Por H. A. Ironside
Há um número de anos atrás, eu estava a realizar reuniões especiais na Primeira Igreja Batista de Los Gatos, Califórnia. No meu primeiro domingo de manhã ali, o texto era: "Qualquer que beber desta água tornará a ter sede; mas aquele que beber da água que Eu lhe der nunca terá sede, porque a água que Eu lhe der se fará nele uma fonte d’água que salte para a vida eterna" (João 4:13,14). Sentado no banco da frente estava uma jovem cujo rosto pálido, macilento e grandes olhos escuros e famintos atraiu a minha atenção. Ela escutou com muita avidez.
Após a reunião, eu disse ao pastor: "Quem era a garota de aparência doentia, mas intensamente bonita que estava sentada no banco da frente?"
"Ela é uma menina muito bem educada", respondeu ele, "mas há alguns anos atrás, ela lançou o Cristianismo ao vento. Ela foi criada num lar Cristão. Ela entrou na senda do mundanismo, tentando encontrar satisfação e paz nas coisas do mundo, mas, nos últimos cinco meses, ela foi acometida da doença mortal da tuberculose, e ela tem o tipo a que chamamos de tuberculose galopante . Ela não tem muito tempo de vida; ela está a perder força cada dia que passa, e o médico diz que ela partirá em breve. E agora ela está triste e lastimosamente infeliz".
Eu orei por ela, e todas as noites eu olhava procurando encontrá-la na audiência, esperando que ela estivesse presente, escutando o Evangelho, mas nunca mais a vi noutra reunião.
Cerca de três semanas depois, uma senhora veio ter comigo e disse: "Lembra-se de conhecer a senhorita H…?" Lembrei-me de que era a tal rapariga, e ela acrescentou: "Ela está muito doente, a morrer de tuberculose. Ela ouviu-o na primeira vez que pregou, e esperava assistir a todas as reuniões, mas ela tem estado muito mal. Ela pediu-me que a fosse visitar."
"Terei todo o prazer em ir", foi a minha resposta. Assim, fomos ao quarto em que ela estava sentada. Ela desculpou-se por não se levantar para nos cumprimentar, pois ela estava muito fraca. Eu disse: "Eu estou contente por ter pedido que a fosse visitar."
Ela olhou para cima e disse: "Sr. Ironside, o médico disse-me ontem que tenho apenas três semanas de vida, e eu não estou salva. Gostaria de conhecer Cristo. Acha que Ele levará uma garota que O rejeitou, que Lhe voltou deliberadamente as costas quando tinha saúde, agora que estou desiludida, e que tudo o que eu valorizei foi borda fora? Acha que há alguma esperança para uma pecadora como eu?"
Sabes que as coisas parecem diferentes ao realizares que tens apenas três semanas de vida! Muitos, agora descuidados, ficariam terrificados se soubessem que dentro de três semanas, teriam que enfrentar a Deus e a eternidade.
"Bem", disse eu, "Eu entendo que tenhas tido uma vida muito feliz, em alguns aspetos; tu tens sido muito procurada e admirada pelo mundo."
"Oh, por favor, não fale disso agora", disse ela : "Receio que tenha estado a vender a minha alma à popularidade do mundo. Eu pensava que iria encontrar felicidade e prazer, mas agora não tenho paz, nem satisfação, ao olhar para trás, para aqueles anos de popularidade, aqueles anos de prazeres mundanos. Passar-se-ão somente três semanas e eu terei de dar contas a Deus, e não estou salva."
Foi uma verdadeira alegria para a minha própria alma abrir a Palavra de Deus e mostrar-lhe como o Bendito Senhor Jesus, para sua redenção, veio em infinita graça em todo o percurso desde a plena glória do céu até às profundezas de aflição do Calvário, e que se ela dispusesse o seu coração a confiar n’Ele e confessasse a sua culpa, teria todo o passado eliminado. Dirigindo-a para João 3:18, eu li, "Quem crê n’Ele não é condenado; mas quem não crê já está condenado; porquanto não crê no nome do Unigênito Filho de Deus." E então eu coloquei-lhe a pergunta, "Diz-me, achas que o Senhor Jesus Cristo é o Filho de Deus? "Acho".
Depois perguntei-lhe: "Acreditas que Deus o Pai O enviou ao mundo para morrer pelos pecadores?"
"Sim, está na Bíblia; eu creio", respondeu ela. "Crês que Ele te contemplava a ti quando disse, 'o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora?'", perguntei. "Contempla todos, não é?", disse ela. "Sim", respondi, "’Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigénito, para que todo aquele que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna’ (João 3:16). Tu estás incluída no ‘todo aquele’?" " Sim", disse ela, "Creio que estou."
"Então diz-me," disse eu, "o que diz o Senhor Jesus Cristo sobre ti? Olha para o versículo 18 novamente; nota que só há duas classes de pessoas ali – a primeira classe, "Quem crê nele", e a segunda classe, "quem não crê." Nota que há algo declarado sobre a primeira classe e algo sobre a segunda classe. Da primeira é dito, "Quem crê n’Ele não é condenado", e da segunda, "quem não crê já está condenado." Agora, antes de eu te pedir que me digas em que classe estás, vamo-nos curvar em oração."
Ela não podia ajoelhar-se, mas a amiga dela e eu ajoelhámo-nos em oração. Pedimos a Deus que pelo Espírito abrisse a Sua Palavra e esta encontrasse poderosa guarida na sua alma.
"Lê novamente," disse eu.
"Vês as duas classes? Em qual delas te situas?"
Ela ficou em silêncio por um longo tempo quando nos ajoelhámos ali diante de Deus , e depois ela olhou para cima, as lágrimas reluziram nos seus belos olhos, e ela disse: "Eu estou na primeira classe."
"Como sabes?"
"Porque eu creio n’Ele. O texto não diz que Ele não vai me levar, porque cheguei demasiado tarde. Eu vim, e creio n’Ele."
"E o que é verdade a teu respeito?", perguntei.
Ela olhou para ele novamente e sussurrou: "Não condenada!"
Eu disse, "Isso é suficiente para te encontrares com Deus?"
Ela respondeu: "Será; não condenada!"
A três semanas da eternidade, mas descansando na Palavra de Deus! Eu apenas a vi duas vezes de novo, e depois as minhas reuniões chegaram ao fim. Cerca de cinco semanas depois eu encontrei o pastor batista na rua, e ele disse: "Lembra-se da senhorita H…? Sabe que exatamente vinte e um dias depois do dia que a levou a Cristo, fui chamado ao seu leito, e dei com ela a partir?" ‘Consegues ouvir-me?’, perguntei. ‘Sim’, disse ela. ‘Crês no Senhor Jesus Cristo?’ 'Sim', respondeu ela. ‘E o que é que Ele diz de ti?’ perguntei. ‘Não condenada!’ E, em seguida, ela sussurrou, ‘Se vir o sr. Ironside, diga-lhe que está tudo bem.’"
Oh, eu digo-lhe, caro amigo, que foi algo real, porque aquela jovem descansou na Palavra do Deus vivo; porém há outros que descansam na sua própria imaginação em vez de descansarem na imutável Palavra de Deus.