Ilustrações da Verdade Bíblica (LXV)

H. A. Ironside

Por H. A. Ironside
 
Inspiração verbal 
 
     “Mas nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus. As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais” (I Cor. 2:12, 13).
 
 
 
     Aqueles que se opõem ao uso da expressão "inspiração verbal" quando é aplicada às Sagradas Escrituras, muitas vezes falam dela desdenhosamente chamando-a de teoria estenográfica da inspiração, implicando com isso que Deus Se coloca na posição de homem de negócios ou de literata que dita a um secretário, que por sua vez transcreve as palavras exatas que o empregador pronuncia. Em oposição a isso, eles apontam as diversidades de estilo entre os escritores do Antigo e Novo Testamento e deduzem disso que tal teoria de inspiração verbal é completamente absurda. Eles acreditam antes, aceitando de algum modo a inspiração, que Deus revelou a verdade a diferentes indivíduos e estes apresentaram-na na sua própria linguagem de acordo com a medida da compreensão que tinham.
 
     Desnecessário será dizer que esta opinião visa eliminar completamente a exatidão da revelação divina, mas qualquer pessoa pensante que tenha tido a experiência de ditar a estenógrafos perceberá o quão facilmente capacidades individuais de cultura e compreensão podem ser tomadas em conta ao usar-se a ajuda de secretariado.
 
     Foi parte de minha responsabilidade durante muitos anos ditar literalmente centenas e milhares de cartas manuscritas, e também muitos livros, folhetos e periódicos, e eu sempre achei que era importante manter em mente a mentalidade e instrução dos meus secretários.
 
     Lembro-me de como, há alguns anos atrás, eu estava a preparar um livro sobre a epístola aos Filipenses. Estava a sair em série numa revista mensal. Os meus editores comunicaram-me que estavam sem material e gostariam de ter mais dentro de poucos dias. Eu estava a realizar reuniões especiais numa cidade ocidental na altura, ficando num hotel. Não tendo ali nenhum tipo de ajuda estenográfica, procurei uma estenógrafa pública no hotel e ela concordou em que lhe ditasse um ou dois capítulos do meu livro. Eu ditei-lhe como teria ditado à minha bem preparada secretária. Foi a primeira vez que eu tive de usar alguém nesta capacidade, não conhecendo absolutamente nada da Bíblia, e eu não percebi quão estranhos muitos termos bíblicos lhe devem ter parecido.
 
     Quando ela me entregou o manuscrito foi com dificuldade que eu pude esconder quer a minha hilaridade quer a minha indignação. Eu pagava-lhe à hora e o manuscrito era quase inútil. Eu tive que examiná-lo todo, fazendo dezenas de correções em cada página, e depois ela teve que fazer tudo de novo e, claro, eu paguei-lhe o dobro. No início notei que ela tinha intitulado o manuscrito, "Epístola de Paulo às Ilhas Filipinas." Cada termo teológico foi interpretado erroneamente. "Propiciação" foi alterado por "prostração" e outros termos foram representados por palavras que não poderiam ter qualquer possibilidade de referência ao assunto em questão. Isso ensinou-me uma grande lição. Daquele momento em diante, quando ditava, eu tomava sempre em conta as capacidades e os conhecimentos das Escrituras dos meus secretários.
 
     É impossível ser demasiado grato a uma secretária que conhece a Palavra de Deus e prontamente valoriza a terminologia espiritual. Por outro lado, é muitas vezes exasperante quando as circunstâncias são diferentes; e ainda assim tenho descoberto que com um pouco de cuidado posso geralmente adaptar-me à compreensão dos amanuenses. Por exemplo, não é necessário dizer "propiciação" se a palavra "expiação" for usada em seu lugar. Eu não tenho de falar de "santificação" se puder expressar o mesmo pensamento com a palavras "separação". E assim foi possível às minhas várias secretárias apresentar um estilo seu próprio na matéria que preparavam a meu ditado!
 
     Num sentido muito mais elevado do que este, não podemos pensar em Deus acomodar-se à inteligência e cultura dos escritores das Sagradas Escrituras, de modo a Ele expressar-Se de uma forma através de um poeta como David ou Isaías, e de uma forma completamente diferente através de um agricultor como Amós ou de um pescador como Simão Pedro. Assim temos notável diversidade nas Escrituras, unida com maravilhosa unidade de pensamento, porque "os homens santos de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo".
 
- Continua
 

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