésios 4:30



