UNIDADE: O que é? E estou eu a confessá-la? (3) Por Charles H. Mackintosh

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Charles Henry Mackintosh (C.H.M.)

(Continuação)

     

     Agora peço-vos que abram comigo o capítulo 29 do segundo livro das Crónicas. Tomemos uma frase do versículo 24, que contém o mesmo princípio:

     «Porque o rei ordenou que o holocausto e a oferta pelo pecado fossem feitos por...»

     Por quem?

     Por Judá e Benjamim?

     Não.

     (2 Crónicas 29:24)

     Por «todo o Israel».

     Aqui temos o mesmo princípio. Aqui vemos Ezequias tomando posição sobre o mesmo terreno elevado que Elias havia ocupado no seu tempo.

     As dez tribos estavam separadas das duas. Jotão e Acaz tinham feito a sua obra, e as coisas tinham ido de mal a pior. Mas aqui está Ezequias fazendo a mesma coisa que Elias e agindo na mesma fé.

     Não se trata da medida de inteligência — esse não é o ponto. Mas, amados irmãos, uma das características mais preciosas do assunto que temos diante de nós esta noite é que se trata de uma questão de simples fé na verdade da perfeita unidade de Israel diante dos olhos de Deus.

     É a simples fé contemplando aquelas preciosas palavras que brilham como gemas em Levítico 24:

     «Estatuto perpétuo», «aliança eterna».

     Não se trata aqui da conduta de Israel para com Deus. Isso certamente tem o seu lugar e a sua importância. Mas não estamos agora a falar dos méritos do homem, e sim dos atos de Deus; não da falha de Israel, mas da fidelidade de Jeová.

     É nosso santo privilégio permanecer no santuário de Deus e contemplar, com o olhar da fé, aqueles doze pães sobre a mesa pura, sob as sete lâmpadas do castiçal de ouro — símbolo do testemunho do Espírito Santo.

     E o que proclama esse testemunho?

     Isto, de forma claríssima: que, durante todas as escuras e sombrias vigílias da noite da nação, as doze tribos estão diante dos olhos de Deus na sua perfeita unidade, não perturbadas por todos os movimentos, agitações e tumultos das nações.

     O blasfemo pode ter de ser apedrejado fora do arraial; os juízos governamentais de Deus podem manifestar-se em toda a sua severa realidade; mas a fé vê os doze pães sobre a mesa de ouro.

     A fé ocupa-se das realidades eternas.

     Ela persevera como vendo Aquele que é invisível.

     Ela contempla as coisas que estão dentro do véu.

     Ela faz de Deus a sua grande realidade e não é movida, de forma alguma, pelas aparências exteriores.

     Numa palavra, a fé conhece Deus e pode confiar n'Ele para tudo.

     A fé é o conhecimento de Deus; é confiança em Deus — isto é fé.

     Ah, que realidade, amados irmãos!

     Suplico-vos sinceramente, na presença de Deus — suplico a cada um de vós que se aproprie disto: desta fé simples em Deus que levará a vossa alma através de toda a espécie de circunstâncias; a mesma fé que sustentou Elias no cimo do Carmelo; a mesma fé que capacitou Ezequias a ordenar que o holocausto e a oferta pelo pecado fossem feitos por «todo o Israel» — isto é, que o sacrifício que devia ser o fundamento de toda a esperança da nação, o sacrifício cujo alcance abrangia todo o Israel de Deus.

     Assim foi nos dias de Ezequias, e assim é agora. Havia a confissão da falha humana e, ao mesmo tempo, o apegar-se à fidelidade divina.

     Se Israel não estava em condições de celebrar a páscoa no primeiro mês, Deus podia abençoá-los no segundo mês. Embora a condição de Israel não estivesse à altura do padrão de Deus, a graça de Deus podia descer até à condição de Israel.

     O segundo mês certamente não era o primeiro; mas, se apenas houvesse verdadeira preparação de coração, Deus podia abençoar num como no outro.

     Não serve de nada fingirmos ser aquilo que não somos. Devemos ocupar o nosso verdadeiro lugar, e Deus pode encontrar-nos aí, segundo aquilo que Ele é em Si mesmo.

     É assim que a fé se eleva até Deus e se apodera das coisas que estão de acordo com a Sua infalível fidelidade.

     Assim, aplicando a nossa ilustração, leio no quarto capítulo da Epístola aos Efésios que «há um só corpo», e encontro esta verdade colocada lado a lado com todas as grandes verdades fundamentais da fé cristã, de tal modo que, se tocar numa delas, tem de tocar em todas; se abalar uma, tem de abalar todas.

     Não vejo, amados irmãos, como uma pessoa pode realmente e solenemente sustentar qualquer verdade de Deus, se permite que outra verdade seja reduzida a nada apenas porque não é exibida na prática.

     Suponhamos que me perguntam:

     — «Crê nas doutrinas da justificação pela fé, do pecado original e da completa ruína do homem?»

     Certamente que sim.

     — «Crê que há um só Senhor, uma só fé, um só baptismo, um só Deus e Pai de todos?»

     Sim.

     — «Porque crê nestas coisas? Porque as sente ou porque as vê?»

     Não.

     — «Então porque crê nelas?»

     Creio nelas porque a Palavra de Deus as revela.

     Este é o único fundamento da fé em qualquer verdade da religião cristã.

     Portanto, se eu rejeitasse a grande doutrina da unidade do corpo de Cristo por causa das inumeráveis divisões da cristandade, estaria a julgar pela vista dos meus olhos em vez de me apoiar na verdade de Deus.

     Estaria a raciocinar com base no que vejo, em vez de crer no que Deus me diz.

     Se, portanto, me perguntarem porque creio na doutrina da justificação pela fé, respondo: porque ela está exposta no volume imperecível de Deus.

     Sobre exatamente o mesmo fundamento creio na unidade do corpo, na divindade de Cristo, na perfeita humanidade de Cristo e na virtude sacrificial do Seu sangue.

     Creio na eficácia do Seu sacerdócio.

     Creio no facto da Sua glória futura.

     Creio em todas estas verdades porque estão escritas nas Santas Escrituras.

     Muito bem; exatamente sobre o mesmo fundamento, há um só corpo e um só Espírito.

     Pensam que eu acreditaria mais firmemente nisto se todos os verdadeiros santos de Deus em Londres partissem o pão num único edifício todos os domingos?

     Certamente que não.

     Eu creio nisso, não porque o veja realizado na prática, mas porque está declarado no quarto capítulo de Efésios que «há um só corpo».

     Voltemos agora, por alguns momentos, à profundamente interessante e instrutiva história de Josias, registada em 2 Crónicas 34 e 35.

     Encontraremos uma ilustração notável deste mesmo importante princípio.

     Josias, tal como Ezequias e Elias, reconheceu a unidade das doze tribos e agiu de acordo com essa verdade, apesar da mais deprimente e humilhante condição das coisas.

     Atuou segundo a verdade imutável de Deus e não segundo o estado prático do povo de Deus.

     Levou as suas reformas a todas as cidades pertencentes a Israel.

     E, falando aos levitas, ordenou-lhes, no início daquele maravilhoso dia, que servissem o Senhor e o Seu povo Israel.

     Fixem bem este ponto.

     Ele encarrega os levitas de servirem Jeová e não o Seu povo Judá, mas «o Seu povo Israel».

     Só podia falar e agir em relação à nação segundo a mente revelada de Deus, e não segundo a sua condição prática.

     É novamente o altar de doze pedras.

     É novamente «o holocausto e a oferta pelo pecado por todo o Israel».

     São novamente os doze pães sobre a mesa de ouro, sob a luz dos sete candeeiros de ouro.

     É o Israel de Deus visto pela fé.

     E, contudo, Josias encontrava-se no ponto mais baixo.

     A nação estava à beira da dissolução.

     Nabucodonosor estava quase às portas.

     Não importa.

     Tudo estava prestes a desmoronar-se.

     Não importa.

     A fé não se iria desmoronar.

     Josias, em espírito e em princípio, regressou à mesa de ouro — o único lugar para onde a fé pode regressar.

     Oh, irmãos, conseguem ver isto?

     Pergunto-vos: estais a absorver nas vossas almas esta preciosa verdade?

     Ainda que alguém falhe em apresentá-la de forma clara e compreensível, estou tão convencido dela como estou de que estas lâmpadas estão a arder diante de mim: estamos ocupados agora com um princípio que, se o compreenderem, fortalecerá as vossas almas e dará firmeza e vigor a toda a vossa caminhada prática, não importa o que esteja contra vós.

     Não pensem que vos estou a conduzir por estas cenas históricas das Escrituras do Antigo Testamento apenas para ocupar uma hora.

     Não, irmãos.

     Estou a transmitir-vos as verdades que Deus colocou no meu coração para vos falar.

     Pois qual é o grande objectivo desta reunião?

     Para que estais aqui?

     Será apenas para passar uma hora?

     Não.

     Devem lembrar-se de que o objetivo de uma reunião como esta é colocar as almas em contacto pessoal e vivo com a verdade de Deus.

     Esse é o propósito destas reuniões.

     E é dever solene de todo o homem que ocupa uma posição como esta falar aos ouvidos dos seus irmãos.

     Repito: é o seu dever solene e deve ser o seu único objectivo absorvente colocar a alma e Deus em contacto vivo e pessoal.

     Isso é poder.

     Posso pregar um sermão.

     Posso apresentar uma série de conferências.

     E, ainda assim, nunca colocar uma alma face a face com Deus nem trazer a consciência para debaixo da luz e da autoridade das Santas Escrituras.

     Ora, foi exatamente isso que Josias fez.

     Tendo sentido na sua própria alma a poderosa acção da Palavra de Deus, procurou trazer as almas dos seus irmãos para debaixo da mesma poderosa influência (ver 2 Crónicas 34:29-30).

     E qual foi o resultado?

     Que desde os dias do rei Salomão, aqueles dias brilhantes e gloriosos, nunca tinha havido uma páscoa como a que Josias celebrou no final da história da nação.

     O que significa isto?

     É mais um elo na corrente.

     É mais uma pérola no fio.

     É mais uma gema na coroa.

     É a resposta de Deus à fé do Seu servo.

     Josias tomou a sua posição pela fé em Deus, e Deus respondeu à sua fé.

     Nunca tinha sido celebrada uma páscoa semelhante durante todos os dias dos reis.

     Pensem nisso!

     Houve toda a glória do reinado de Salomão e todas as vitórias do reinado de David.

     Mas o testemunho do Espírito Santo é que nunca houve uma páscoa como a que foi celebrada no reinado de Josias.

     E compreende-se porquê.

     O próprio facto das circunstâncias em que ele se encontrava lançava uma auréola sobre a sua fé.

     Deus foi mais glorificado por Josias ao tomar essa posição do que por todo o ouro e prata que fluíram para os tesouros de Salomão.

(Continua)

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