Adoração (IV))
A Natureza Da Verdadeira Adoração“Deus é Espírito, e importa que os que O adoram O adorem em espírito e em verdade” (João 4.24). Adorar “em espírito” contrastava com os ritos humanos e cerimónias impostas do Judaísmo. Adorar “em verdade” opunha-se às superstições e ilusões idólatras dos perdidos. Adorar a Deus “em espírito e em verdade” quer dizer adorar de uma maneira apropriada para a revelação plena e final que Deus fez de Si mesmo em Cristo. Significa adorar espiritualmente e verdadeiramente. Significa dar a Ele o louvor proveniente de um entendimento iluminado e o amor de um coração regenerado.
Adorar “em espírito e em verdade” opõe-se à adoração carnal que é externa e espectacular. Exclui toda adoração a Deus com os sentidos. Nós não podemos adorá-lO, que é “Espírito”, observando uma arquitectura linda e janelas de vitrais, ouvindo as notas de um órgão caro ou sentindo o aroma doce do incenso. Nós não podemos adorar a Deus com os nossos olhos e ouvidos, ou nariz e mãos, porque eles são “carne” e não “espírito”. “Importa que adorem em espírito e em verdade” exclui tudo aquilo que é do homem natural.
Adorar “em espírito e em verdade” exclui toda adoração emocional. A alma é o centro das emoções, e muitas das supostas adorações do Cristianismo actual são apenas emocionais. Anedotas tocantes, apelos entusiastas, oratória comovente de uma personalidade religiosa, tudo é calculado para produzir isto. Hinos lindos cantados por um coro bem ensaiado, trabalhados de uma forma que nos leva às lágrimas ou a êxtases de alegria. Isto pode excitar a alma, mas não pode, nem jamais afectará o homem interior.
A verdadeira adoração é a adoração de um povo redimido, unido ao próprio Deus. Os não-regenerados entendem “adoração” como uma observância daquilo que Deus requer deles, e que não lhes dá nenhuma alegria como eles procuram demonstrar. Muito diferente disto é o que acontece com aqueles que nasceram do alto e foram redimidos pelo sangue precioso. A primeira vez que a palavra “redimido” ocorre na Escritura é em Êxodo 15, e é lá também, pela primeira vez, que vemos um povo a cantar, a adorar e a glorificar a Deus. Lá, nas margens do Mar Vermelho, esta Nação que foi tirada da casa da servidão e liberta de todos os seus inimigos une-se em louvor a Jeová. (N.T.: Na maioria das versões em português, a palavra em Êxodo 15 é “libertado”; a NVI se aproxima mais ao usar “resgatado”).
“Adoração” é a nova natureza no crente levando-o à acção, voltando-se para a sua Origem divina e plena de prazer. É aquilo que é “espírito” (João 3.6) voltando-se para Ele, que é “Espírito”. É aquilo que é “feitura” de Cristo (Efésios 2.10) voltando-se para Ele, que nos recriou. São os filhos, de forma espontânea e grata, voltando-se em amor para o seu Pai. É o novo coração clamando “Graças a Deus pelo seu dom inefável!” (II Coríntios 9.15). São os pecadores, purificados pelo sangue, exclamando “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Efésios 1.3). Isto é adoração; assegurada da nossa aceitação no Amado, adorando a Deus porque Ele fez Cristo estar em nós, e porque Ele fez-nos estar em Cristo.
É digno da nossa atenção especial observar que a única vez em que o Senhor Jesus chegou a falar sobre o assunto da Adoração foi em João 4. Mateus 4.9 e Marcos 7.6,7 são citações do Antigo Testamento. Isto certamente tocará os nossos corações se percebermos que a única ocasião em que Cristo fez alguma observação directa e pessoal à adoração foi quando Ele conversava, não com um homem religioso como Nicodemos, ou mesmo com os Seus apóstolos, mas com uma mulher, uma adúltera, uma Samaritana, uma quase pagã! Verdadeiramente os caminhos de Deus são diferentes dos nossos.
A esta pobre mulher nosso Senhor bendito declarou “Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim O adorem” (João 4.23). E como é que o Pai “procura” adoradores? O contexto inteiro não nos dá a resposta? No início do capítulo, o Filho de Deus inicia uma jornada (vv. 3 e 4). O seu objectivo era buscar uma das Suas ovelhas perdidas, revelar-Se a uma alma que não O conhecia, livrar a mulher dos desejos da carne, e encher o seu coração com a Sua graça suficiente, e isto, para que ela pudesse encontrar a infinidade do amor divino e dar, em retorno, este louvor e adoração que apenas um pecador salvo pode dar.
Quem pode não perceber que, na jornada que Ele tomou a Sicar com o objectivo de encontrar esta alma desolada e ganhá-la para Si próprio, temos uma bendita sombra da jornada ainda maior que o Filho de Deus tomou – deixar a paz, o gozo e a luz dos céus, descer a este mundo de conflito, escuridão e desventura. Ele veio aqui procurar pecadores, não apenas para salvá-los do pecado e da morte, mas para conceder-lhes beber e a deleitar com o amor de Deus como nenhum anjo pôde prová-lo; para, de corações transbordantes com a consciência da sua dívida com o Salvador, e a gratidão ao Pai por ter entregue o Seu Filho amado a eles, ao perceberem e aceitarem a Sua excelência suprema, poderem expressar-se diante d’Ele como aroma suave de louvor. Isto é adoração, e o reconhecimento do amor irresistível de Deus e o sangue redentor de Cristo são a causa disto.
Um dos mais abençoados e belos exemplos registados no Novo Testamento do que a adoração é encontra-se em João 12.2,3. “Fizeram-Lhe, pois, ali uma ceia, e Marta servia, e Lázaro era um dos que estavam à mesa com Ele. Então Maria, tomando um arrátel de unguento de nardo puro, de muito preço, ungiu os pés de Jesus, e enxugou-lhe os pés com os seus cabelos; e encheu-se a casa do cheiro do unguento”. Como alguém já disse, “ela não veio ouvir um sermão, apesar do Príncipe dos Pregadores estar ali. Sentar-se aos Seus pés e ouvir a Sua palavra não era naquele momento o seu objectivo, não importa quão abençoador isto seja na sua devida circunstância. Ela não veio para encontrar os santos, apesar de preciosos santos estarem ali; nem a comunhão com eles; mesmo sendo uma bênção, naquele instante não era o seu objectivo. Ela não procurou, depois de uma semana de trabalho, por descanso; mesmo sabendo bem dos abençoados campos de descanso que havia n’Ele. Não, ela veio para pôr diante d’Ele aquilo que ela tinha ajuntado por tanto tempo, aquilo que era a mais valiosa das suas posses terrenas. Ela não pensou como Simão, o leproso, sentado agora como um homem limpo; ela foi além dos apóstolos; e, ainda, também, de Marta e Lázaro, irmã e irmão na carne e em Cristo. O Senhor Jesus preencheu os seus pensamentos: Ele havia ganho o coração de Maria e agora tomou todos os seus sentimentos. Ela não tinha olhos para ninguém além d’Ee. Adoração e homenagem eram, naquele momento, o seu único pensamento – extravasar a devoção do seu coração diante d’Ele”. Isto é adoração.
O assunto da adoração é muito importante, ainda assim é um dos temas que temos as ideias mais vagas. Lemos em Mateus 2 que os magos levavam os seus “tesouros” para oferecer a Cristo (v. 11). Eles deram ofertas caras. Isto é adoração. Não é vir para receber d’Ele, mas render-se diante d’Ele. É a expressão de amor do coração. Oh, que possamos trazer ao Salvador “ouro, incenso e mirra”, isto é, adorá-lO por causa da Sua glória divina, da Sua perfeição moral e da Sua morte de aroma suave...
O alvo da adoração é Deus; e o inspirador da adoração é Deus. Só pode satisfazer a Deus aquilo Ele tenha por Si mesmo produzido. “SENHOR... tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” (Isaías 26.13). É somente quando o Cordeiro é exaltado no poder do Espírito que os santos são levados a cantar “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador” (Lucas 1.46,47). A ausência generalizada e concupiscente desta adoração que é “em espírito e em verdade” deve-se a uma ordem de coisas sobre as quais o Espírito de Deus não guia, e onde o mundo, a carne e o diabo têm toda liberdade. Mas mesmo em círculos onde o mundanismo, nas suas formas mais vis, não é tolerado, e em que a ortodoxia é tolerada, e onde a ortodoxia ainda é preservada, existe, quase sempre, uma notável ausência desta unção, esta liberdade, esta alegria, que são inseparáveis do espírito da verdadeira adoração. Porque é que isto acontece? Porque é que em algumas igrejas, grupos familiares, uniões masculinas, onde a mensagem da Palavra de Deus é ministrada, nós agora mui raramente encontramos este transbordar do coração, estes manifestações espontâneas de adoração, estes “sacrifícios de louvor”, que deveriam ser achados entre o povo de Deus? Ah, a resposta é difícil de encontrar? É porque há um espírito entristecido neste meio. Esta, meus amigos, é a razão pela qual hoje existem tão poucos ministérios vivos de Cristo, confortadores e que produzem adoração.
(Continua)



