14-01-2019 - “Dr. Milagre”: cristão é premiado com Nobel da Paz por atendimento a vítimas de violência sexual

O médico cristão Denis Mukwege, conhecido como “Dr. Milagre” por causa da sua atuação em um projeto social no Congo voltado para vítimas de violência sexual, relatou parte da sua experiência durante a cerimónia em que recebeu o Prémio Nobel da Paz no passado dia 10 de dezembro.
Mukwege recebeu a premiação numa homenagem dos organizadores da luta contra a violência sexual como arma de guerra. Além do Dr. Milagre, a ativista yazidi Nadia Murad também foi contemplada. Ela foi uma das mulheres feitas como escravas sexuais pelo Estado Islâmico no Iraque.
Durante a entrega do prémio, os vencedores cobraram punição aos abusadores. Denis Mukwege , que atende vítimas de violência sexual há duas décadas no hospital de Panzi, região leste da República Democrática do Congo (RDC) e seriamente afetada pela violência crónica, disse que “a denúncia não é suficiente, é preciso agir”.
No seu discurso, ele recapitulou alguns dos vários incidentes horríveis com os quais teve que lidar ao longo dos anos no hospital. O seu primeiro paciente em 1999 foi uma vítima de violação de 18 meses de idade que havia sido baleada nos seus genitais.
“Ela estava sangrando muito e foi levada imediatamente para a sala de cirurgia. Quando cheguei, todas as enfermeiras estavam soluçando. A bexiga, os genitais e o reto do bebé ficaram gravemente feridos pela penetração de um adulto”, detalhou o médico cristão, que terminou ficando conhecido como ‘Dr. Milagre’ por conta do sucesso das suas cirurgias reconstrutivas.
“Oramos em silêncio: ‘Meu Deus, diz-nos que o que estamos a ver não é verdade. Diz-nos que é um sonho mau. Diz-nos, quando acordarmos, que tudo ficará bem. Mas não foi um sonho mau. Era a realidade. Tornou-se na nossa nova realidade na RDC”, acrescentou Mukwege.
O hospital de Panzi continua operando há quase 20 anos, cuidando de mais de 3.500 mulheres por ano.
“O que aconteceu e ainda está a acontecer em muitos outros lugares no Congo, como as violações e massacres em Béni e Kasaï, foi possível pela ausência do Estado de direito, o colapso dos valores tradicionais e o reinado de impunidade, particularmente para os que estão no poder”, disse o obstetra-ginecologista. “Violação, massacres, tortura, insegurança generalizada e falta flagrante de educação criam uma espiral de violência sem precedentes”, relatou.
A guerra civil instaurada no país é uma situação que precisa de ser abordada pela comunidade internacional, vincou o vencedor do Nobel: “O custo humano desse caos pervertido e organizado foi de centenas de milhares de mulheres violadas, mais de 4 milhões de pessoas deslocadas dentro do país e a perda de 6 milhões de vidas humanas. Imagine, o equivalente de toda a população da Dinamarca dizimada”.
“Agir é uma escolha. É uma escolha: interromper, ou não, a violência contra as mulheres ... em tempos de paz e em tempos de guerra. Se há uma guerra a ser travada, é a guerra contra a indiferença que está corroendo as nossas sociedades”, ´sublinhou o Dr. Milagre.
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