10-02-10 - Haitianos voltariam a entregar os seus filhos aos missionários dos EUA
CALLEBASSE, Haiti — "Eu daria meu filho de novo. Ansitho merece uma vida melhor do que a nossa", declarou Anchello Cantave (na foto ao lado), um agricultor de Callebasse, povoado situado a uma hora de Porto Príncipe (para leste) - onde, como outros pais, entregou o filho de 5 anos aos missionários de Idaho, EUA.Condenados a um destino de infortúnio, os habitantes de Callebasse receberam a visita dos 10 missionários baptistas de Idaho (noroeste dos Estados Unidos), "dois dias depois do terramoto" de 12 de Janeiro, que derrubou cerca de 50 casas do pequeno povoado. A maioria dos pais aceitou entregar um dos seus filhos para "partir com os estrangeiros para outro país".
"Os americanos levaram as crianças com o nosso consentimento", afirmou Fritzian Valmont, pai de três meninas de 11, 8 e dois anos. Ele e a sua mulher decidiram entregar "a do meio" aos missionários, admitiu.
Era a pequena Alentina, entregue juntamente "com dois filhos da minha irmã: Carl Ramirez e Dawin Stanley, todos com oito anos de idade", contou Valmont.
"Se (os americanos) tivessem trazido um grande autocarro que pudesse levar mais crianças, muitas mais teriam partido", garantiu o homem, falando com o orgulho de qualquer pai que acredita ter feito o melhor que podia por uma filha.
A poucos metros de Cantave e Valmont está sentada Jean Ricia Geffrand, uma viúva de 47 anos, mãe de cinco filhos, já avó. O ar de anciã e as cataratas nos dois olhos são testemunhas de uma vida inteira passada na miséria.
"Eu dei a minha filha porque não tinha nada para dar a ela", indicou, referindo-se a Beline Chewi, de dois anos, a sua filha mais nova.
Num bloco de cimento ao lado de Geffrand está sentada Saurentha Muran, de 25 anos, com a pequena Magdalenne adormecida nos seus braços. Interrogada se concorda com a atitude dos pais que entregaram os seus filhos, responde: "Eu também dei um". É Ansitho, o menino de cinco anos que ela teve com Cantave.
E por que escolheram Ansitho para ir embora? "Conversamos com eles e perguntamos aos três qual queria ir para essa escola na República Dominicana, e ele disse que queria ir", contou a mãe, reconhecendo que sente a sua falta, mas afirmando - como os outros pais afirmam - que não recebeu nada em troca pela criança.
"A única razão pela qual agora os queremos de volta é por causa dos problemas com a imprensa", explicou Valmont, apoiado por Josette Massillon, tia de Alentina, Carl Ramirez e Dawin Stanley.
"Se depois do julgamento os americanos puderem partir de novo com as crianças, eu vou estar de acordo", afirmou Cantave. Ele está a pensar visitar o filho esta semana nas SOS Villages (Aldeias Infantis), organização beneficente que se ofereceu para cuidar dos 33 menores, que têm entre dois meses e 12 anos, até que o caso seja esclarecido.
"Se Ansitho quiser voltar eu o receberei, mas talvez não seja o melhor para ele", pondera Muran, sua mãe, que está grávida e daqui a um mês dará à luz outra criança.




