Cartas do Inferno
Alguns excertos do livro "As Cartas do Inferno", de C.S. Lewis:
Não pretendo explicar como a correspondência que agora exponho chegou às minhas mãos. Há dois erros iguais e opostos no que diz respeito à matéria Demónios: Uma é desacreditar em sua existência. A outra é acreditar e sentir um excessivo e doentio interesse neles. Os mesmos demónios ficam igualmente satisfeitos pelos dois erros e portanto, contemplam um materialista e um mágico com o mesmo prazer.
... Foi durante a Segunda Guerra Mundial que as Cartas do Inferno apareceram em colunas do Guardian (agora extinto)...
A pergunta mais cabível é: Se eu admito a existência de diabos. Admito-a, sim. Isto quer dizer o seguinte: Creio na existência de anjos e admito que alguns destes, pelo abuso do livre arbítrio, tornaram-se inimigos de Deus e, por decorrência desse facto, também são nossos inimigos. A tais anjos podemos chamar diabos. Não diferem, quanto à essência, dos bons anjos, mas a natureza deles é depravada. Diabo opõe-se a anjo no sentido em que dizemos que homem mau é o oposto a homem bom.
CARTA Número I
Prestei bastante atenção no que tu disseste acerca de conduzir as leituras do teu paciente, tomando cuidado para que ele assimile bastante daquele amigo materialista. Mas não estás a ser um pouquinho ingénuo nesta tarefa? Parece-me que te estás a convencer (não sei baseado em quê) que através da argumentação podes afastá-lo da influência do Inimigo. Isso até seria aceitável, se o teu paciente tivesse vivido alguns séculos atrás, pois naquele tempo os humanos ainda sabiam distinguir quando uma coisa havia sido provada ou não. E se tivesse sido, os homens a aceitavam e mudavam a sua maneira de agir e de pensar, somente seguindo uma corrente de raciocínio. No entanto, devido à imprensa semanal e a armas semelhantes, alteramos bastante este contexto. Parte do princípio que a tua vítima já se acostumou desde criança a ter uma dúzia de filosofias diferentes a dançar na sua cabeça. Ele não usa o critério de "VERDADEIRO" ou "FALSO" para conferir cada doutrina que lhe apareça (seja do Inimigo ou nossa). Ao invés disso, ele verifica se a doutrina é "A cadémica" ou "Prática", "Antiquada" ou "Actual", " Aceitável" ou "Cruel".
A gíria e a expressão feita (e não o argumento lógico) são os teus melhores aliados para mantê-lo longe da Igreja. Não percas tempo tentando levá-lo a concluir que o Materialismo é verdadeiro (sabemos que não é). Fá-lo pensar que ele é Forte, Violento ou Corajoso - ou ainda, que é a Filosofia do Futuro! Este é o tipo de coisas que lhe despertarão a atenção. Percebo que tenhas intenções produtivas, mas há um problema muito grande quando tentamos persuadir o paciente a passar para o nosso lado pelo emprego de argumentos e lógica: isto conduz toda a luta para o campo do Inimigo, que para azar nosso também sabe argumentar (e melhor do que nós). Por outro lado, no que diz respeito à propaganda prática (ainda que falsa) que te sugeri, Ele tem-se mostrado por séculos bem inferior ao Nosso Pai lá de Baixo. Pela pura argumentação, tu despertarás o raciocínio do paciente; uma vez que a razão dele desperte, quem poderia prever o resultado? Vê que perigo! Mesmo que uma cadeia de raciocínio lógico possa ser torcida de modo a favorecer-nos, isso tende a acostumar o paciente ao hábito fatal de questionar as coisas, analisando as mesmas com visão geral, e desviando-se das experiências ditas "concretas",que na verdade são apenas experiências sensíveis e imediatas. A tua maior ocupação deve ser portanto a de prender a atenção da vítima de modo a jamais se libertar da corrente do "Se eu vejo, creio!". Ensina-o a chamar esta corrente "Vida Real", e jamais lhe deixes perguntar a si próprio o que significa "Real".
Lembra-te que ele não é puramente espírito como tu. Nunca tendo sido humano (É abominável a vantagem do Inimigo neste ponto) tu não percebes o quanto os humanos estão escravizados à rotina. Uma vez, tive um paciente, ateu convicto, que costumava fazer pesquisas no Museu Britânico. Um dia, estando ele a ler, notei que o seu pensamento esvoaçava com tendência a um caminho errado. Com efeito, o Inimigo ali estava ao seu lado, naquele momento. Antes que desse por mim, vi o meu trabalho de vinte anos a começar a desmoronar-se. Se tivesse entrado em pânico e tentado argumentar, eu estaria irremediavelmente perdido. Mas não fui tolo a esse ponto! Recordei da parte da vítima o que mais estava sob o meu controle e lembrei-lhe que estava na hora de almoçar. O Inimigo acho que lhe fez uma contra-sugestão (você bem sabe como é difícil acompanhar aquilo que Ele lhes diz) de que a questão que lhe surgira na mente era mais importante do que o alimento. Penso ter sido essa a técnica do Inimigo porque quando lhe disse "Basta! Isto é algo muito importante para se meditar num final de manhã...", vi que o paciente ficou satisfeito. Assim, arrisquei dizer: "É muito melhor se você voltar ao assunto depois do almoço e estudar o problema com cabeça mais fresca. Não havia acabado a frase e ele já estava no meio do caminho para a rua. Na rua, a batalha estava ganha. Mostrei-lhe um ardinas que gritava "Olha o Jornal da Tarde", e o Autocarro Nº 73 que ia a passar, e antes que ele tivesse dado muitos passos, eu tinha-o convencido de que sejam lá quais forem as ideias extraordinárias que possam vir à mente de alguém trancado com seus livros, basta uma dose de "Vida Real" (que ele entendia como o autocarro e o ardinas a gritar) para persuadi-lo que "Aquilo Tudo" não podia ser verdade de jeito nenhum. A vítima escapara por um fio, e anos mais tarde, gostava de se referir àquela ocasião como "senso inarticulado de realidade, que é o último salva-vidas contra as aberrações da simples lógica". Hoje, ele está seguro, na Casa do Nosso Pai.
Começas a perceber? Graças a processos que ensinamos em séculos passados, os homens acham quase impossível crer em realidades que não lhes sejam familiares, se estão diante de seus olhos factos mais ordinários. Insiste pois em lhe mostrar o lado comum das coisas. Acima de tudo, não faças qualquer tentativa de usar a Ciência (digo, a verdadeira) como defesa contra o Cristianismo. Certamente, as Ciências encorajá-lo-iam a pensar em realidades que a visão e o tacto não percebem. Tem havido tristes perdas para nós entre os cientistas da Física. Se a vítima teimar em mergulhar na Ciência, faz tudo o que puderes para dirigi-la para estudos económicos e sociais, acima de tudo, não deixes que ela abandone a indispensável "Vida Real". Mas o ideal é não deixar que leia coisa alguma de Ciência alguma, e sim dar-lhe a ideia de que já sabe de tudo e que tudo o que ele assimila das conversas nas "rodinhas" são resultados das "descobertas mais recentes". Não te esqueças que a tua função é confundir a vítima. Pela maneira como alguns de vocês, diabos inexperientes falam, poderiam até pensar (que absurdo!) que a nossa função fosse ensinar!
Teu afectuoso tio,
Morcegão
CARTA Número II
Vejo, com muito desgosto que a tua vítima tornou-se um cristão. Nem por sonho alimentes a esperança de que poderás escapar aos castigos normais; com efeito, em teus melhores momentos, espero que nem mesmo penses em tal coisa. Enquanto isso, é preciso que façamos o possível para remediar essa situação tão indesejável. Não é necessário cairmos no desespero, conta-se por centenas esses convertidos em idade adulta que foram reconquistados, depois de uma breve estada nos arraiais do Inimigo e agora se encontram connosco. Todos os hábitos do paciente, tanto intelectuais quanto físicos, estão ainda a nosso favor.
Aliás, um dos maiores aliados que temos hoje é a própria Igreja. Não me interpretes mal. Não me refiro à pestilenta Igreja que vemos difundida através dos séculos por toda a parte com as suas raízes na Eternidade, terrível como um invencível exército com suas bandeiras. ESSE espectáculo confesso que traz insegurança e inquietação aos mais corajosos entre nós. Para nossa sorte, ESTA Igreja é inteiramente invisível aos olhos humanos. Tudo o que o teu paciente pode contemplar é o prédio inacabado, (pretendendo um estilo gótico) no seu bairro novo. Entrando ali, o paciente vê o dono da tabanca local, com uma expressão de bem-aventurança no rosto, e que se apressa em lhe oferecer um livrinho já bem gasto contendo uma liturgia que ninguém consegue entender mais, e mais um outro livrinho caindo aos pedaços que contém vários textos (corrompidos, por sinal) de poemas religiosos (a maioria, péssimos) e ainda por cima, impressos em letra miúda (chego a pensar que nós é que os escrevemos) de forma a dificultar ao máximo a leitura.
O Inimigo expõe-se a esse risco porque acalenta a curiosa fantasia de tornar esse nojento vermezinho humano a que Ele chama de seus livres amigos e servos - filhos é a palavra que Ele emprega na sua preferência costumeira por degradar todo o mundo espiritual mediante relações não naturais que estabelece com os animais bípedes humanos. Sabe que é, sim, Cupim, podes acreditar! Manipula-o correctamente e verás que isto jamais lhe passará pela cabeça. O teu paciente não terá ainda tempo suficiente de convivência com o Inimigo para aprender acerca da humildade real. O que diz, mesmo quando de joelhos, sobre a sua vida pecaminosa, é mera conversa de papagaio. No fundo, ele ainda acha que no balanço da conta-corrente do Inimigo a sua situação é mais favorável, pois ele consentiu em se deixar converter, e acha uma extrema prova de humildade e desprendimento o facto de frequentar a igreja com essa "corja" de semelhantes medíocres. Faz tudo para mantê-lo o maior tempo possível neste estado de pensamento.
Afectuosamente, teu tio.
Morcegão
CARTA Número IV
As sugestões extremamente amadoras na tua última carta advertem-me que é chegada a hora de te escrever sobre o doloroso assunto da oração. Bem poderias ter poupado o comentário tipo "mostraram-se singularmente infelizes" sobre as minhas advertências acerca das orações dele pela sua mãe. Isto não é o tipo de coisa que um sobrinho devesse escrever ao seu tio - nem um tentador aprendiz ao sub-secretário de um departamento.
A tua postura revela também um pouco recomendável desejo de fugir à responsabilidade; precisas de aprender a pagar pelos teus próprios desacertos. A melhor coisa, quando possível, é manter o paciente totalmente fora da intenção séria de orar. Quando o paciente é um adulto recentemente reconciliado ao partido do Inimigo, como é o caso do teu homem, o melhor é encorajá-lo a lembrar-se (ou a pensar que se lembra) da natureza de conversa de papagaio nas suas orações de infância. Em contraposição a isso, ele deve ser persuadido a aspirar algo inteiramente espontâneo, mais íntimo ,informal e sem sistematização; e o que isso irá realmente significar para o principiante consistirá num esforço para produzir em si mesmo um estado vagamente devocional, no qual a real concentração de vontade e inteligência simplesmente não existem. Um de seus poetas, Coleridge, deixou registado que não orava "com movimentos dos lábios e joelhos dobrados", mas simplesmente "dispunha o seu espírito a amar" e entregava-se a um "sentimento de súplica".
Este é exactamente o tipo de oração que queremos; e desde que o referido tipo sustenta uma certa semelhança com a oração silenciosa que é praticada por aqueles que já estão bem adiantados no serviço do Inimigo, pacientes "amadurecidos" ou preguiçosos podem ser conduzidos completamente nesta sistemática por longo tempo. No mínimo, podemos persuadí-lo de que a posição corporal não faz diferença nas suas orações; pois eles constantemente se esquecem de que são animais, e por isso tudo que os seus corpos fazem afecta suas almas e espíritos.
É divertido como os mortais sempre nos pintam como "colocando coisas nas suas mentes": na realidade, o nosso melhor trabalho consiste justamente em evitar que certas coisas cheguem às suas mentes. Se isto tudo falhar, deverás retroceder em um subtil mau encaminhamento da tua intenção. Sempre que os homens estão a procurar fazer a vontade do Inimigo nós estamos derrotados, mas há formas de evitar que eles façam assim. A mais simples destas formas é desviar a contemplação deles do Inimigo para eles próprios. Mantém-nos na introspecção das suas próprias mentes e na tentativa de produzir sentimentos "nobres" interiores por sua própria vontade pessoal.
Quando, por exemplo, eles forem pedir ao Inimigo o dom da compaixão, deixa-os, ao invés disso, iniciar uma tentativa de produzir sentimentos de compaixão pelas suas próprias energias e não se aperceberem que é isso que estão a fazer. Quando eles começarem a orar por coragem, dá-lhes uma convicção de serem dotados de bravura.
Quando eles disserem que estão a orar pelo perdão, leva-os a já se sentirem perdoados. Ensina-os a avaliarem a eficácia de cada oração pelo seu sucesso em produzir o sentimento desejado; e nunca permitas que eles suspeitem que o sucesso ou fracasso deste género depende de como eles estejam no momento, seja dispostos ou doentes, lépidos ou cansados. No entanto, o Inimigo não estará ocioso neste interim. Onde houver oração, há sempre o perigo de uma acção Sua imediata; Ele é cinicamente indiferente à dignidade da Sua posição, e à nossa ,como puramente espíritos, destarte, estando os animais humanos prostrados sobre os seus joelhos, Ele passa-lhes o auto-conhecimento de uma forma completamente indigna (quase sem-vergonha). Mas mesmo que Ele te derrote na tua primeira tentativa, nós ainda temos uma arma subtil. Os humanos não possuem essa percepção directa do Inimigo, a qual nós, infelizmente, não podemos evitar.
Teu afectuoso tio
MORCEGÃO
CARTA Número V
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Afectuosamente, teu tio.
Morcegão
CARTA Número VII
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Afectuosamente, teu tio.
Morcegão
CARTA Número VIII
Espero que a minha última carta te tenha convencido de que o deserto de tédio ou “sequidão” pelo qual o teu paciente está a passar actualmente não fará por si mesmo a alma dele cair nas tuas mãos, a não ser que seja convenientemente explorada. Passo a descrever as maneiras de aplicar a dita exploração.
Em primeiro lugar, eu tenho sempre reparado que os períodos “de baixa” das ondulações humanas fornecem excelentes oportunidades para todas as tentações sensuais, particularmente as ligadas ao sexo. Isto pode soar estranho para ti, uma vez que é claro que há energia física e portanto potenciais de apetite sexual nos períodos “de pico” dos homens; mas precisas de te lembrar também que nessas ocasiões em que eles estão sorridentes, dançando abraçados, rindo alto e cantando, enquanto tomam champagne são também os momentos em que a resistência mental e espiritual a todas as suas sugestões pecaminosas também estarão em alta. A saúde e alegria que estás a tentar usar para produzir luxúria e licenciosidade pode ser facilmente canalizada em coisas como trabalho, diversão, ou alegres pensamentos desprovidos de malícia.
O ataque tem muito maiores chances de ser bem sucedido quando por alguma razão o mundo interior do teu homem estiver desmazelado, frio e vazio.
E é também digno de nota que o canal de sexualidade se torna subitamente diferente em qualidade, diria mesmo que totalmente diferente das ocasiões “de pico”, durante os estranhos fenómenos água com açúcar que os humanos chamam de “se apaixonar”. Nessa ocasião será mais fácil desenhar dentro dele perversões, e tu notarás que as mesmas perversões não são contaminadas pela generosidade e compromisso espiritual os quais frequentemente causam uma sexualidade humana tão decepcionante. Acontece assim com outros desejos da carne. Consegues mais facilmente transformar a tua vítima num alcoólatra inveterado quando lhe sugeres usar o álcool como uma anestesia contra alguma dor ou tristeza que o esteja acometendo. Não esperes grandes resultados quando tentares levá-lo ao vício da bebida exactamente quando ele está feliz celebrando aniversários, vitórias da sua equipa de futebol ou promoções na carreira profissional. Nunca te esqueças de que quando estamos a lidar com qualquer forma de prazer sadio e qualquer forma de satisfação normal, de certa forma estamos a pisar no terreno do Inimigo. Eu sei que nós temos alcançado muitas almas através dos prazeres; mas não nos esqueçamos que todo o prazer é invenção d’Ele! Ele criou todos os prazeres; toda a nossa pesquisa através dos séculos não foi capaz de criar uma única forma de prazer. Tudo que podemos fazer é encorajar os seres humanos a tomar os prazeres que o Inimigo criou de formas ou intensidades que Ele mesmo tenha proibido.
Uma outra possibilidade é o ataque directo à sua fé. ...
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Afectuosamente, teu tio.
Morcegão
CARTA Número X
Estou deliciado em ouvir do Tropeço que o teu paciente tem feito algumas novas amizades bem desejáveis, e que tu já entendeste como usá-las de maneira bem promissora. Eu enfocaria que o casal de meia-idade que tem frequentado o teu escritório é exactamente o tipo de gente que queremos que ele conheça – ricos, espertos, superficialmente intelectuais, e brilhantemente incrédulos sobre tudo neste mundo. Chamo a tua atenção para o aspecto de que eles são vagamente pacifistas, não por assuntos morais, mas por um hábito já arraigado de depreciar qualquer coisa que diga respeito a pessoas comuns do povo, além de uma apreciação pouco pensante do que esteja na moda e do comunismo literário. Isso é simplesmente excelente! E aparentemente, tu tens feito bom uso de toda a futilidade social, sexual e intelectual deles os dois.
Mas conta-me mais! Ele está profundamente ligado a esse casal? Não me estou a referir a uma ligação da boca para fora. Há um subtil jogo de olhares, sorrisos e tons de voz que demonstra que ele faz parte do grupo de pessoas com as quais está conversando (ou seja, conotam cumplicidade com o referido grupo). Este é o tipo de envolvimento que deves encorajar, partindo da premissa que os seres humanos não se realizam totalmente em si mesmos, e com o tempo podes aprender a usar essa dificuldade deles. Sem dúvida ainda é muito cedo para o teu paciente perceber que as suas posições de fé estão em oposição directa a todas as conversas que ele tem com os novos amigos. Não creio que haja grandes problemas em persuadi-lo a adiar ao máximo qualquer conhecimento explícito da situação, e isto, com a ajuda da vergonha, do orgulho e da futilidade será uma tarefa simples de se executar.
Quanto mais conseguires que ele adie uma conversa aberta com o casal, onde ele se posicione claramente como cristão, mais tempo estarás a conseguir que ele viva na falsidade. Ele silenciará quando deveria falar, e rirá quando deveria estar em silêncio. Ele assumirá primeiramente apenas pelas maneiras, e em seguida pelas palavras, toda a sorte de atitudes cínicas e incrédulas que não são realmente suas. Mas se manipulares bem a situação, podes até conseguir com que as atitudes terminem sendo dele de facto. Todos os mortais tendem a tornar-se nas coisas que eles pretendiam ser. Isto é elementar. O único problema real é como se preparar para o contra-ataque do Inimigo.
A primeira coisa é retardares tanto quanto puderes o momento no qual ele perceba que esta nova forma de prazer não passa de uma tentação nossa. Uma vez que os servos do Inimigo têm pregado bastante sobre “O Mundo”, como uma das grandes tentações durante dois mil anos, isto pode ser bastante difícil de realizar. Mas felizmente eles ultimamente têm tocado pouco nesse assunto nas últimas décadas. Nos escritos cristãos modernos ainda que eu tenha visto muito (na verdade, mais do que eu gostaria) sobre Mamom, vi muito pouco acerca das Futilidades Mundanas, a Escolha de Amigos e o Valor do Tempo. Tudo isso, provavelmente, o teu paciente irá classificar como “Puritanismo”– e posso salientar de passagem que o valor que nós temos dado a esta palavra se constitui num dos nossos triunfos realmente sólidos nos últimos cem anos.
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Afectuosamente, teu tio.
Morcegão
CARTA Número XII
Precisas de te lembrar que a única coisa que realmente interessa é a extensão da distância a que possas levá-lo do Inimigo. Não importa o quão desprezíveis sejam os pecados usados neste efeito cumulativo, desde que continues a aumentar a vala que conduz a vítima cada vez mais para longe da Luz e cada vez mais para dentro do Nada. Assassinato não é melhor que jogo de cartas se as cartas podem realizar o engano. Com efeito,a estrada mais segura para o Inferno é a gradual– a ladeira suave, com chão suave, sem curvas acentuadas, sem avisos de quilometragem e sem placas indicativas de sinalização.
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Afectuosamente, teu tio.
Morcegão
CARTA Número XIII
Está-me a parecer que gastaste um imenso número de páginas para contar uma história extremamente simples. No fritar dos ovos, deixaste o homem escapar por entre os teus dedos. A situação é muito grave, e eu realmente não vejo nenhuma razão para tentar livrar-te das consequências da tua ineficiência.
O plano preliminar que empregaste para afastá-lo do Inimigo terminou por afastá-lo de ti próprio e tu até que tinhas feito alguns progressos. Agora, tudo se desmoronou. Entendo qual foi a tua confusão... É claro que estou ciente de que o Inimigo também quer tirar o foco dos homens de si mesmos, mas o modo é totalmente diferente. Lembra-st sempre que o Inimigo realmente gosta destes vermezinhos, e atribui um valor absurdo a respeito das características individuais de cada um deles.
Enquanto ele não conseguir transformar a mudança de vida em acções, não importa muito o que ele pense a respeito dessa reconciliação. Deixa que ele fique como um animalzinho dando voltas em redor disso. Leva-o a meditar muito no assunto, a escrever um livro sobre isso, frequentemente essa é uma forma excelente de esterilizar as sementes que o Inimigo planta na alma humana. Permita que ele faça qualquer coisa, menos AGIR. Nenhuma quantidade de piedade na tua imaginação e sentimentos poderá causar-nos qualquer problema, desde que mantenhamos tudo isso longe da sua VONTADE. Como um dos seres humanos mesmo disse, os hábitos activos são fortalecidos pela repetição, ao passo que os passivos se enfraquecem pela mesma continuidade. Quanto mais vezes ele se sentir inactivo, menos ele se disporá a agir, e ao longo do tempo, menos ele conseguirá sentir alguma coisa.
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Afectuosamente, teu tio.
Morcegão
CARTA Número XXXI
Deixaste uma alma escapar por entre seus dedos. O uivo de fome aguda por tal perda ecoa neste momento em todos os níveis do Reino da Barulheira até descer ao próprio Trono. Só de pensar, enlouqueço!
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Afectuosamente, teu tio.
Morcegão



