Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XLIX – Atos 28:17-31 (2)

Acts dispensationally considered

 

A PRINCIPAL CONFERÊNCIA

 

     “E, havendo-lhe eles assinalado um dia, muitos foram ter com ele à pousada, aos quais declarava com bom testemunho o Reino de Deus e procurava persuadi-los à fé de Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas, desde pela manhã até à tarde.

     “E alguns criam no que se dizia, mas outros não criam.

     “E, como ficaram entre si discordes, se despediram, dizendo Paulo esta palavra: Bem falou o Espírito Santo a nossos pais pelo profeta Isaías,

     “Dizendo: Vai a este povo e diz: De ouvido, ouvireis e de maneira nenhuma entendereis; e, vendo, vereis e de maneira nenhuma percebereis.

     “Porquanto o coração deste povo está endurecido, e com os ouvidos ouviram pesadamente e fecharam os olhos, para que nunca com os olhos vejam, nem com os ouvidos ouçam, nem do coração entendam, e se convertam, e eu os cure.

     “Seja-vos, pois, notório que esta salvação de Deus é enviada aos Gentios, e eles a ouvirão.

     “E, havendo ele dito isto, partiram os Judeus, tendo entre si grande contenda.

     “E Paulo ficou dois anos inteiros na sua própria habitação que alugara e recebia todos quantos vinham vê-lo,

     “Pregando o Reino de Deus e ensinando com toda a liberdade as coisas pertencentes ao Senhor Jesus Cristo, sem impedimento algum.”

- Atos 28:23-31.

     Tendo chegado o dia acordado, “muitos”[1] dos judeus vieram à “pousada” de Paulo.

     Aqui, novamente, devemos observar cuidadosamente com exatidão como Paulo lidou com eles e o que isso implica.

     Nós lemos que ele lhes deu “testemunho” do reino de Deus e procurou “persuadi-los” a respeito de Jesus, “tanto pela lei de Moisés como pelos profetas” (Ver. 23).

     Isto implica, como alguns concluem, que até esta altura Paulo pregou apenas o que estava contido na lei e nos profetas? Aqueles que insistem que isto é assim geralmente usam Atos 26:22 para provar a sua disputa, mas ainda temos que ver um deles adicionar a cláusula condicional do versículo 23.

     O facto claro é que encontramos Paulo, nas suas primeiras epístolas, e mesmo no registo dos Atos, a pregar muita coisa que não estava contida na lei e nos profetas. De facto, já em Atos 13:38,39, nós encontramo-lo a pregar numa sinagoga, proclamando, sem a lei, a justificação pela fé em Cristo.

     Mas ao lidar com os judeus debaixo da lei, ele tem que lhes provar pelas suas Escrituras, que Jesus é o Cristo. É simplesmente uma pena que em muitos casos eles se tenham recusado a ser persuadidos, de modo que ele não pôde continuar a pregar-lhes as gloriosas verdades que ele tinha sido especialmente comissionado a proclamar.

     Se for lembrado que o tema de Atos é a queda de Israel e a justificação do próprio Deus em ir aos Gentios, não parecerá estranho que repetidas vezes nós encontremos o apóstolo a provar aos Judeus que Jesus é o Cristo, mas não avançando mais, uma vez que eles se recusam aceitar a prova.

     Neste caso particular, ele continuou a “testemunhar” e a “persuadir” de manhã à noite com resultados que eram inconclusivos, para dizer o mínimo. Alguns foram persuadidos, mas outros “não creram”, recusando-se a ser convencidos e, discordando entre si, e “começaram a se despedir”.[2] Antes de partirem, porém, o apóstolo pronunciou sobre eles aquela dura acusação que implica não apenas uma paciência quase exausta pela longa disputa recheada de discriminação e incredulidade, como o fim dos atuais tratos de Deus com Israel como nação.

     É de notar que em cada uma das crises em que Paulo se voltou dos Judeus para os Gentios, ficou claro que os próprios Judeus eram culpados, uma vez que eles se recusaram a aceitar o Messias e o cumprimento das promessas.

     Em Jerusalém, o próprio Senhor apareceu a Paulo, dizendo: “Dá-te depressa, e sai rapidamente de Jerusalém; porque NÃO RECEBERÃO O TEU TESTEMUNHO ACERCA DE MIM” (Atos 22:18).

     Em Antioquia da Pisídia, o apóstolo havia dito aos Judeus, no que diz respeito à Palavra de Deus: "VISTO QUE A REJEITAIS, E VOS NÃO JULGAIS DIGNOS DA VIDA ETERNA” (Atos 13:46).

     Em Corinto, depois de eles se terem colocado em oposição e blasfemarem: “O  VOSSO SANGUE SEJA SOBRE A VOSSA CABEÇA; EU ESTOU LIMPO” (Atos 18:6).

     E agora em Roma: “Bem falou o Espírito Santo a nossos pais pelo profeta Isaías ... O CORAÇÃO DESTE POVO ESTÁ ENDURECIDO, E COM OS OUVIDOS OUVIRAM PESADAMENTE E FECHARAM OS OLHOS, PARA QUE NUNCA COM OS OLHOS VEJAM, NEM COM OS OUVIDOS OUÇAM, NEM DO CORAÇÃO ENTENDAM” (Vers. 25-27).

     Sete vezes o Espírito refere-se a este julgamento sobre Israel e mostra o perigo de se endurecer o coração contra Deus e a Sua verdade.

     Esta acusação dos Judeus em Roma feita por Paulo deve ser comparada com a acusação aos líderes em Jerusalém feita por Estêvão. Ele também se referiu aos Judeus incrédulos dos tempos antigos como “vossos pais”, chamando aos seus ouvintes “incircuncisos de coração e ouvido” e acusando-os de “sempre resisti[r] ao Espírito Santo” (Atos 7:51).

     Os Judeus (exceto um remanescente) de Jerusalém a Roma haviam rejeitado o seu Messias. A declaração oficial inicial de Estêvão teve agora uma conclusão, como Paulo disse:

     “TOMAI, POIS, CONHECIMENTO DE QUE ESTA SALVAÇÃO DE DEUS FOI[3] ENVIADA AOS GENTIOS, E ELES A OUVIRÃO” (Ver. 28, RA).

     Que tolice presumir que isto assinala o início histórico do Corpo de Cristo! Claramente, isto não é o começo de algo, mas o fim de algo – a remoção do favor de Deus a Israel por algum tempo.

     Uma grande mudança nos tratos de Deus com os homens tinha agora sido consumada. Quando na terra, o nosso Senhor disse a uma mulher samaritana: “A salvação é[4] dos Judeus” (João 4:22). Mas agora o apóstolo do glorificado Senhor declara: “A salvação de Deus foi enviada aos Gentios” (Atos 28:28).

     A presente obra de Deus não é, naturalmente, o cumprimento da profecia entre os Gentios. Isso aguarda um dia futuro, quando a nação de Israel for salva e os Gentios encontrarem a salvação por meio dela (Zacarias 8:13,22,23; etc.) A Sua presente obra é chamada de “este mistério entre os Gentios” e é-nos dito que Ele faz-nos saber quais são “as riquezas da glória” do mesmo (Col. 1:27).

     Os nossos corações devem de facto transbordar de assombro e gratidão por nesta dispensação da graça nós Gentios, a quem Deus não havia prometido nada (Efé. 2:11,12), podermos ser salvos e reunirmo-nos para adorar o Deus e o Messias da nação de Israel enquanto esta cambaleia em cegueira de incredulidade; de facto, podermos pertencer a este bendito Corpo do qual Ele é a Cabeça viva, sentados com Ele nos lugares celestiais e ali abençoados com “todas as bênçãos espirituais” (Efé. 1:3; 2:4-10,13).

     Havia sido predito que Jeová se divorciaria de Israel (Isaías 50:1); que eles seriam Lo-Ami: não o Seu povo (Ose. 1:9), porém Ele nunca tornou conhecido o propósito do Seu coração de amor em trazer salvação aos Gentios através da “queda” e “rejeição” de Israel (Rom. 11:11-15).

     É verdade que sob esta dispensação da graça, diante de Deus, “não há diferença entre Judeu e Grego” e que “um mesmo é o Senhor de todos; rico para com TODOS os que O invocam” (Rom. 10:12). É verdade que “Deus encerrou a todos debaixo da desobediência para com TODOS usar de misericórdia” (Rom. 11:32) e que os Judeus e Gentios crentes agora são “pela cruz reconcilia[dos] ambos com Deus em um corpo” (Efé. 2:16). Assim, a oferta da salvação pela graça é estendida a todos os homens em todos os lugares, sejam Judeus ou Gentios.

     Mas tudo isto não altera o facto de que, na prática, esta é uma era Gentílica, simplesmente porque tão poucos judeus aceitam Cristo como seu Salvador. Tão pequena é a proporção de Judeus no Corpo de Cristo que quase todas as congregações Cristãs são constituídas exclusivamente ou esmagadoramente de Gentios na carne.

     Assim, a declaração oficial era verdadeira: “A salvação de Deus foi enviada aos Gentios, e eles a ouvirão”. E assim os judeus partiram da pousada de Paulo “tendo entre si grande contenda”, como sempre acontecia.

     Depois de alguns dias de hospedagem na casa dos amigos, Paulo evidentemente mudou-se para “sua própria habitação que alugara”, onde permaneceu por dois anos inteiros, recebendo todos os que desejavam visitá-lo (Ver. 30). Ele evidentemente envolveu-se num ministério muito frutífero aqui, sendo usado por Deus, entre outras coisas, para estabelecer uma igreja no próprio palácio do Imperador (Fil. 1:12,13; 4:22). Nem os seus inimigos agora poderiam oprimi-lo, pois ele estava sempre acompanhado pela sua guarda Romana.

     Deve ser lembrado que os versículos iniciais dos Atos, dizem que o nosso Senhor ensinou aos Seus apóstolos durante quarenta dias “do que respeita ao reino de Deus” (1:3). Tal envolvia, certamente, o seu estabelecimento na terra, pois era isto que deveria seguir-se aos Seus sofrimentos (Atos 1:6; 2:30; 3:19-21; etc.). Desde aquele tempo que a nação de Israel havia rejeitado o Messias e o Seu reinado, por isso, quando Paulo, em Roma, pregou “o reino de Deus e ... as coisas pertencentes ao Senhor Jesus Cristo”, ele naturalmente explicou como Cristo foi rejeitado, o estabelecimento terreno do reino de Deus estava agora suspenso, enquanto Deus enviava a um mundo amaldiçoado pelo pecado uma mensagem maravilhosa de graça; uma oferta de reconciliação através do sangue do Seu Filho.

     Se o apóstolo foi libertado ou não depois dos dois anos e envolvido num ministério itinerante antes do seu julgamento e execução por Nero, é uma questão que discutiremos a fundo num apêndice.

 


[1] A maioria das traduções usa aqui a tradução “muitos”, embora, na verdade, a palavra Grega pleion seja o comparativo de polus e significa “mais” ou “a maior parte”. Assim (tanto quanto podemos agora averiguar) este segundo ajuntamento pode ter sido assistido quer por mais quer por menos Judeus do que o primeiro. Se o significado é “mais” do que o grupo, seria maior; se o significado é “a maior parte”, então o grupo seria menor! É inconcebível que os leitores de Lucas não entendessem exatamente o que ele quis dizer, mas ainda estamos a aprender o Grego daqueles dias.

[2] O pretérito imperfeito é usado, “se despediram”.

[3] As versões RC e DO dizem “É enviada”.

[4] A versão King James Fiel 1611 diz “é” em vez de “vem”. – Nota do tradutor.

 

 Atos dispensacionalmente Considerados

Cornelius R. Stam

 

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