Separação! Não fusão!
«Portanto, assim diz o Senhor; Se tu voltares, então te trarei, e estarás diante da Minha face; e se apartares o precioso do vil, serás como a Minha boca; tornem-se eles para ti, mas não voltes tu para eles» (Jer. 15.19). O princípio enunciado no versículo acima citado é da importância mais profunda possível para todos os que têm o desejo de andar com Deus. Não é de forma alguma um princípio popular; muito longe disso. Porém isso não diminui o seu valor no juízo dos que são ensinados por Deus. Num mundo mau o que é popular é quase certo estar errado; e o que tem a ver com Deus - com Cristo - com a verdade pura - é mais do que certeza impopular. Trata-se dum axioma no juízo da fé, porquanto Cristo e o mundo situam-se em extremos opostos da bússola moral.
Presentemente, uma das ideias mais populares dos nossos dias é a fusão ou a amálgama; e todos os que desejam ser considerados homens de amplas simpatias e de sentimentos liberais enveredam por este grande objectivo. Todavia nós não hesitamos em confessar que nada pode ser mais oposto à mente revelada de Deus. Nós fazemos esta declaração com a consciência plena da sua oposição ao juízo universal da Cristandade. Estamos inteiramente preparados para isso. Não que nós procuremos oposição; mas há muito que temos aprendido a desconfiar do juízo do que é chamado mundo religioso, porque temos descoberto constantemente que esse juízo é diametralmente oposto ao ensino claríssimo das Sagradas Escrituras; e é, podemos dizer com verdade, nosso desejo profundo e fervoroso, ficarmos ao lado da Palavra de Deus contra tudo e contra todos; pois estamos bem seguros que nada pode permanecer para sempre, a não ser aquilo que se baseia no fundamento imperecível das Sagradas Escrituras.
O que é que, então, as Escrituras ensinam sobre este assunto? Separação, ou fusão? Qual foi a instrução para Jeremias no trecho acima transcrito? Foi-lhe dito para tentar amalgamar-se, ou ligar-se, aos que estavam em seu derredor? Deveria ele procurar misturar, ou associar, o precioso e o vil? Precisamente o oposto! Jeremias foi ensinado por Deus, primeiro de tudo, para ele próprio voltar - separar-se mesmo daqueles que eram povo de Deus professo, mas cujos caminhos eram contrários à Sua mente. E depois? «Então te trarei, e estarás diante da minha face».
Temos então aqui a senda e a posição pessoal de Jeremias clarissimamente estabelecidas. Ele tinha de voltar, e tomar a sua posição com Deus, separando-se do mal. Era este o seu dever imperioso, a despeito do que os homens ou os seus irmãos pensassem. Eles podiam julgá-lo e pronunciá-lo estreito, fanático, exclusivo, intolerante, e coisas semelhantes; porém ele nada tinha a ver com isso. O seu grande dever e obrigação era obedecer. A separação do mal era a norma divina, não a amálgama com ele. Esta poderia parecer oferecer um campo mais amplo de utilidade, todavia a mera utilidade não é o objectivo do verdadeiro servo de Cristo, mas a simples obediência. O dever dum servo é fazer o que lhe é mandado, não o que ele considera certo ou errado. Se isto fosse compreendido melhor, simplificaria as questões duma forma admirável. Se Deus nos chama para a separação do mal, e nós pensamos que podemos conseguir mais bem pela amálgama com ele, como é que estaremos diante da Sua face? Como é que nos ergueremos diante d'Ele? Chamará Ele bem ao que é resultado da desobediência positiva à Sua Palavra? Não é claro que o nosso primeiro, último, e único dever, é obedecer? Com toda a certeza! Isto é o fundamento, sim, a súmula e a substância de tudo o que realmente pode ser denomi-nado de bem.
Mas não havia algo para Jeremias fazer no seu caminho estreito e na sua posição circunscrita? Claro que havia. A sua prática foi definida com toda a clareza possível. E qual foi ela? «Se APARTARES o precioso do vil, serás como a Minha boca». Não devia apenas erguer-se e andar em separação ele mesmo, mas deveria procurar separar igualmente os outros. Isso poderia dar-lhe a aparência de proselitista, ou de alguém cujo objectivo era atraír pessoas para a sua forma de pensar. Porém, uma vez mais aqui, temos que nos erguer acima dos pensamentos humanos. Para Jeremias era de longe melhor, de longe mais elevado, de longe mais abençoado, ser como a boca de Deus, do que estar de bem com os seus companheiros de jornada. Afinal o que valem os pensamentos dos homens? Absolutamente nada! Quando o seu fôlego se vai, nessa mesma hora os seus pensamentos perecem. Contudo os pensamentos de Deus permanecem para sempre. Se Jeremias tivesse unido o precioso com o vil, ele não teria sido como a boca de Deus; não, teria sido como a boca do diabo. A separação é um princípio de Deus; a fusão é um princípio de Satanás.
É considerado como liberal, coração largo, e caridoso, quem está pronto a associar-se com toda a espécie de pessoas. Confederações, associações, estão na ordem do dia. O crente deve afastar-se de tais coisas, não porque seja melhor do que os outros, mas porque Deus diz, «não vos junteis a um jugo desigual com os infieis». Não era porque Jeremias fosse melhor que os seus irmãos que tinha que separar-se, mas simplesmente porque lhe foi ordenado fazer assim por Aquele cuja Palavra deve sem pre definir o rumo, governar a conduta, e formar o carácter do Seu povo. E, ademais, podemos seguramente descansar que não foi com azedume temperamental, ou severidade de espírito, mas com o coração profundamente dorido e com muita humildade que Jeremias se separou dos que o rodeavam. Ele chorou dia e noite por causa da condição do seu povo; porém a necessidade da separação era tão clara quanto a Palavra de Deus poderia tornar. Ele trilhou a senda da separação com um coração partido e os olhos marejados de lágrimas, mas ele tinha que a trilhar, se quisesse ser como a boca de Deus. Uma recusa sua em trilhá-la significaria querer fazer-se mais sábio que o próprio Deus. Se os que o rodeavam, seus irmãos e amigos, não compreendessem nem apreciassem a sua conduta, ele não tinha nada a ver com isso. Ele podia remetê-los a Jeová para uma explicação, mas a sua obrigação era obedecer, e não apresentar explicações ou dar satisfações.
Assim é sempre.




