Costumes das igrejas de Deus (VI)

 

Carlos M. Oliveira

 

Significado
 
     O que significa fazer aceção de pessoas?
 
     Significa beneficiar algumas pessoas em detrimento de outras, ou dar atenção especial a pessoas por causa da sua riqueza, seu estatuto social, sua posição de autoridade, sua popularidade, sua aparência ou sua influência. 
 
     Todos os que estão na igreja são irmãos. Todos estávamos separados de Deus e todos fomos aceites, pela misericórdia e graça de Deus, a fim de sermos seus Seus filhos mediante a obra que Cristo realizou na cruz. Dinheiro, estatuto, influência, nada contou para obtermos tal posição. Alcançámo-la tão-somente pela obra de Jesus por nós. A parcialidade ou favoritismo são, portanto, estranhos à fé. 
 
     Portanto, não se deve julgar as pessoas pela sua aparência. Não se deve favorecer os ricos nem desfavorecer os pobres. 
 
     O capítulo 2 de Tiago combate a discriminação entre o povo de Deus, revelando que Deus é contra a parcialidade e o favoritismo na assembleia. Segundo este texto o Senhor não quer que haja distinção entre ricos e pobres. 
 
 
Tipos de discriminação
 
     Porém, Deus reprova qualquer outro tipo de distinção. Uma das distinções mais evidentes na igreja hodierna, por exemplo, é a descriminação revelada contra pessoas de outras raças e cores. Como crentes devemos ser fiéis aos princípios divinos estabelecidos. É nossa obrigação dar expressão prática à verdade de que somos “um em Cristo Jesus”
 
     “Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28).
 
     Uma das não conformidades, relativamente aos costumes das Igrejas de Deus, que se constata presentemente em muitas igrejas é haver, para além de tratamento diferenciado, lugares especiais ou reservados. Ora, segundo as Escrituras, perante Deus, estamos todos em pé de igualdade, não devendo isso acontecer, nunca.
 
     As igrejas de Deus não tinham por costume ter lugares especiais para “pessoas especiais”. Em muitas igrejas hoje existem cadeiras por detrás dos púlpitos para uso exclusivo dos líderes. Nas igrejas de Deus não há lugares reservados, marcados ou especiais.
 
     Estamos a viver um tempo em que o ser humano não está a ser valorizado pelo seu caráter, mas pelos seus bens, cifrões e posições - um tempo em que os valores morais e Cristãos estão a ser cada vez mais desvalorizados, e não podemos permitir que tal espírito contamine as igrejas de Deus da atualidade.
 
 
Clericalismo
 
     Porém, existe ainda uma outra forma agravada de discriminação – dividir o povo de Deus entre clero (clericalismo) e leigos (laicado). O uso de títulos que erradamente é feito em muitas igrejas, como referimos anteriormente, muito contribuiu para este agravamento da discriminação.
 
     Os títulos honoríficos tendem a promover uma atitude elitista e formas autoritárias de liderança na igreja. Temos testemunhado como os títulos de glorificação do ego intoxicam e inebriam os seus titulares, conduzindo-os à formação de uma opinião elevada sobre si mesmos. Com o tempo, começam a olhar para os membros da sua congregação como meras "pessoas comuns", uma massa ignorante de "leigos" que precisam desesperadamente da sua sabedoria e discernimento (conf. João 7:49; 9:34).
 
     Os títulos honoríficos ajudam a perpetuar a divisão "clero-leigos". Devem, por isso também, ser definitivamente erradicados do meio do povo de Deus.
 
     Uma das glórias das igrejas de Deus foi a sua recusa absoluta em dividir os crentes em clero e leigos – algo que Deus abomina. 
 
     Esta divisão do povo de Deus em clero e leigos é considerada nas Escrituras como uma falsa doutrina – “doutrina dos Nicolaítas” (Apocalipse 2:15). A etimologia da palavra Nicolaíta revela em que consiste a doutrina do Nicolaitismo.
 
     O vocábulo Nicolaíta deriva de uma palavra Grega composta de duas palavras: ‘Nikao’, que significa ‘ter vantagem para dominar’, ‘subjugador’, ‘vencedor’ ‘conquistador’, e ‘laos’, de onde vem a nossa palavra leigos, que significa ‘povo comum’. Portanto, Nicolaíta é alguém que domina o povo comum, conquistador do povo comum. Pelos vistos teria emanado na igreja uma classe que passou a dominar os demais crentes, que passaram a ser denominados de leigos. Por sua vez, aquela classe passou a ser conhecida como clero.
 
     Clero quer dizer herança. Esta classe tornou-se usurpadora, ao classificar-se de herança, pois Deus diz que herança é atributo de todo o Seu rebanho e não apenas de alguns. Pedro disse aos presbíteros para não terem “domínio sobre a herança de Deus – o rebanho a quem eles ministravam (1 Pedro 5:3). Segundo a Palavra de Deus, por conseguinte, a herança de Deus é constituída, não por uma classe, mas por todo o rebanho, por todos os crentes (Efésios 1:11). 
 
     Esta é a razão de em alguns círculos religiosos, como por exemplo o catolicismo, o clero ser sinónimo de igreja. Nestes casos, quando se diz “a igreja tomou esta posição …” ou “a igreja tomou aquela posição …” o que de facto se está a querer dizer é que o clero “tomou esta posição … o clero tomou aquela posição …”.
 
     É aqui que o sistema clerical tem o seu início. Os Nicolaítas são os precursores da hierarquia  clerical, que reclamava domínio sobre os demais crentes e o consequente esvaziamento destes.
 
     O que começou por ser obras dos Nicolaítas” (Apocalipse 2:6) toleradas, acabou transformado em "doutrina" (Apocalipse 2:15). É assim que normalmente o mal se instala. Começa por ser uma prática que, sendo tolerada, acaba por se transformar em doutrina. Devido a isso os males devem ser cortados de imediato pela raiz.
 
     O levantamento desta classe dividiu a igreja - cujos crentes tinham uma posição de igualdade - entre clero e leigos.
 
     O clero terá nascido certamente do espírito do erro que considerámos anteriormente, ou seja, do tratamento diferenciado que alguns começaram a querer ter no meio da assembleia, quer através de títulos honoríficos, quer através de posição ou estatuto social, ou outro. De facto, “um pouco de fermento faz levedar toda a massa” (1 Cor. 5:6).
 
     Cerca de 30 anos antes Paulo tinha ensinado como eram constituídos os anciãos, pastores, ou bispos, e avisado os anciãos da igreja em Éfeso sobre o que aconteceria depois da sua partida:
 
     “Olhai pois por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue.
 
     “Porque eu sei isto: que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não perdoarão ao rebanho;
 
     “E que dentre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si(Atos 20:28-30).
 
     O tempo do seu aviso tinha aparentemente chegado a Éfeso; levantaram-se homens que tinham procurado construir uma esfera pessoal de influência e estabelecer uma hierarquia clerical para dominar a assembleia. O que aqui é visto em essência é o levantamento do clericalismo. Nos Nicolaítas vê-se a emergência do clericalismo, a respeito do qual o Senhor diz que aborrece (Apocalipse 2:16). 
 
     Através de alguns anos de estudo religioso e de ordenação humana, alguns ergueram-se como grupo de influência passando a pregar e a dirigir com exclusividade as congregações. Os leigos, que não tiveram tal educação e não foram ordenados pelos homens deixaram de ter acesso à pregação e direção, tendo que se contentar com lugares de subalternidade na igreja. Esta heresia tem a sua expressão máxima no Catolicismo, mas também existe e tem-se acentuado cada vez mais no Protestantismo.
 
     Para além de não existir qualquer apoio bíblico para esta divisão do povo de Deus, as Escrituras condenam-na.
 
     Esta ação foi certamente inspirada por Satanás e tem causado muito mal às igrejas de Deus.
 
     A Bíblia diz que todos os santos devem ser preparados “para a obra do ministério” (Efésios 4:12).
 
     Paulo é muito esclarecedor em 1 Coríntios 12:22-25:
 
     “… os membros do corpo que parecem ser os mais fracos são necessários.
 
     “E os que reputamos serem menos honrosos no corpo, a esses honramos muito mais; e aos que em nós são menos decorosos damos muito mais honra.
 
     “Porque os que em nós são mais honestos não têm necessidade disso, mas Deus assim formou o corpo, dando muito mais honra ao que tinha falta dela;
 
     “Para que não haja divisão no corpo …” 
 
     O clericalismo não é bom nem para os clérigos nem para os leigos que estão sob os clérigos. O que acontece é que os membros do corpo, ao existir essa divisão, são ou sobrestimados ou subestimados, consoante o caso, e o corpo de Cristo deixa de funcionar corretamente, tornando-se numa caricatura distorcida da realidade pretendida por Deus.
 
     O clericalismo é a assunção de uma posição de privilégio e de exclusividade na liderança do culto e do exercício do ministério e liderança da igreja, por certas pessoas que se destacam dos outros membros do corpo de Cristo. Essa distinção dos demais não se baseia em escolha divina nem em qualificações espirituais, mas numa educação de estilo secular e de preferência e aprovação humanas. O clericalismo despreza a soberania do Espírito na assembleia, os direitos do Senhor sobre Seus servos, e o funcionamento dos dons no corpo.
 
     O clericalismo tem feito muito para prejudicar e enfraquecer o corpo de Cristo. Ele divide claramente a fraternidade Cristã, impede os santos de se comportarem como ministros que são, obscurece, se não anula, a unidade essencial do povo de Deus, e exalta o orgulho dos líderes da igreja, conferindo-lhes títulos e privilégios especiais.
 
     Os “diferentes dons” (Romanos 12:6) das igrejas de Deus têm por costume,
 
     - Não ambicionar coisas altas, mas acomodar-se às humildes  (Romanos 12:16);
 
     - Nada fazer por vanglória, mas por humildade, considerando os outros superiores a si mesmo;
 
     - Não atentar cada um para o que é propriamente seu mas para o que é dos outros (Filipenses 2:3,4);
 
     - Ver os crentes em geral como parceiros na tarefa da edificação do corpo de Cristo (1 Coríntios 12:4-7; 14:12,26; Efésios 4:11-16).
 
     A anti-discriminação era um costume vincado nas igrejas de Deus. 
 
(Continua)
 
- C.M.O.

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