Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XLVIII – Atos 28:1-16 (4)

Acts dispensationally considered

 

O MINISTÉRIO DE PAULO EM MELITA

 

     “E ali, próximo daquele mesmo lugar, havia umas herdades que pertenciam ao principal da ilha, por nome Públio, o qual nos recebeu e hospedou benignamente por três dias.

     “Aconteceu estar de cama enfermo de febres e disenteria o pai de Públio, que Paulo foi ver, e, havendo orado, pôs as mãos sobre ele e o curou.

     “Feito, pois, isto, vieram também ter com ele os demais que na ilha tinham enfermidades e sararam,

     “Os quais nos distinguiram também com muitas honras; e, havendo de navegar, nos proveram das coisas necessárias.”

 

- Atos 28:7-10.

     Na tempestade que havia assolado o grande navio de cereais Alexandrino Deus superintendeu tão completamente que este naufragou e soçobrou mesmo no lugar certo!

     Foi mais do que uma mera coincidência que Públio, o “chefe”, ou governador, da ilha possuísse “herdades” na própria área do naufrágio. Deste homem, Lucas escreve: “nos recebeu e hospedou benignamente por três dias”.[1]

     Nós já aprendemos que os Melitanos “acolheram a todos” os 276 sobreviventes (Ver. 2), mas a palavra Grega traduzida por “recebeu” no versículo 7 tem um significado diferente. A palavra anterior significa receber alegremente ou tomar para si, mas a última significa hospedar ou assumir a responsabilidade por. É por isso que a encontramos usada com a palavra “hospedou”, e em relação às “herdades” de Públio.

     É talvez impossível determinar com precisão quantos estão incluídos no “nos” do versículo 7. É duvidoso que inclua todos os 276 sobreviventes, pois se o fizesse, a frase “todos” seria mais apropriada aqui do que no versículo 2. Como Lucas é o escritor, ele sem dúvida inclui Paulo, Lucas e Aristarco, e provavelmente também Júlio, pois certamente o chefe dos oficiais de um território Romano daria especial reconhecimento a um oficial militar Romano de considerável importância. De facto, é bem possível que Públio tivesse oferecido a Júlio essa generosa hospitalidade, que Paulo e seus companheiros puderam compartilhar.

     De qualquer forma, Deus estava a superintender, pois por esta hospitalidade da parte de Públio e pela subsequente cura do seu pai, a aceitação e o prestígio de Paulo na ilha foram imediatamente assegurados e ele teve três meses de utilidade e bênção entre os seus habitantes. E isso, por sua vez, aumentou ainda mais a sua posição junto de Júlio, o centurião.

     O pai de Públio estava doente com febres[2] e uma forma agravada de disenteria. A visita de Paulo neste momento, portanto, foi oportuna, e o seu procedimento de curar o homem doente lança luz sobre uma questão que tem confundido muitos comentaristas.

     Estranhamente, nada é dito no registo sobre qualquer pregação feita por Paulo em Melita, nem sobre alguém ser convertido. Podemos entender que as circunstâncias sem dúvida proibiram a sua pregação a bordo do navio, mas agora, estando três meses na ilha, certamente havia ampla oportunidade de proclamar a Cristo e a Sua obra consumada.

     Em casos desse tipo, não devemos esquecer o princípio seletivo na inspiração divina, que é tão proeminente no livro de Atos. O grande propósito de Deus em Atos não é registar “o nascimento e crescimento da Igreja”, como alguns supõem, mas registar a queda de Israel e justificar a Sua ação ao colocá-los de lado enquanto demonstra a justiça e graça do Messias que eles têm rejeitado.[3]

     Nesta seção final dos Atos, não é principal propósito de Deus mostrar o ministério de Paulo entre os Gentios, mas sim mostrar o apóstolo rejeitado por Israel e enviado acorrentado a Roma por causa do seu ministério entre os Gentios (ver 22:21-23).

     Quem pode duvidar que Paulo pregou o Evangelho aos habitantes de Melita? É verdade que lemos apenas sobre os seus milagres, mas ele não tinha escrito na sua carta aos Romanos que Cristo usou os seus poderosos “sinais e prodígios” “para obediência dos Gentios por palavra e por obras” quando ele pregava “o Evangelho de Jesus Cristo” (Rom. 15: 18,19)?

     Além disso, deve ser observado que, no seu milagre inicial de cura na ilha, ele “orou” ao colocar as mãos no pai de Públio e o curou. Isso, para começar, mostraria aos presentes que não ele era o autor do milagre, mas apenas o instrumento; não um deus, como eles supuseram, mas um mensageiro de Deus. Também podemos ter a certeza de que essa oração, e as palavras que o apóstolo terá dito adicionalmente, incluiriam um testemunho da graça salvadora de Cristo.

     Embora a mera tradição não possa ser confiável, em muitos casos é exata, e neste caso é interessante notar que a tradição coloca uma antiga igreja em Melita, tendo Públio como o seu primeiro bispo ou ancião.

     A cura do pai de Públio naturalmente fez com que outros, que estavam doentes, se dirigissem a Paulo em busca de cura. Foi uma grande oportunidade para Paulo retribuir aos habitantes da ilha a sua generosa hospitalidade, bem como dar-lhes a conhecer Cristo. Os Melitanos não tinham procurado obter qualquer lucro ao fazer amizade com os pobres ​​sobreviventes do naufrágio. Quão ricamente eles foram recompensados! Malta era agora uma ilha de pessoas saudáveis!

     E agora eles mostravam a sua gratidão a Paulo, cuja inesperada visita lhes trouxera tanto bem. Não só o honraram e aos seus companheiros com “muitas honrarias”,[4] mas quando chegou a hora de partir, encheram-nos de provisões para a viagem. Eles nunca esqueceriam o apóstolo e a bênção que ele lhes trouxera. Não é de admirar que esta parte de Malta seja até hoje conhecida como a Baía de São Paulo!

 

[1] O original expressa bondade de sentimento em vez de mera bondade de modo.

[2] Febre contínua.

[3] É por isso que não encontramos nenhuma menção ao “um só Corpo”, tão amplamente tratado nas suas epístolas escritas durante este tempo (veja Rom. 12:4,5; 1 Cor. 12:12-27; Gál. 3:26-28).

[4] Compare aqui o tratamento que o nosso Senhor recebeu nas mãos dos Judeus. Aqueles que deveriam em gratidão levantar-Lhe estátuas e realizar banquetes em Sua honra em todas as cidades, perguntaram-lhe: “Com que autoridade fazes Tu estas coisas? Ou quem Te deu tal autoridade ...?” (Marcos 11:28). Eles pediram ao Grande Médico que mostrasse as Suas credenciais!

 

 

 Atos dispensacionalmente Considerados

Cornelius R. Stam

 

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