Ultra-Dispensacionalismo

Nunca encontrei ninguém que admitisse ser ultradispensacionalista. Nunca ouvi nem nunca li uma definição satisfatória de ultra-dispensacionalismo. Sei que a palavra tem um sinónimo, “hiper-dispensacionalismo”, e que o propagandista que delira em fazer uso da técnica efetiva do nome pode ter a sua escolha no prefixo grego “hyper”, ou no latino “ultra” para o atirar às suas vítimas. Estou ciente de que tais termos são espalhados promiscuamente por ensinadores Bíblicos que se situam em círculos conservadores, e são papagueados por milhares que simplesmente procuram posição entre os Fundamentalistas. Usualmente, um ultradispensacionalista é uma pessoa cujo sistema de interpretação dispensacional da Bíblia vai para além do nosso. Certamente que é esse o significado do prefixo “ultra”- além de. Se o leitor é um dispensacionalista, e o seu irmão dispensacionalista vai além, na sua interpretação dispensacional , do seu ponto de vista histórico, ou Escriturístico, naturalmente que ele é um ultra-dispensacionalista! Mas gostaria de chamar a atenção para um outro ULTRADISPENSACIONALISMO, talvez mais fatal, que nos pode comprometer, e no qual podemos cair se não tivermos cuidado. Gosto de pensar nessa forma de ultra-dispensacionalismo como ULTRADISPENSACIOANLISMO PRÁTICO, para o contrastar do doutrinal. Garanto-lhe que se nos tornarmos culpados de qualquer das seguintes práticas, somos ultra no nosso ultradispensacionalismo, isto é, vamos além das Escrituras.
O Ultradispensacionalismo Prático!
I. FAZ DO SEU DISPENSACIONALISMO UMA SEITA. Isto é, recusa comunhão com todo o crente que não concorda com ele em todas as facetas do seu ensino acerca da divisão correta das Escrituras sobre o Dispensacionalismo
Não há muito tempo, uma senhora veio a nossa casa para saber do horário das nossas reuniões. Ela era dispensacionalista nas suas crenças, era dispensacional ao nível da interpretação de Scofield-Darby, e pertence a um grupo de igrejas fundamentalistas independentes, mas em comunhão. Quando ela descobriu que não estávamos filiados na sua organização e no seu sistema de dispensacionalismo, afastou-se e não quis assistir às nossas reuniões, mesmo apesar de a termos certificado da sanidade do nosso ensino e de que era bem-vinda às nossas reuniões. Embora o dispensacionalismo desta senhora iniciasse o corpo de Cristo em Pentecostes, em Atos 2, ela não era tão ultra a respeita da sua organização e do seu sistema de interpretação que não podia ver as muitas, muitas coisas que tínhamos em comum e a doce comunhão que poderíamos ter gozado. Para sermos honestos, temos que admitir que alguns dos grupos mais setários que temos encontrado são dispensacionalistas que se orgulham no facto do seu não sectarismo. Muitos dos que se gloriam em ser “Cristãos não setários” são tão estreitos no seu dispensacionalismo que excomungam qualquer crente que se desvie minimamente das suas normas.
II. MUTILA AS ESCRITURAS COM O SEU DISPENSACIOALISMO. Inimigos da divisão correta da Palavra têm-nos muitas vezes acusado de tomarmos apenas uma porção da mesma e pormos de parte o resto. Um fundamentalista bem conhecido que tem ruidosamente condenado o estudo dispensacional da Bíblia costumava dizer que nós apenas tomávamos uma fatia de pão da Palavra de Deus, enquanto que ele tomava o pão inteiro. É claro que ele era inconsciente, ao clamar, como clamava, a pregação da “Grande Comissão” de Marcos 16, e ao mesmo tempo atacando com toda a sua força os “pregadores de cura” que tentavam levar a cabo o programa de sinais da sua comissão. Porém, a outra face do quadro é que alguns têm sido culpados de pregarem o mistério e outras verdades Paulinas negligenciando ou ignorando o resto da Bíblia.
O erro não jaz na pregação das grandes verdades das epístolas de Paulo; jaz no fracasso em apresentar uma mensagem equilibrada em deixar a aparência de desrespeito ou de desprezo pelo resto do livro. A revelação da verdade a respeito do Corpo de Cristo carece do fundo dos evangelhos; os evangelhos não seriam inteligíveis sem a lei, os salmos, e os profetas. Necessitamos de todo o Livro. Não nos tornemos tão ultra na nossa ênfase sobre dispensacionalismo (onde quer que vejamos a fronteira) que negligenciemos o resto da Palavra.
III. PERDE A DOÇURA DAS APLICAÇÕES ESPIRITUAIS. Intimamente associada à negligência de partes da Palavra de Deus, com exceção das Epístolas de Paulo, está a falha em se fazerem aplicações espirituais de porções da Palavra de Deus que pertenciam a outros grupos ou a outras Dispensações, por causa da interpretação. O Dr.º E.W. Bullinger, cujo nome é muitas vezes sinónimo de ultra-dispensacionalismo, disse no seu excelente livro HOW TO ENJOY DE BIBLE (Como gozar a Bíblia): “Toda a doçura, toda a bênção, toda a verdade, podem ser obtidas por meio de uma sábia aplicação, sem que minimamente se prejudique a verdadeira interpretação. Esta pode ser deixada e preservada na sua integridade, e ainda assim e apesar disso, algo realmente espiritual pode ser apropriado por meio de aplicações, na realidade tudo o que se pode desejar, sem se violentar minimamente a Palavra de Deus ...” Penso que foi o Dr. Henry Grube que chamou a atenção para o facto de I Cor. 10:11 autorizar quatro tipo de estudos Bíblicos: “Ora, tudo isto lhes sobreveio”- posso estudar qualquer parte da Bíblia como sendo literalmente verdadeiro, pois tudo isto sobreveio ou aconteceu; “como figuras” (Gr. Tupos, TIPOS)”- Posso estudar a Bíblia por tipos e sombras; “e estão escritas para aviso nosso”- posso estudar a Bíblia por meio de aplicações espirituais; “para quem já são chegados os fins dos séculos” – posso estudar a Bíblia distinguindo as eras, ou Dispensações. Certamente que alguns dos eleitos entre os chamados “Irmãos” têm prestado ao Corpo de Cristo um grande serviço por intermédio dos seus estudos detalhados, muitos deles ainda publicados, com aplicações espirituais em verdades do Velho Testamento. Quem entre nós não se tem regozijado com C.H. Mackintosh nos seus muitos estudos em tipos e sombras? Se nos tornarmos tão dispensacionalistas que rejeitemos a doçura destas grandes verdades em tipo e sombras somos ULTRA.
IV. MANIFESTA O ESPÍRITO DO CRITICISMO CONTÍNUO. Pela Graça de Deus, penso que a maioria de nós tem crescido nisto, mas quem não se lembra do tempo quando um crente fosse novo na verdade dispensacional ter quase receio de abrir a sua boca entre os crentes idóneos por temer ser criticado pela sua escolha de palavras, de hinos, etc.? Nós não ousávamos dizer “Velho Testamento” ou ao “Novo Testamento” sem fazermos uma dissertação sobre precisamente quando os Velho e o Novo testamentos se iniciaram. Não ousávamos usar as palavras “Natal” ou “Páscoa” com receio de que alguém pensasse que estávamos a “observar dias”. Era uma heresia cantar “Nos Passos da Luz”, porque certamente não estávamos a “tentar andar nos passos do Salvador”. No nosso zelo para realçar o facto de que o nosso Senhor Jesus Cristo era um Judeu segundo a carne nascido de mulher, nascido sob a lei, vivendo em terreno do Velho Testamento, vindo a morrer pelos nossos pecados, não nos mostrando o caminho, mas tornando-se Ele mesmo O CAMINHO, esquecemos uma outra faceta do quadro. Apesar de não seguirmos o Senhor na sua religião Judaica, com os seus sábados e cerimónias, nós devemos ter “o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus”. Relativamente à Sua humildade, benignidade, graciosidade e amor devemo-nos lembrar que Ele deixou um exemplo, para que seguíssemos as Suas pisadas – não para sermos salvos, mas porque Ele vive em nós.
No nosso zelo em “não O conhecer mais segundo a carne”, podemos ser mesmo uma pedra de tropeço, na senda de crentes fracos que nem sequer sabem do que estamos a falar. Se a nossa vida é um modelo de crítica àqueles que não falam o que veio a ser a “gíria dispensacional”, somos ULTRA. Esta mensagem não é um apelo para se minimizar ou se descolorir a preciosa verdade do manejo correto da Bíblia; não visa desencorajar quem quer que seja da proclamação da Dispensação do mistério. Certamente que poucos estão a fazer o necessário e o suficiente para que estas ricas verdades se tornem conhecidas. Mas estou convencido que algumas vezes Satanás usa os amigos do dispensacionalismo para serem o seu maior obstáculo. Esta verdade que nos foi levada pelo Cristo ressuscitado, por intermédio do Apóstolo Paulo, visa salientar a UNIDADE do Espírito, a unidade de todos os crentes em Cristo, mas a manifestação da nossa depravação, parcialmente por intermédio destas formas de ultradispensacionalismo, têm-se tornado numa fonte de divisão. Um homem de Deus do qual tenho ouvido muito falar e cujo Espírito tem sido para mim uma inspiração, mesmo apesar de não ter nunca ter tido o privilégio de o ver face a face foi o irmão Elmer Leake, pai do irmão Paul Leake. Diz-se que ele dizia: “Irmãos, se um muro de separação ou de sectarismo for edificado entre nós e quaisquer outros crentes, que sejam eles e não nós a edificá-lo”. Por outras palavras, este querido irmão amava todos os crentes e desejava a comunhão com todos por meio do Nosso Senhor Jesus Cristo. O irmão C.R. Stam escreveu certa ocasião, “Nós esperamos pelo dia, quando pela Graça de Deus, os muros denominacionais cairão e todos nós poderemos gozar a nossa unidade em Cristo. Entretanto podemos ter aquela comunhão com os que amam e confiam no Senhor em verdade, qualquer que seja a sua filiação denominacional”. Esta declaração foi o clímax de um artigo que este irmão escreveu sobre “Os Efeitos Práticos do Mistério”, no qual ele apresentou uma mensagem impressionante, e claramente bem manejada sobre a preciosidade da pregação de Jesus Cristo segundo a revelação do mistério e mostrou os efeitos práticos que esta mensagem deveria ter nas nossas vidas. Quando nos preocupamos tanto com a letra que perdemos o espírito, ou quando nos tornamos tão preocupados com detalhes tão minuciosos do dispensacionalismo que perdemos a realização da nossa Unidade em Cristo, temo-nos tornado ULTRA.
- Robert B. Shiflet



