Os anos perdidos

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     Existem muitas pessoas que não têm remorsos. Outras, fiéis, piedosas, sem vacilar no seu amor e lealdade a Cristo, que demonstram a beleza do seu andar e o consequente poder das suas palavras e que apresentam uma vida de devoção sem desvios. Depois, há outras entre nós que poderiam cantar o velho hino: "Ó, os anos gastos no pecado, se fosse possível recuperá-los Eu os entregaria ao meu Salvador, e me curvaria à Sua vontade".

     Muitos começaram com zelo. Quais soldados, manejando bem uma espada, enfrentariam um exército para o Senhor Jesus. Entrariam animados na batalha, e se distinguiriam no combate para Deus e o Seu Evangelho. Depois algo aconteceu. Talvez uma queda trágica. Talvez uma desintegração lenta, permitindo um crescente desânimo para as coisas de Deus. Talvez aumento de excursões para as coisas do mundo, ou submetendo-se às exigências impiedosas dos negócios.

     A oração e a Palavra foram ofuscadas lentamente e uma sonolência confortável desceu na alma. A geada estabeleceu-se silenciosamente no coração e o fruto secou na videira. As brisas suaves de amor e graça sopravam naquela alma de vez em quando, e a despertava para uma comunhão doce, uma mensagem inspiradora, uma palavra na estação própria, ou um dos cânticos de Sião. Os olhos do coração elevaram-se para olhar com saudade para o céu. Mas o inimigo, cruel e inclemente, esmagou cada esperança de recuperação.

     "Tarde demais!" clamou. Com um lamento triste o coração mais uma vez se curvou para o pó e introspetivamente para o seu próprio desespero.

     Caro leitor, será que este é o seu caso ou a condição de um amigo que deseja ver levantado de novo? Não desespere! Há esperança! Não em qualquer seminário ou programa de novidade, mas na certeza do conhecimento que Deus é um Deus de recuperação, que tem prazer em restaurar a alma arrependida, e aparta a Sua ira (Oséias 14v4).

     Em II Reis 8, Geazi estava contando ao rei "as grandes obras que Eliseu tinha feito". Entre estas obras grandes contava como o profeta ressuscitara um filho morto à sua mãe. Aconteceu uma coisa admirável! Alguns chamariam "coincidência", mas nós sabemos melhor. "Enquanto" Geazi contava este incidente maravilhoso, a própria mulher entra perante o rei. Geazi, atónito, exclama: "Ó rei meu senhor, esta é a mulher, e este o seu filho a quem Eliseu ressuscitou". Ela tinha ido à Filístia por causa da fome. O governo tomou posse das terras para produzir alimentos. Agora ela chega para pedir que a sua propriedade seja restituída. A resposta do rei é muito instrutiva. Ele ordenou um oficial com este mandato, "Faz-lhe restituir tudo quanto era seu, e todas as rendas das terras desde o dia em que deixou a terra até agora".

     Há uma promessa maravilhosa de Deus para o Seu povo, "E restituir-vos-ei os anos que comeu o gafanhoto" (Joel 2v25). A palavra do rei é um quadro de uma obra maior de Deus. Este é a restauração do fruto dos anos perdidos. Se um rei da terra pode fazer assim para um dos seus súditos empobrecidos, então o nosso Deus é capaz de agir de uma maneira ainda mais maravilhosa.

     Jonas foi o único sinal que o Senhor Jesus deu para os escribas e fariseus da Sua morte e ressurreição. Mas Jonas estava fugindo da vontade de Deus em desobediência. Então, quando ele reconheceu que a culpa era dele, ele foi carregado debaixo das ondas e retirado de novo para ser um símbolo dos grandes sofrimentos, morte e ressurreição do Salvador.

     Ainda um outro caso onde o pecado abundou, e a graça superabundou, porque "um maior do que Jonas está aqui". Será que nós teríamos incluído Sansão na lista dos heróis da fé de Hebreus 11? Mesmo assim, no meio do seu sofrimento na prisão, ele elevou os seus olhos sem vista ao céu e clamou, "Senhor Deus, só esta vez" - e o relato conta que foram mais os mortos que matou na sua morte do que os que matara em sua vida, e o seu nome é registado em Hebreus 11.

     Isso não é desculpa por vidas indolentes ou descuidadosas, aproveitando da graça de Deus - de modo nenhum - mas é um pequeno raio de luz para os que desistiram, pensando que é tarde demais para eles, e que se acomodaram a uma vida de mediocridade distante e espiritualidade ocasional.

     Há homens talentosos, que uma vez sentiram a chamada de Deus para Missões, ou para algum serviço especial, mas nunca responderam. Agora, aposentados, e aceitando o fracasso como um fato da vida, tentam encher os seus dias em alguma sala de espera ensolarada esperando o Céu. Mesmo assim, há campos de serviço.

     Não há prémio na Bíblia para os que abandonam cedo, mas há um prémio mesmo para os que começam mais tarde (Mt.20v9).

     Existem igrejas ao redor de nós famintas para receber cooperação no serviço de Deus que talvez o leitor poderia atender. Anos perdidos? Não permita que termine desta maneira. O nosso Deus pode restaurar o fruto mesmo daqueles anos e "no tempo da tarde haverá luz".

- J. Boyd Nicholson

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