Cargas e carga

william_macdonald.jpg     “Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo … Porque cada qual levará a sua própria carga” (Gál. 6:2, 5).

     Uma leitura descuidada destes dois versículos podem facilmente convencer uma pessoa que eles apresentam uma contradição flagrante. O primeiro diz que devemos levar as cargas uns dos outros, o segundo que devemos levar a nossa própria carga.

     No versículo 2, a palavra traduzida por "cargas" significa tudo o que oprime uma pessoa espiritualmente, fisicamente e emocionalmente. No seu contexto imediato refere-se ao elevado peso de culpa e de desânimo que vem à vida de um homem que tem sido surpreendido numa falta (v. 1). Nós ajudamos um tal irmão quando lhe pomos um braço amoroso em torno dele e o reconquistamos para uma vida de comunhão com Deus e com o Seu povo. Mas as cargas também incluem mágoas, tribulações, provações e frustrações da vida que vêm a todos nós. Nós levamos as cargas uns dos outros quando confortamos, encorajamos, compartilhamos as nossas coisas materiais, e damos conselhos construtivos. Significa envolvermo-nos nos problemas dos outros, mesmo a expensas de um grande custo pessoal. Quando fazemos isso, cumprimos a lei de Cristo; que é amarmo-nos uns aos outros. Nós demonstramos o nosso amor de uma forma prática ao gastarmo-nos e deixarmo-nos gastar pelos outros.

     No versículo 5 uma palavra diferente é usada para "carga". Aqui, isso significa tudo o que tem de ser levado, sem qualquer indício quanto a se a carga é pesada ou leve. O que Paulo está a dizer aqui é que todos terão de levar a sua própria carga de responsabilidade perante o tribunal de Cristo. Então não será uma questão de como nos comparamos com os outros. Seremos julgados com base no nosso próprio registo, e as recompensas serão passadas em conformidade.

     A ligação entre os dois versículos parece ser esta. Uma pessoa que restaura alguém que é surpreendido numa falha pode cair na armadilha de sentir-se superior. Ao levar as cargas do irmão caído, ela pode de alguma forma pensar em si mesma como estando num nível mais elevado de espiritualidade. Ela vê-se numa posição favorável ao comparar-se com o santo que peca. Paulo lembra-lhe que quando ela comparecer diante do Senhor, ela terá que prestar contas por si, pelo seu próprio trabalho e pelo seu próprio carácter, e não pela outra pessoa. Ela terá de levar a sua própria carga de responsabilidade.

     Assim, os dois versículos não se combatem. Pelo contrário, convivem numa harmonia íntima.


William MacDonald
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