Ilustrações da Verdade Bíblica (LXIV)

H. A. Ironside

Por H. A. Ironside
 
Simplicidade na oração
 
     “Não estejais inquietos por coisa alguma: antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplicas, com ação de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus” (Fil. 4:6, 7).
 
 
 
     Precisamos entender que Deus assume um interesse paternal por cada detalhe das nossas vidas e manda-nos levar tudo a Ele em oração. Nada é pequeno demais para o Seu cuidado e nada é grande demais para o Seu poder.
 
     Há anos atrás, a Igreja Livre da Escócia estava a realizar uma reunião Sinodal, na cidade de Aberdeen onde reuniram-se adoradores oriundos das cidades vizinhas para participar nos cultos. Um homem de idade estava a calcorrear a pé o seu caminho para a cidade, quando foi alcançado por um jovem estudante de teologia; os dois caminharam na companhia um do outro. Apesar da diferença de idade, tinham muito em comum, e por isso desfrutaram da conversa enquanto se apressavam para o seu objetivo.
 
     Cerca do meio dia desviaram-se para um bosque relvado e sentaram-se para comer o almoço que cada um trouxera consigo, dando primeiro graças a Deus pela Sua graciosa provisão. Depois, o peregrino idoso sugeriu que ambos orassem antes de prosseguirem viagem. O jovem teólogo ficou um pouco embaraçado, mas concordou, dizendo ao homem mais velho que orasse primeiro, o que ele fez. Dirigindo-se a Deus como Pai, com toda a simplicidade, ele derramou o seu coração em ação de graças, proferindo depois três pedidos específicos: ele lembrou ao Senhor lhe era muito difícil ouvir e que se não conseguisse um lugar bem à frente na igreja captaria pouco do sermão naquela noite, por isso pediu que lhe guardasse um assento para ele, suficientemente perto do púlpito, para que ele pudesse ter benefício da mensagem; em segundo lugar, ele disse ao Senhor que os seus sapatos estavam em mau estado, gastos e inaptos para as ruas da cidade; ele pediu-lhe um novo par de sapatos ainda que não tivesse dinheiro para os comprar; em último lugar, pediu um lugar para ficar durante a noite, pois ele não conhecia ninguém em Aberdeen e não sabia onde procurar acomodações.
 
     Nesta altura os olhos do aluno abriram-se bem olhando para o idoso num misto de repulsa e espanto, pensando na enorme impertinência de trivialidades com que sobrecarregava a Deidade. Quando a sua vez de orar chegou, ele fez um discurso eloquente, cuidadosamente composto, que surpreendeu o seu companheiro mais velho, que nada viu nele que indicasse tornar conhecidas as suas necessidades a Deus Pai.
 
     Prosseguindo o seu caminho, eles chegaram à igreja exatamente quando as pessoas a enchiam, tornando-se logo evidente que não havia mais lugares sequer em pé. O estudante pensou: "Vamos ver agora o que acontece às suas orações presunçosas. Ele vai ver que Deus tem mais para fazer do que usar o Seu tempo para arranjar um lugar a um pobre velho homem do campo." No entanto, alguém saiu para fora daquele lugar apinhado de gente e o idoso conseguiu passar para o lado de dentro da porta, erguendo a sua mão junto ao ouvido para tentar ouvir o que era dito.
 
     Naquele preciso momento, aconteceu que uma jovem senhora sentada num banco da frente voltou-se e viu-o. Ela chamou um assistente, e disse-lhe: "O meu pai disse-me para lhe guardar um lugar até ao momento do sermão, dizendo-me que senão chegasse, o desse a outra pessoa. Evidentemente, ele ficou impossibilitado de vir. Importa-se de ir lá atrás e trazer aquele idoso que está de pé, perto da porta, e tem a mão no ouvido?" Em escassos momentos, a petição número um foi totalmente respondida.
 
     Ora, na Escócia, algumas pessoas ajoelham-se sempre para orar, quando o ministro conduz em oração; outros erguem-se reverentemente pondo-se de pé. O idoso era dos que se ajoelhavam e a jovem era das que ficavam de pé. Quando ela olhou para baixo, não pôde deixar de observar as solas gastas nos pés do adorador de joelhos. O seu pai era um comerciante de sapatos! No encerramento do serviço, ela abordou delicadamente o assunto da necessidade de um melhor par de sapatos, e perguntou se poderia levá-lo à sapataria do seu pai, apesar de estar fechada durante a noite, e oferecer-lhe um par de sapatos. Escusado será dizer, que a sua oferta foi tão graciosamente aceite como foi feita. Assim, a sua petição número dois foi atendida.
 
     Na sapataria a senhora perguntou-lhe onde é que ele iria ficar durante a noite. Em toda a simplicidade, respondeu: "Eu ainda não sei. O meu Pai tem um quarto para mim, mas ainda não me disse onde é." Intrigada por um momento, ela exclamou: "Oh, refere-se ao seu Pai-Deus! Bem, creio que temos quarto para si. Tínhamos reservado o nosso quarto de hóspedes para o Dr. Blank, mas chegou um telegrama esta manhã dizendo que ele não podia vir, por isso agora venha para casa comigo e seja nosso convidado." E assim foi concedida a terceira petição.
 
     No dia seguinte, o estudante perguntou qual fora o resultado da oração e ficou atónito ao descobrir que Deus tinha ouvido e respondido a cada particular pedido. Ele nunca está ocupado demais para atender aos clamores do Seu povo necessitado. O que todos nós precisamos é de mais confiança no Seu amor e muito mais fervor e objetividade na oração.
 
- Continua
 

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