Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XLIX – Atos 28:17-31

Acts dispensationally considered

 

PAULO EM ROMA

 

A REUNIÃO PRELIMINAR COM OS LÍDERES JUDEUS

           

     “E aconteceu que, três dias depois, Paulo convocou os principais dos Judeus e, juntos eles, lhes disse: Varões irmãos, não havendo eu feito nada contra o povo ou contra os ritos paternos, vim, contudo, preso desde Jerusalém, entregue nas mãos dos Romanos,

     “Os quais, havendo-me examinado, queriam soltar-me, por não haver em mim crime algum de morte.

     “Mas, opondo-se os Judeus, foi-me forçoso apelar para César, não tendo, contudo, de que acusar a minha nação.

     “Por esta causa vos chamei, para vos ver e falar; porque pela esperança de Israel estou com esta cadeia.

     “Então, eles lhe disseram: Nós não recebemos acerca de ti cartas algumas da Judeia, nem veio aqui algum dos irmãos que nos anunciasse ou dissesse de ti mal algum.

     “No entanto, bem quiséramos ouvir de ti o que sentes; porque, quanto a esta seita, notório nos é que em toda parte se fala contra ela.”

- Atos 28:17-22.

     Onde quer que Paulo fosse no seu ministério até ao presente, a sua política tinha sido: “Ao Judeu primeiro”. Alguém poderia supor que isso agora se alteraria. O seu último apelo sincero aos seus compatriotas em Jerusalém só serviu para despertar um antagonismo tão amargo que a sua presente escravidão em Roma era sua única proteção contra a raiva deles! Ele havia sido forçado a apelar para César a fim de escapar a um assassinato. Além disso, quem poderia esperar que ele fosse ao Judeu primeiro naquelas circunstâncias? Ele estava preso com uma cadeia e não podia ir a uma sinagoga ou ir onde os judeus se costumavam encontrar.

     No entanto, mesmo aqui em Roma, o seu primeiro cuidado foi com os seus parentes [ou, patrícios]. Talvez alguns deles ainda pudessem ser salvos. De qualquer forma, o povo escolhido, de Jerusalém a Roma, estava sem desculpa.

     Foi assim que depois de “três dias”, sem dúvida gastos em se estabelecer e se encontrar com amigos Cristãos, antigos e novos, ele “convocou os principais dos Judeus” para uma reunião preliminar, em que uma data pudesse ser marcada e planos feitos para uma discussão completa dos assuntos que preocupavam tão profundamente a todos eles.

     Com tato típico, o apóstolo dirigiu-se a eles na terminologia que eles apreciavam: “Varões irmãos”, “o povo”, “paternos, [ou, nossos pais]”. No entanto, ele teve o cuidado de não dar falsas impressões.

     É somente o dispensacionalista extremista, tentando provar o seu ponto de vista, que interpreta as palavras do apóstolo no verso 17 significando que até este tempo ele tinha estritamente observado as leis e costumes do Judaísmo.

     Na verdade, ele não disse nada disso, nem poderia honestamente tê-lo feito, pois até os dispensacionalistas extremistas, que interpretam as suas palavras em 1 Coríntios. 9:20,21 como que significando que a sua política era alternar debaixo da lei com debaixo da lei novamente, terão que admitir que ele não havia observado as leis e costumes (ritos) Judaicos quando entre os Gentios.

     Assim, essa passagem não prova de forma alguma que Paulo até então tivesse vivido debaixo da lei, proclamando uma mensagem do reino. Ele não se vinculou aqui  positivamente. Ele não disse: “Eu observei fielmente os costumes dos nossos pais”. Ele apenas disse: “[Eu não fiz] nada contra o povo ou contra os ritos paternos.” A ideia é que ele não era culpado de profanar os seus costumes sagrados. Ele não havia tratado o povo ou seus costumes tradicionais com desrespeito.[1] Aqueles que ridicularizam tão levianamente crenças e costumes que são sagrados para os outros, fariam bem em observar a conduta de Paulo nesta ocasião.

     Em seguida, deve ser observado que o apóstolo assume a posição defensiva, quando ele relata como, embora inocente de ofensa contra o Judaísmo, ele era um prisioneiro entregue nas mãos dos Romanos. Isso tenderia ainda a ganhar mais as suas simpatias, pois uma das coisas mais cruéis que um Judeu poderia fazer a um seu irmão seria entregá-lo aos incircuncisos opressores Romanos.

     Ele ainda ressalta, no entanto, que seus juízes Romanos o consideraram inocente dos crimes que lhe foram atribuídos, na verdade eles tê-lo-iam solto, se os Judeus não se tivessem insurgido contra.

     Esta experiência de Paulo não foi diferente da do seu Senhor. Um após outro, os sucessivos magistrados Romanos consideraram-no inocente e cada um individualmente deveria, em justiça, absolvê-lo, mas, como com nosso Senhor, os desejos dos Judeus desempenharam um papel importante nas suas decisões.

     Assim, o apóstolo ressalta que ele está aqui em Roma como réu, não como litigante. Ele tinha sido forçado[2] a apelar para César para evitar ser entregue a um tribunal discriminatório (25: 9,10) e, muito provavelmente, ser assassinado antes mesmo de ser julgado (25: 2,3). No entanto, ele não está aqui para fazer qualquer acusação contra os seus perseguidores. Ele não conta como o arrastaram para fora do templo, batendo nele e querendo matá-lo sob a mera suposição de que havia introduzido um Gentio no santuário, nem como a multidão excitada tinha gritado pela sua morte, despindo-se e atirando pó para o ar, nem como o sumo sacerdote ordenara que fosse ferido na boca ao ouvir o Sinédrio, nem como mais de quarenta Judeus[3] fizeram um pacto de não comer nem beber até o matarem - e todos esses ultrajes, e mais, que ele poderia provar.

     Ele não fez uma única acusação contra os seus acusadores diante de nenhum juiz Romano, nem fará isso diante de César, nem sequer conta a esta audiência sobre todos aqueles ultrajes. Os seus lábios estão selados quanto a tudo isso. Ele foi muito longe para conciliar a nação favorecida e aqui fá-lo-á outra vez, acrescentando à sua explicação da sua presença aqui, as palavras: “não tendo, contudo, de que acusar a minha nação”.[4]

     Enquanto havia muito que Paulo poderia ter acusado sua nação, lembre-se que também havia muito do que eles poderiam acusá-lo a ele. No princípio ele liderara-os na rebelião contra Cristo. Uma mensagem de graça da sua parte era, portanto, mais apropriada. Tinha sido plenamente demonstrado que os filhos de Abraão eram pecadores, juntamente com todos os outros filhos do decaído Adão.

     Mas o seu principal objetivo ao convocá-los era mostrar-lhes como a verdade à qual os seus acusadores se opunham tão amargamente e que agora lhe custara a sua liberdade, era a própria “esperança de Israel”.

     Esta verdade não era meramente aquilo que os profetas haviam predito a respeito do reinado do Messias, pois os crentes em Jerusalém vinham pregando isso há algum tempo sem séria oposição. Era antes a verdade da ressurreição em geral e a ressurreição de Cristo em particular. Esta verdade, que Paulo proclamou com maior luz e maior poder do que qualquer um dos doze poderia ter feito e que tanto despertou a inimizade dos Judeus, era realmente a única esperança de Israel. Certamente, se não fosse verdade que o Messias crucificado havia ressuscitado, não poderia haver esperança de que um reino viesse, pois não há outro Messias. E, o que é mais importante, não poderia haver esperança para o perdão dos pecados de Israel, pois um Messias morto não poderia salvar.

     Na passagem diante de nós, o apóstolo diz: “Pela a esperança de Israel, estou com esta cadeia” (Ver. 20). Agora, examinando as Escrituras em questão, qualquer estudante sincero saberá que Paulo estava “com esta cadeia”, não por causa da proclamação daquilo por que Israel esperava, o reino, mas por causa da proclamação que era a base da esperança da nação, a ressurreição”.[5] Examinemos então o registo:

     Perante o Sinédrio, o apóstolo declarou claramente por que ele havia sido “julgado” pelos Judeus:

     “Varões irmãos ... NO TOCANTE À ESPERANÇA E RESSURREIÇÃO DOS MORTOS, SOU JULGADO (23:6).

     Diante de Félix, o apóstolo declarou novamente:

     “Mas confesso-te isto, que conforme aquele caminho que chamam de seita, assim sirvo ao Deus de nossos pais ... TENDO ESPERANÇA EM DEUS ... QUE HÁ-DE HAVER RESSURREIÇÃO DE MORTOS ...” (24:14 15).

     Mais uma vez, quando Festo “contou ... os negócios de Paulo” a Agripa, ele disse:

     “...  os acusadores, nenhuma coisa apontaram daquelas que eu suspeitava. Tinham, porém, contra ele algumas questões acerca ... DE UM TAL JESUS, defunto, que Paulo afirmava viver” (25: 18,19).

     Na sua audição perante Agripa, o apóstolo disse:

     “E, AGORA, PELA ESPERANÇA DA PROMESSA QUE POR DEUS FOI FEITA A NOSSOS PAIS, ESTOU AQUI E SOU JULGADO ... POR ESTA ESPERANÇA, Ó REI AGRIPA, EU SOU ACUSADO PELOS JUDEUS” (26: 6,7).

     A promessa, é claro, era a restauração do reino a Israel em glória, mas “a esperança da promessa” era a ressurreição,  pois o apóstolo continua, dizendo:

     “POIS QUÊ? JULGA-SE COISA INCRÍVEL ENTRE VÓS QUE DEUS RESSUSCITE OS MORTOS?” (Ver. 8).

     Todas estas evidências não permitem senão uma só interpretação a respeito da última destas passagens:

     “PORQUE PELA ESPERANÇA DE ISRAEL ESTOU COM ESTA CADEIA” (28:20).

     Que o estudioso sincero e diligente observe cuidadosamente que quatro destas cinco passagens declaram que Paulo foi acusado, ou preso, por uma razão específica; que quatro das cinco afirmam que essa razão é a sua pregação da ressurreição e, finalmente, que em quatro das cinco essa verdade é chamada de “esperança”. Neste contexto, deve ser lembrado que Pedro, em Pentecostes, havia avisado a Israel que Cristo estava vivo (Atos 2:36; 3:14,15; 4:10), enquanto Paulo mais tarde proclamou a ressurreição como a prova de que a questão do pecado tinha sido totalmente tratada (Romanos 4:25; etc.). Era a ressurreição, então, e particularmente a ressurreição do Cristo crucificado, que era “a esperança de Israel”.

     Preso, como ele estava, com “esta cadeia”,[6] o apóstolo sem dúvida também esperava que, mostrando-lhes tudo isto, pudesse ganhar a sua simpatia e apoio no seu apelo para César. Isto parece estar implícito na conclusão: “Por esta causa vos chamei, para vos ver e falar ...” (Ver. 20).

     A resposta deles parece mais diplomática do que franca. Eles dizem que não receberam nem cartas nem queixas pessoais contra ele. No entanto, eles dizem que eles sabem de “esta seita[7] ... que em toda parte se fala contra ela” (Vers. 21,22). Diplomaticamente, eles dizem-lhe que gostariam de ouvir a sua opinião sobre o assunto e, com isso, estabelecem uma data para uma conferência.

 

[1] Como os Judeus em Jerusalém haviam suspeitado (Atos 21:27-29).

[2] A palavra “forçoso” no Versículo 19 é traduzida por “obrigar”  em 26:11.

[3] O termo “Judeus”  nesta passagem é evidentemente usado no seu sentido próprio, não no seu sentido geral.

[4] Isto é consistente com a sua “dispensação da graça de Deus”. Compare com a acusação de Pedro em Atos 2:23; 3:14,15; 4:10,11; 5:30.

[5] Quando ele a pregava, certamente.

[6] O singular concorda com o Versículo 16. Evidentemente ele agora estava preso a um único soldado.

[7] Como é que eles sabiam que ele pertencia a “esta seita”, se eles não tinham ouvido nenhum mau relato contra ele?

 

 

 Atos dispensacionalmente Considerados

Cornelius R. Stam

 

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