Actos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XI - ACTOS 8:1-3 (Cont.)

SAULO O LÍDER REBELDE

     Nesta rebelião ímpia há uma pessoa que se ergue proeminentemente acima de todas as restantes. Trata-se de Saulo de Tarso, o jovem que guardou as vestes dos homicidas de Estêvão: um jovem prometedor e já distinto. Nós lemos que este Saulo “consentiu” na morte de Estêvão; significará isto que ele era membro do Sinédrio? Ele era um “jovem” (Actos 7:58) como dissemos, e só excepcionalmente um jovem se tornaria membro do Sinédrio. Contudo em Gál. 1:14 ele testificou mais tarde:

     “E, na minha nação, excedia em judaísmo a muitos da minha idade, sendo extremamente zeloso das tradições dos meus pais.”

     Se não fosse já membro do Sinédrio, deve ter sido promovido a essa posição pouco depois do apedrejamento de Estêvão, pois tanto Actos 23:6 como Fil. 3:5 esclarecem que ele era Fariseu, e ao testificar perante Agripa a respeito da perseguição que encetou aos santos de Jerusalém, ele diz que quando eles estavam a ser expostos à morte ele votou contra eles (Actos 26:10).1

     Em qualquer caso este jovem zeloso, no seu ódio fogoso para com Cristo travou tão implacavelmente a batalha contra os seguidores do Messias e incitou tanto os outros a unirem-se à perseguição, que não demorou muito em receber “autoridade e comissão” dos principais dos sacerdotes para torturar os adoradores de Nazareno em “cidades estranhas” e mesmo na longínqua Damasco (Actos 26:11,12).

     Tem-se discutido quanto a, se foi Paulo o principal dos pecadores. A resposta a esta questão é simplesmente que as Escrituras dizem que sim, e estabelece este facto para demonstrar a verdade de que “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os PECADORES”.

     “ESTA É UMA PALAVRA FIEL, E DIGNA DE TODA A ACEITAÇÃO, QUE CRISTO JESUS VEIO AO MUNDO, PARA SALVAR OS PECADORES, DOS QUAIS EU SOU O PRINCIPAL.

     “MAS POR ISSO ALCANCEI MISERICÓRDIA, PARA QUE EM MIM QUE SOU O PRINCIPAL, JESUS CRISTO MOSTRASSE TODA A SUA LONGANIMIDADE, PARA EXEMPLO DOS QUE HAVIAM DE CRER NELE PARA A VIDA ETERNA” (I Tim. 1:15,16).

     A questão tem-se erguido provavelmente devido a uma incompreensão do termo. Quando Paulo é apresentado como o principal dos pecadores, alguns supõem que isso significa que ele era o pior dos pecadores. É claro que não era. Mesmo no seu estado de incredulidade ele viveu “em toda a boa consciência” (Actos 23:1) e mais tarde testificou: “Bem eu tinha imaginado que contra o nome de Jesus nazareno devia eu praticar muitos actos (Actos 26:9).

     Isto dificilmente poderia ser dito acerca de Judas ou dos principais dos sacerdotes, por exemplo, e nesse sentido eles eram pecadores piores que Paulo.2

     Contudo a palavra principal não significa pior; significa primeiro. Denota hierarquia. A palavra original é traduzida por “principal” e “primeiro” pelo menos seis outras vezes na Versão de Almeida, dando-nos uma visão bastante boa do uso da palavra:

     Mat. 20:27, “primeira entre vós”, Lucas 19:47, “principais do povo”, Actos 16:12, “primeira cidade”, Actos 17:4, “principais mulheres” Actos 25:2 e 28:17, “principais dos Judeus”.

     Em nenhum destes exemplos a palavra principal ou primeiro poderia ser traduzida por pior.

     Ora, Saulo era o principal, o guia, dos pecadores. Ele era o seu líder nesta altura que o pecado abundava. Lembremo-nos que os Gentios tinham-se rebelado contra Deus, há muito em Babel. Temos três vezes em Rom. 1 que “Deus os entregou”, “Deus os abandonou”, “Deus os entregou” (Rom. 1:24,26,28). Então, escolhendo a semente de Abraão, Ele propôs-se restaurar e abençoar o mundo por eles. Porém aqui a semente de Abraão une-se aos Gentios na sua rebelião contra Deus, e Saulo de Tarso lidera-os. Assim Saulo era o principal dos pecadores; ele conduziu Israel e, de facto, o mundo em rebelião contra Deus e o seu Cristo. Ele era a personificação da verdadeira atitude do mundo para com Deus e o seu Cristo (Sal. 2:1-3).

     Somente dele lemos: “E Saulo assolava a igreja” (Actos 8:3). Aos Gálatas escreve: “Porque já ouvistes ... como sobremaneira perseguia a igreja de Deus e a assolava” (Gál.1:3).

     “Entrando pelas casas e arrastando homens e mulheres, os encerrava na prisão” (Actos 8:3). E segundo o seu próprio testemunho, dado posteriormente, ele “castigando-os muitas vezes por todas as sinagogas (em Jerusalém) os obriguei a blasfemar” (Actos 26:11). E quando os discípulos começam a fugir de Jerusalém isso não o satisfaz. Determinou-se em persegui-los. “E, enfurecido demasiadamente contra eles, até nas cidades estranhas os persegui” (Actos 26:11).

     “E Saulo, respirando ainda ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote, e pediu-lhe cartas para Damasco para as sinagogas, a fim de que, se encontrasse alguns daquela seita, quer homens quer mulheres, os conduzisse presos a Jerusalém” (Actos 9:1-2).

     Munido assim de “autoridade e comissão dos principais dos sacerdotes” (Actos 26:12). Saulo fez com que o seu propósito o levasse a prender tantos quantos pudesse e “a trazer manietados para Jerusalém aqueles que ali estivessem, a fim de que fossem castigados” (Actos 22:5).

     E assim o jovem prometedor estudante tornou-se num religioso louco. De acordo com o seu testemunho que ele próprio deu mais tarde, ele “ perseguiu este caminho até à morte, prendendo e metendo na prisões, tanto varões como mulheres” (Actos 22:5). “E muitos dos santos “ ele diz, “encerrei nas prisões ... e quando os matavam eu dava o meu voto contra eles” (Actos 26:10).

     O quão proeminente ele se tornara na perseguição cada vez maior pode ser visto nas ansiosas palavras de Ananias em Actos 9:13,14: “Senhor, a muitos ouvi acerca deste homem, quantos males tem feito aos teus santos em Jerusalém; e aqui tem poder dos principais dos sacerdotes para prender a todos os que invocam o teu nome”.3

     Mas voltemos à passagem em consideração e à grande perseguição em Jerusalém.

     Deus está agora para introduzir uma nova dispensação e ao fazê-lo Ele apresenta Saulo de Tarso, não um devoto discípulo de Cristo, mas o inimigo mais cruel e implacável do Senhor na terra; não para o esmagar, mas para o salvar e fazer dele a demonstração suprema da Sua graça incomensurável. 

     O pecado do homem eleva-se ao máximo,

     “MAS ONDE O PECADO ABUNDOU, SUPERABUNDOU A GRAÇA” (Rom. 5:20).

     Neste ponto no nosso estudo dos Actos encontramo-nos demasiado ávidos de saber o que vai agora acontecer a seguir. Para conseguirmos o quadro completo devemos agora prosseguir com a história dos crentes dispersos e com o ministério de Filipe em Samaria.


1 Provavelmente isto significa que ele era casado e tinha filhos nessa altura, pois evidentemente no supremo tribunal de Israel só eram admitidos pais, na base de que os pais eram aptos a serem mais humanos ao julgarem os outros. Contudo a sua mulher não poderia ter vivido muito mais tempo depois disto. Ver I Cor. 7:7,8.

2 Isto mostra o quanto a consciência pode desviar os homens. Isso não o desculpa de ter perseguido os santos com uma consciência clara, pois, como salientámos, ele podia e devia ter sabido que Jesus era o Cristo.

3 Se Ananias estava correcto, parecia que Saulo tinha sido designado Comandante em Chefe na guerra que tinha sido declarada a Cristo.

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