T. Ernest Wilson - Testemunho de um Missionário em Angola

ernest_wilson.jpg  O que a seguir se segue é a transcrição literal a partir duma fita gravada, do testemunho dado pelo irmão Ernest Wilson num culto na igreja em Santa Catarina - Lisboa, em meados da década de sessenta, quarenta anos após ter partido dali para Angola, como missionário.
 T. Ernest Wilson   

Entre outros, estava ali presente o irmão Viriato Dias Sobral. Grande amigo do irmão Sobral, tendo-o defendido em momentos particularmente difíceis no seu ministério, este missionário irlandês veio para Portugal em 1924, com 21 anos de idade, deixando o seu emprego no maior estaleiro do mundo, a fim de aprender a língua portuguesa em Portugal.

Seguiu de imediato para Angola, onde serviu ali o Senhor durante 40 anos num trabalho missionário pioneiro. Até há pouco tempo, vivia em New Jersey, nos Estados Unidos da América, onde tem sido muito considerado e querido entre as assembleias.

«Primeiramente quero dizer que é um grande prazer estar aqui, hoje. Faz 40 anos desde que estive cá. Muitas coisas já passaram desde aquele tempo até agora. Não posso contar.

Eu tinha 21 anos de idade quando cheguei aqui pela primeira vez, em Lisboa. E mesmo neste quarto em Santa Catarina, passei um ano com os crentes a aprender a vossa língua e também tendo comunhão com os santos, com os crentes aqui em Santa Catarina.

Estava a pensar, hoje, em algumas pessoas que estavam cá naquele tempo, mas agora não estão.  E não sei explicar os sentimentos no meu coração, hoje, a pensar nestas pessoas. O senhor ________ estava cá naquele tempo, e o senhor Freire, e também o senhor Antunes, e o meu bom amigo, o senhor Albuquerque. Eu gostava muito de vê-lo outra vez, e também o nosso amigo aqui, o senhor Guido, o senhor Almeida, o senhor Vieira e muitos outros. Não posso contar os nomes, mas ... pensar nestas pessoas que tínhamos comunhão com eles naquele tempo! Não posso explicar os sentimentos no meu coração, hoje. Mas que grande dia será, quando nós todos devemos chegar à presença de nosso Senhor Jesus Cristo, e ver os nossos amigos outra vez.

A nossa vida aqui é muito curta. Quarenta anos, hoje, parece somente um dia, ... e para ficar aqui, hoje, a pensar naqueles dias ...

Estive a pensar, a nossa vida aqui é muito, muitíssimo curta. Mas que dia, depois de pouco tempo!... Nós todos estaremos na presença do Senhor, e naquele tempo não haverá «despedir um ao outro» - na presença do nosso Senhor.

Primeiramente quero contar qualquer coisa sobre os anos que já passaram, desde que estivemos aqui, até hoje.

Como o meu irmão já explicou, em 1924, fomos a África. E temos trabalhado em 3 pontos, em Angola. Primeiramente ficámos uns anos entre os quimbundos, no Bié. Aprendemos a língua umbundu. E depois fomos entre os quiocos, e passei 2 anos entre esta gente na área do Moxico - agora se chama Vila Luso, com uma senhora que encontrei pela primeira vez aqui, em Lisboa. Ela era americana e eu sou irlandês. Mas a primeira vez que encontrei a minha mulher foi aqui, em Santa Catarina. Nós casámo-nos em Vila Luso, em 1927, e no dia do casamento, despedimos os missionários naquela área, e fizemos uma viagem de 13 dias, a pé. Foi talvez 400 km que andámos a pé, e fomos ao norte, em Angola, e começámos um trabalho novo, entre o tribo dos songos, no Alto Songo, e ali ficámos 16 anos a iniciar o trabalho naquela área. Por isso temos trabalhado entre 3 tribos, três línguas diferentes, e passámos 40 anos neste trabalho.

Somente uma palavra sobre a bênção que Deus nos ministrou neste anos.

Entre os quimbundos, hoje, tem talvez 250 congregações de crentes. É uma coisa muito vulgar, nesta gente - os quimbundos - ver uma conferência com 2.000 pessoas. E para falar em tudo, do trabalho entre esta gente, temos 250 congregações de crentes. Todos não têm a Ceia do Senhor. Alguns destas congregações são pequenas - talvez 30-40 pessoas. Mas temos outros com 300-400 pessoas na congregação. Mas para falar em tudo, há 250 congregações desta gente e Deus tem abençoado o Seu trabalho maravilhosamente entre os quimbundos, no Bié.

Há outros grupos que também têm trabalho ali, como já sabem. A missão americana tem trabalho ali. Também os Metodistas - eles têm trabalho ali, em Angola. Mas estou a falar sobre as assembleias que fazem o mesmo culto como nós fazemos aqui em Santa Catarina e nas Amoreiras.

Mas aqui em Angola, hoje, temos este trabalho entre a gente que falam a língua umbundu - se chamam a tribo os quimbundo e a língua umbundu. Entre os quiocos também temos um bom trabalho. Fui ali pela primeira vez em 1925, e para chegar ali também andei a pé - talvez 450 km, para chegar aquele área. Levei 16 dias a andar a pé para chegar a Luma-Cassai, no distrito de Lunda, e ali fiquei 2 anos a aprender a língua da gente ali, e também a fazer algum trabalho.

Tenho 4 pontos entre os quiocos, onde fazem o trabalho do Senhor, e em ligação com estes 4 pontos têm talvez 200 congregações de crentes que falam a língua quioco. O centro de Killo é a missão de Boma, na área do Moxico.

Talvez alguns aqui conhecem o senhor Victor Beer. Ele tem um hospital em Boma, e também outros missionários. O senhor Beer, por exemplo, passou 46 anos - já 46 anos - na missão de Boma, a trabalhar. E outras senhoras também, enfermeiras e outras que ensinam na escola, trabalham ali na Boma. E a mesma coisa, naquela área, como no Bié, Deus tem abençoado muito o seu trabalho entre esta gente. Na área do Songo, onde passámos 16 anos a trabalhar, tem somente 22 pontos onde tem uma congregação a falar a língua Songo - e ali também Deus tem abençoado o seu trabalho.

Mas o Songo, ali no norte, é na região onde tem "estas dificuldades", como já sabem aqui em Lisboa. Um grande tristeza é falar sobre isso, não quero falar absolutamente nada sobre isso. Não somos políticos; e estávamos a falar hoje sobre estes assuntos!... E para nós, que somos servos de Deus, nunca, nunca, nunca metemo-nos na política, ou qualquer coisa sobre estas coisas. Mas, no norte, no Songo, na região do Alto Songo, é aquela região onde tem estas dificuldades hoje. Mas eu posso dizer francamente que os crentes ali não têm absolutamente nada a fazer com estas dificuldades que estão ali.

O trabalho, o nosso trabalho é pregar o evangelho, e fazer o trabalho de Deus. E para intrometer nestas coisas, nunca, nunca, nunca. E posso dizer também que tudo neste tempo estávamos a ensinar às crentes as leis portuguesas, e também a lealdade ao governo português ali naquela área. Mas é tristeza ver o que está a passar ali, hoje, naquela área. Mas ali também Deus tem abençoado o Seu trabalho e tem centenas de pessoas que antigamente não sabia absolutamente nada do evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Agora têm o paz e alegria nos seus corações do evangelho de nosso Senhor. Não quero falar mais sobre isso, mas estes 40 anos estávamos a trabalhar nestes três pontos, e Deus tem abençoado o Seu trabalho.

Há três anos a minha esposa ficou doente. Primeiramente tinha uma bilharzíase, e, como já sabem, isso é uma doença bastante grave, e aquilo deixou restos no corpo. Tínhamos de retornar por causa desta fraqueza que ela tinha, e fomos à sua terra natal, nos Estados Unidos, e quando esteve ali sofreu 4 operações maiores. Estava na sala de operações 34 vezes em 3 anos. E depois disto os médicos ali, dizem que não pode voltar ao nosso trabalho querido, ali em Angola.

Mas nos últimos 3 anos estava a passear não somente na América do Norte, mas também em outros pontos do mundo, a fazer o mesmo trabalho. Não podemos voltar a África. Por causa da doença de minha mulher, ela fica em casa, na América. Mas ainda tenho saúde - Deus tem-me abençoado nisso. Tenho um corpo robusto, e enquanto tenho a minha saúde, quero dedicar-me a este trabalho - a ajudar os crentes com a Palavra de Deus.

Primeiramente fui à América do Sul. Os irmãos e os anciãos da igreja ali na América, dizem que era bom ir ali para ver o trabalho que se faz na América do Sul. E no ano passado fui a 8 dos 10 repúblicas na América do Sul.

Primeiramente Brasil. Eu gostava muito de falar qualquer coisa sobre o trabalho de Deus ali naquela grande terra, mas não há tempo. Teremos passar todo o tempo a falar sobre esta coisa. Mas passado algum tempo em Rio de Janeiro e São Paulo, no Brasil, nas cidades. Fiquei muito admirado em São Paulo - uma cidade de 6 milhões de gente, muito moderno. E fiquei muito admirado. Eu não sabia nada destes cidades grandes naquele território. Mas tem ali também crentes no nosso Senhor Jesus Cristo, em São Paulo, e também em Rio de Janeiro. No norte-oeste de Rio de Janeiro, tem um território que se chama Rio Doce. E naquela área tem 200 congregações de crentes no nosso Senhor Jesus Cristo. O senhor Mc Nair, Stuart Mc Nair, passou aqui no Brasil. Colaborou com o senhor George Howes. O senhor George Howes ficou aqui em Lisboa, e o senhor Mc Nair foi ao Brasil. E em 50 anos de trabalho aquele bom homem trabalhava e deixou 200 congregações de crentes naquela área de Rio Doce, no Brasil.

Depois de ficar algum tempo em Rio de Janeiro, no Brasil, fui o São Paulo e depois disso fui no interior, às Minas Gerais, e encontrei também um bom trabalho a fazer-se no interior do Brasil. Não posso explicar tudo, nem os detalhes, mas fiquei muito admirado para ver o trabalho de Deus que se faz naquele grande, grande país. Tem ali 63 milhões de gente, no Brasil. Há muitas necessidades ali, de trabalho dos obreiros, para fazer a obra de Deus.

Depois fui a Uruguai, e na cidade de Montevideu e também no interior, fomos ali ver o trabalho de Deus e também pregar o evangelho, e ajudar os crentes ali, com o ministério da Palavra.

Depois fui a Buenos Aires, e na grande República da Argentina a mesma coisa. Na cidade de Buenos Aires tem 63 congregações de crentes, e todos têm a Ceia do Senhor - todos em comunhão uns com os outros. E tem ali 38 casais nacionais, em Argentina, que foram comandados para fazer o trabalho do Senhor na Argentina. Depois de Buenos Aires fui também no interior - Tucuman, a cidade de Frias, depois Córdoba e outras cidades ali na Argentina. Fui ali ver o trabalho de Deus.

Depois fui a Chile - mesma coisa.  É um país muito grande - muito large, do Norte para o Sul. É um país muito estreito.  Mas do norte para o sul, talvez 4.000 Km, e passei tudo aquilo a ver, a reparar, o trabalho de Deus naquele país.

Depois fui a Peru - a mesma coisa ali.

E o último país que visitei na América do Sul, foi Equador. E na cidade de Quito, encontrei 3 das viúvas daqueles rapazes que foram "mortilhos", que morreram ali entre os Aucas, no Equador. Foi uma coisa muito emocionante ficar uma semana ali, pregar a Palavra de Deus com aquelas pessoas, a ver aquelas raparigas viúvas - foram 5 dos rapazes que morreram no mato, entre os Aucas, naquele território. E para mim, para vê-los face a face, e falar a Palavra de Deus, e confortar os seus corações, foi uma coisa muito emocionante.  Mas foi o último país que visitei na América do Sul.

Então voltei outra vez à nossa casita ali na América do Norte, em Nova Jersey.

Depois disso, no ano passado, fiz outra viagem - desta vez ao Pacífico.  E fui primeiro à ilha de Hawaii.

Depois disso fui a Fiji. De Fiji fui à Nova Zelândia. E foram ... Não posso explicar o regozijo, o gozo no coração, para ver o trabalho de Deus naquele país. Tem milhares de crentes, ali, todos com a mesma fé e também com a mesma paz no coração - o mesmo crer no nosso Senhor Jesus Cristo.

E depois disto fui à Austrália. Somente tenho um irmão. Ele está na cidade de Sidney, em Austrália. E já há muitos anos me convidou para ir lá visitá-lo, mas nunca havia oportunidade, nem o dinheiro para ir ali.  Mas ele pôs o dinheiro - depositou o dinheiro no banco e disse: "Então, não tem mais desculpa". Por isso fui a visitá-lo em Austrália. Enquanto estava ali, fiz a cidade de Sidney, no centro, para ir visitar todas as congregações e os assembleias naquele grande território também.

Então na volta fui à Samoa. É uma ilha no meio, dentro do Pacífico.  E ali fiquei uma semana a ministrar a Palavra, entre a gente naquela ilha. Todos estes lugares, todos os pontos do mundo, temos crentes no nosso Senhor Jesus Cristo. Eles gostam muito da Palavra de Deus - a coisa mais importante aqui no mundo; e todos nós temos a mesma esperança, a ver o nosso Senhor Jesus Cristo um dia, quando a vida já passou.»

Nota: 
T. Ernest Wilson, entre outros livros, escreveu a história de jornadas incríveis  a pé, dificuldades e alegrias, frustrações e vitórias, num livro intitulado Angola Beloved (Querida Angola).

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