O Cristão pode ser político? (II)

Carlos M. Oliveira

     "Sagrado versus Secular" - Esta dicotomia é correta?

     Um pensamento que permeia o pensar de muitos crentes mal esclarecidos é a dicotomia "Sagrado versus Secular". Tal pensamento, vigente na Cristandade, é que se vai à missa para um ato sagrado, enquanto que ir trabalhar é um ato profano. Ainda hoje há uma dificuldade de uma visão unificada da fé Cristã para todas as áreas da vida (cultura, arte, lazer, trabalho, educação, política, etc.). Esta dicotomia permeia não só o pensamento católico, mas muitos protestantes, e não só …

     Biblicamente, esta dicotomia não é verdadeira, pois Deus vê tudo como um todo. A vida que o Cristão deve viver para Deus é uma vida integral. Para quem vive realmente para Deus nada é secular, tudo é sagrado.

     John Stott diz que "O dualismo, ou o divórcio entre as coisas sagradas e seculares tem sido uma tendência desastrosa na história da igreja". Paulo não pode ser acusado disso. Nas suas cartas, ele transitava simultaneamente entre o sagrado e o secular. Para Paulo "Todas as coisas são puras para os puros" (Tito 1:15). Talvez fosse esse texto que Spurgeon tinha em mente quando disse que "Para um homem que vive para Deus nada é secular, tudo é sagrado".

     Há um facto interessante registado nos Evangelhos de Mateus (Capítulo 17), Marcos (Capítulo 9) e Lucas (Capítulo 9) – a experiência da Transfiguração. Esta experiência foi tão marcante e boa que Pedro teve a ideia de fazer três tendas para ficarem ali. Porém, era necessário que Jesus e os discípulos descessem do monte, voltassem e continuassem a sua missão de assistir os doentes, os necessitados, encarar os problemas, pagar impostos, etc.. 

     Esta atitude dos discípulos é semelhante ao desejo de muitos Cristãos em estar totalmente envolvidos com o “Sagrado” deixando de lado o que denominam de “Secular”. Se Deus quisesse que vivêssemos somente em culto, em experiências meramente espirituais, ele daria ordens ao primeiro casal para ficar o tempo todo diante da Sua face, prostrado e adorando, mas sabemos bem que não foi isso que aconteceu. Nós vemos, desde o início que para o Criador, tudo é Sagrado, e por isso faz parte do culto a Deus também o trabalho, as tarefas, o relacionamento com as pessoas, a adoração, o culto, a escola, tudo.

     Paulo dá-nos a conhecer um exemplo deste erro acontecer nos seus dias de uma forma extrema.

     O Apóstolo Paulo teve de repreender alguns crentes que, por interpretarem deficientemente as Escrituras, concretamente sobre a vinda do Senhor Jesus Cristo, deixaram de trabalhar. Ele teve de lhes ordenar que voltassem à sua vida normal, pois isso seria esperar o Senhor em santidade, ao contrário do que eles pensavam. (2 Tessalonicenses 1:11,12; 2:1-3; 3:7-13).

     Quantos é que hoje enfermam do mesmo problema a este respeito em muitas outras áreas? A questão da ação governativa é uma delas.

     Ao contrário do que muitos têm tendência para pensar e agir, para Deus tudo é sagrado. E para nós tudo deve ser igualmente sagrado. Vejamos o que Paulo ensina a esse respeito:

     “… quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, FAZEI TUDO PARA GLÓRIA DE DEUS” (1 Coríntios 10:31). A Bíblia ensina tanto no Novo Testamento, como no Velho Testamento, uma visão unificada da vida, vivendo tudo para a “glória de Deus”. No livro de Provérbios, as várias instruções em relação à comunhão com Deus, vemo-las relacionadas com a família, a agricultura, as finanças, o casamento, etc..

     Foi Martinho Lutero, mais do que qualquer outro, que derrubou a noção de que clérigos, monges e freiras empenhavam-se em trabalho mais santo do que a dona de casa e o comerciante. Calvino rapidamente acrescentou o seu peso ao argumento. Os Puritanos foram unânimes em seguir a direção de Lutero e Calvino.

     Como os Reformadores, os Puritanos rejeitaram a dicotomia sagrado-secular. Willian Tyndale disse que se olhamos externamente “há diferença entre lavar louça e pregar a palavra de Deus; mas no tocante a agradar a Deus, nenhuma em absoluto”.

     William Perkins concordou: “A ação de um pastor em guardar ovelhas... é um trabalho tão bom diante de Deus como a ação de um juiz ao sentenciar, ou um deputado ao regulamentar, ou de um ministro ao pregar”.

     Bem, a verdade é que todos eles aprenderam com o Apóstolo Paulo que, sob, Deus, ensina esta verdade.

     Infelizmente, como vimos, não tem sido esta a tendência dos crentes, pois tendem a separar o que Deus uniu, dividindo as coisas que os rodeiam em sagrado e profano.

     Não deixemos a nossa fé Cristã hermeticamente distante do restante da nossa vida, sendo apenas libertada em cultos de louvores a Deus. Vivamos uma vida íntegra - no sentido literal da palavra, na totalidade, por inteiro.

     Quando permitimos que o meio secular aprisione o Evangelho, inviabilizamos a sua atuação transformadora plena através de nós, assim como também retiramos a oportunidade dele irradiar em todo o nosso viver.

     No artigo anterior vimos que de acordo com Romanos 13:1, todo o poder político foi delegada por Deus e que os Cristãos não devem, portanto, olhar para esse assunto como profano.

     Há uma segunda razão pela qual a assunção de responsabilidade dos Cristãos na política é essencial: as autoridades civis, dizem-nos as próprias Escrituras, são "ministros de Deus". O seu papel, portanto, é tão sagrado como o papel dos ministros de Deus na igreja.

     Por isso devemos olhar para estes ministros de função pública com semelhante respeito, cuidado, preocupação e oração, como fazemos com os ministros eclesiásticos (da igreja). A autoridade que têm foi-lhes igualmente concedida por Deus.

     Em Romanos 13:4, o grande apóstolo refere-se duas vezes à autoridade civil como um "ministro, ou servo, de Deus", e em Romanos 13: 6, ele diz que os titulares de cargos políticos são "ministros, ou servos, de Deus".

     A palavra Grega traduzida por "ministro" no v. 4 é a palavra diakonos, de onde deriva a nossa palavra "diácono". O léxico define diakonos como "servo" ou "ministro", um significado claramente sagrado. (Não nos esqueçamos que para Deus tudo é sagrado).

     O termo diakonos é utilizado alternadamente no Novo Testamento para se referir àqueles que têm posições na igreja e àqueles que têm cargos no governo uma vez que ambos estão a desempenhar responsabilidades divinas.

     A palavra traduzida por "ministros" em Romanos 13:6 é a palavra grega leitourgos, da qual deriva a nossa palavra "liturgia", que quer dizer serviço de culto. Não é por acaso que o Espírito de Deus guiou Paulo a escolher aqui um termo sagrado.

     Apenas dois capítulos depois, em Rom. 15:16, por exemplo, Paulo usa o mesmo termo para o descrever a si mesmo no seu papel de apóstolo.

     "As autoridades", diz Paulo em Romanos 13, "são ministros de Deus." Seria impossível ser-se mais direto e claro do que isto.

     O serviço público, como qualquer tipo de trabalho, é tão espiritual quanto o culto propriamente dito e, portanto, Deus deve ser glorificado nele.

     Oremos para que Deus nos dê governantes assim, e só estão habilitados a ser governantes assim pessoas verdadeiramente Cristãs.

     Muitos querem ser espirituais demais e acabam se afastando dos homens, outros ficam seculares demais e acabam se afastando de Deus. Sejamos íntegros, sejamos bíblicos. Que Deus nos dê a alegria de ver santos na mais alta magistratura da nação tornar conhecida a glória de Deus, ou … contentamo-nos com pouco, apenas alegrando-nos com os feitos maravilhosos que alguns fizeram no passado para a glória de Deus e bênção de muitos?

- C.M.O.

O Cristão pode ser político? (I)
O Cristão pode ser político? (II)
O Cristão pode ser político? (III)
O Cristão pode ser político? (IV)
O Cristão pode ser político? (V)
O Cristão pode ser político? (VI)
O Cristão pode ser político? (VII)
O Cristão pode ser político? (VIII)

Sermões e Estudos

Carlos Oliveira 17ABR26
A tua chávena

Tema abordado por Carlos Oliveira em 17 de abril de 2026

Dário Botas 12ABR26
A tua morte é um dever!

Tema abordado por Dário Botas em 12 de abril de 2026

Carlos Oliveira 10ABR26
À procura da chave

Tema abordado por Carlos Oliveira em 10 de abril de 2026

Estudo Bíblico
1 Timóteo 3:2

Estudo realizado em 15 de abril de 2026

ver mais
  • Avenida da Liberdade 356 
    2975-192 QUINTA DO CONDE 





     
  • geral@iqc.pt 
  • Rede Móvel
    966 208 045
    961 085 412
    939 797 455
  • HORÁRIO
    Clique aqui para ver horário