Das profundezas

william_macdonald.jpg  “... o que semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção ...” (Gál. 6:8).

     Ninguém pode pecar e escapar. Os resultados do pecado não são apenas inevitáveis - são extremamente amargos. O pecado pode parecer um gatinho inofensivo, mas acaba por devorar como um leão impiedoso.

     O suposto deslumbramento do pecado recebe ampla cobertura. Nós raramente ouvimos o outro lado. Poucos deixam para trás uma descrição da sua ruína e miséria subsequentes.

     Um dos autores mais brilhantes da Irlanda fê-lo. Este homem começou a envolver-se num vício antinatural. Uma coisa levou a outra até ele se embrulhar em processos judiciais e, finalmente, acabar na prisão, onde escreveu o seguinte:

     "Os deuses deram-me quase tudo. Eu tive génio, um nome distinto, posição social elevada, brilhantismo, ousadia intelectual: Eu fiz da arte uma filosofia, e da filosofia uma arte: eu alterei as mentes dos homens e a cor das coisas: Não havia nada que eu dissesse ou fizesse que não pusesse as pessoas a pensar ... Eu tratei a Arte como a realidade suprema, e a vida como um mero modo de ficção: despertei a imaginação do meu século criando um mito e lenda em torno de mim: resumi todos os sistemas numa frase, e toda a existência numa sátira.

     "Juntamente a estas coisas, tive outras bem diferentes. Deixei-me engodar por longos encantos de facilitismo insensato e sensual. Entretive-me a ser boémio, janota, homem da moda. Rodeei-me de naturezas menores e de mentes mesquinhas. Tornei-me esbanjador do meu próprio génio, e dava-me alegria curiosa desperdiçar uma eterna juventude. Cansado de estar nas alturas mergulhei deliberadamente nas profundezas em busca de novas sensações. O que o paradoxo era para mim na esfera do pensamento, a perversidade tornou-se, para mim, matéria de paixão. O desejo, no final, era uma doença, ou uma loucura, ou ambas as coisas. Eu cresci descuidado da vida dos outros. Eu tinha prazer no que me agradava e passava adiante. Esqueci-me de que cada pequena acção do dia comum faz ou desfaz o carácter, e que, portanto, o que alguém faz na câmara secreta um dia chorará em voz alta sobre os telhados ... eu acabei em desgraça horrível".

     O ensaio em que ele escreveu a confissão acima tem o título apropriado, De Profundis (Das profundezas).      

William MacDonald
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