Não te custa nada?
Conquanto breve, a incumbência era tão difícil como importante: «Agora te envio»—Act. 26:17. Paulo obedece, empunha o facho resplandecente e enceta a custosa caminhada rasgando as trevas com formidável clarão. Percorre a Palestina e chega à costa. O homem de Deus não pode deter-se; atravessa o Mediterrâneo, finca os pés em terras da Grécia, levanta o facho e grita: «O Evangelho de Cristo é o poder de Deus para salivação de todo aquele que crê» — Rom. 1:16. Após este grito outros se ouvem; o facho se multiplica e da chama irrompem novas chamas. E essas chamas se erguem às alturas, significando o amor, o zelo e a consagração do povo de Deus.
O que fora simples chama transforma-se num tremendo incêndio a alastrar nos corações o amor de Deus. Este estado de coisas, porém, não havia de continuar por muito tempo. O príncipe das trevas ia empreender a luta e exigir dos filhos da Luz um maior preço e sacrifício. Surgem as nuvens, o céu carrega-se, estala a tempestade. O braço dos obreiros é sacudido; mas ao invés do que seria de esperar o fogo não se apaga; é atiçado e pelo vento levado para mais longe. A procela aumenta; contudo quando o inimigo supôs o fogo Extinto já ele ardia por baixo da velha Roma, no seio das catacumbas. A fera, bêbeda de sangue, volta a enrodilhar-se no seu covil, até que no século 16 fosse despertada do seu turpor. Cá fora, porém, onde agora uma religião cega pelo paganismo medieval impera, a escuridão é mais obumbrosa que a das catacumbas. Mas a luz espanca as trevas e outra vez brilhou! Que Evangelho tão caro este! Só a Eternidade revelará o seu preço.
Brilhou, sim, mas por pouco. Era de esperar. Extinguiu-se lentamente até ficar num simples morrão a fumegar. Resistiu aos fortes vendavais, mas não podia bater-se com a humidade que a frieza dos cristãos foi provocando. Todavia este morrão fumegante se tomará em tremendo braseiro no momento que o povo de Deus depuser junto dele o preço do seu amor, zelo e consagração.
Oh tu, que de crente tens o nome, que e quanto te custa o Evangelho? Nada! Então não deves ter grande interesse por ele. O Evangelho tem diferentes preços, os quais variam consoante a consagração de cada um. E todo o crente que muito tem pagado, mais quer pagar; enquanto que o mau pagador menos quer pagar. Não interpretes mal a frase — «Sem dinheiro e sem preço» porque ela te não diz respeito e sim ao descrente a quem Deus oferece uma Salvação gratuita mediante o preço pago por Cristo na Cruz.
Tu falas do amor de Deus. Sabes quanto Lhe custou esse amor?
— Deixou a Sua glória, baixou ao mundo onde não teve em que reclinar a Sua cabeça, e morreu por ti na Cruz. O amor é mesmo assim: junge-se com o sacrifício e a justiça como se sem estes fosse incompleto. O Evangelho abunda nesses exemplos. Os discípulos seguiram o Senhor; mas isso custou-lhes nada menos que a perda de tudo, materialmente falando. João Baptista pregou-O; mas isso custou-lhe um cárcere e a decapitação. Às mulheres que O seguiram custou os seus bens. E Maria de Betânia quando derramou sobre a cabeça do Senhor o vaso cheio de unguento de nardo puro, talvez Lhe estivesse dando a última coisa que tinha. E tão grande era o seu preço que Judas cheio de inveja resmungou. — Judas tem tantos discípulos! José de Arimateia e Nicodemos amaram a Jesus, mas esse amor custou-lhes o descerem-nO da Cruz — arriscando-se a muito — e ainda um lençol e o sepulcro que um deles havia reservado para si. Paulo quis levar o facho do Evangelho, importando-lhe isso no preço que ficou registado na 2ª Carta aos Coríntios, 11:16-33, preço este completado, mais tarde, com a morte.
Então, quanto tens pagado? Vais muitas vezes ouvir, dizes tu. E não te terás enfadado de tanto ouvir?. Forte paciência! Era, tempo de fazeres mais alguma coisa. Nada mais prático: chegar e assentar-se diante do pregador, sem pensar, talvez, que ele gastou os últimos tostões na viagem, que em casa não deixou que comer, não falando na renda, por cuja causa foi ao penhorista. Assim refastelado, ainda mostras ares de quem foi ouvir para fazer um favor ao pregador!
Quando ele prega sobre o viver da fé ficas admirado; mas não sabes que o viver da fé significa esperar que Deus use alguém, como a ti, por exemplo, para suprir as suas necessidades? Ou pensas que isso lhe cai de cima como o maná no deserto? Quanto deitas na colecta? Uns tostões! Isso brada aos céus! Como quem dá uma esmola! A estas horas, quando no fim do mês não há dinheiro que chegue para as despesas da sala de reuniões, deixas que o servo de Deus, a quem com pouco ou nada auxilias, ponha o resto do seu bolso. Terás ao menos pensado nas necessidades do povo de Deus em geral. Sendo assim, e se tens prestado auxílio, receberás a tua recompensa. Ou és dos que lamentam o pobre e querem que outros o auxiliem? Há-os assim.
Reuniu-se um grupo de crentes para orar por um irmão em necessidades. Oraram alguns; em seguida, levanta-se um crente endinheirado e diz: «Senhor, Tu sabes como é grande a prova pela qual está passando o nosso irmão; se é da Tua vontade supre as suas necessidades por meio d’alguém que possa...» Logo que terminou, diz um crente: Irmãos, a necessidade está suprida». Todos ficaram alegres enquanto o último a orar perguntava»: «Como?»
— «Com a sua carteira, que está recheada no seu bolso enquanto você pede a Deus por um irmão», responde-lhe o outro.
Mas quantas vezes o teu lugar está vago na sala. O servo de Deus durante o dia orou por ti. Enquanto estudava a mensagem pensava em ti. Creu mesmo que ia servir-te de muita bênção; qual não foi o desapontamento que sofreu não te vendo no culto. Tantas vezes lhe tens feito isto! O diabo com mais de 6.000 anos de experiência, conhece a tua fraqueza. Pegou numa dor de cabeça; num pouco de fadiga; no atraso da refeição, na rabugisse dum filho ou num negócio qualquer, atirou-to com mão tão certeira que te tombou logo! Não vences a fadiga. Não és capaz de deixar uma refeição para mais tarde; um negócio, um pouco de chuva ou frio são o bastante para te impedir. Assim não admira que o Evangelho te seja de pouca importância, pois que para ele nunca pagaste grande preço. Faltas e não gostas de exortações; mas que dirias, se o pregador também ficasse em casa?
Quanto tempo consagras à oração por dia? Não tens tempo! Mas talvez o tenhas para conversar desnecessariamente horas inteiras.
Faz alguma coisa que te custe e verás como o preço do sacrifício do Salvador é valioso para ti. David disse: «Não darei nada ao Senhor que me não custe».
Deus amou-te, mas vê quanto Lhe custou esse amor!
Alimento Espiritual, 1950, VIII Volume



