Costumes das igrejas de Deus (III)

 

Carlos M. Oliveira

 
Dr. Beltrano, Rev. Cicrano, Pr. fulano, …
 
     “… nós não temos tal costume, nem as igrejas de Deus” (1 Cor. 11:16).
 
     Qual era o costume das igrejas de Deus relativamente à forma de tratamento dos crentes?
 
     Alguém era tratado por título académico, eclesiástico, nobiliárquico, honorífico, ou outro? 
 
     Nas Escrituras vemos os crentes tratarem e serem tratados apenas pelos seus próprios nomes – não por qualquer tipo de título. 
 
     Quando Pedro escreveu a sua segunda epístola, fez uma referência com toda a simplicidade a Paulo sem usar título algum, revelando a forma como os crentes se tratavam independentemente dos dons que possuíam:
 
     “E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada” (2 Pedro 3:15).
 
     Na igreja, os dons que Deus confere aos crentes não são para ser tratados como títulos honoríficos, mas para serem usados com toda a simplicidade e humildade.
 
     Como disse bem William MacDonald em Na igreja não há títulos honoríficos, “O Senhor Jesus advertiu os Seus discípulos contra títulos altissonantes que alimentam o ego e colocam o “eu” no lugar da Trindade … quando um homem é apresentado como "Doutor" na assembleia, a implicação é que as suas palavras acrescentam autoridade por causa do seu diploma. Isto, como é óbvio, é totalmente injustificado. Um lixeiro corcunda, cheio do Espírito Santo, pode falar mais verdadeiramente como oráculo de Deus”.   
 
     Nós acrescentamos: não é o homem, apresente-se ele como se apresentar ou tenha ele o que tiver, que confere autoridade à Palavra de Deus, mas a Palavra de Deus que confere autoridade a qualquer homem que se lhe submeta.
 
     Alguns pensam que se o pregador for anunciado com um título qualquer atrás do seu nome isso atrairá e impressionará o pecador perdido. Puro engano. O pecador perdido é atraído e fica impressionado quando o pregador anuncia sem peneiras e jactâncias o Evangelho com a autoridade que a Palavra de Deus lhe confere e depois aquele vem a descobrir que este é pessoa titulada. Dessa forma o Evangelho sai divinamente engrandecido; é visto ser transformador, tornando humilde quem é grande; não sai diminuído, redutor, como sucede, quando surge alguém a querer torná-lo humanamente engrandecido.
 
     Além disso, como alguém disse um dia, os títulos na Igreja são como os títulos do tesouro: depressa perdem o valor e desaparecem. Um bom líder é fundamentalmente um servo. Como bem disse Martinho Lutero, "nós não passamos de sacos de lixo, servos inúteis carentes da graça e da misericórdia de Deus". 
 
     Esta questão é transdispensacional. Paulo, Epafras, Tiago, Pedro, João, apresentavam-se como servos. Porém o termo servo, hoje, caiu definitivamente em desuso. Presentemente assiste-se a uma fobia de procura de títulos. Pastor já é título demasiado pequeno para alguns. A moda agora em uso é o termo “Apóstolo”.
 
     Convém recordar aqui as palavras do Senhor Jesus a este respeito:
 
     “Mas Jesus, chamando-os a si, disse-lhes: Sabeis que os que julgam ser príncipes das gentes delas se assenhoreiam, e os seus grandes usam de autoridade sobre elas;
 
     “Mas ENTRE VÓS NÃO SERÁ ASSIM; antes, qualquer que entre vós quiser ser grande, será vosso serviçal:
 
     “E qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro será SERVO de todos.
 
     “Porque o Filho do homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida em resgate de muitos” (Marcos 10:42-45).
 
     Apesar de encontrarmos na Bíblia o termo “pastores” (p minúsculo), este só descreve a natureza de um dos dons que o Senhor ascendido deu à igreja, e que por ocupação pode ser um operário ou agricultor. Não é para ser usado como espécie de título honorífico. 
 
     Reverendo ou Reverendíssimo é tratamento que também tem sido dado erradamente a alguns eclesiásticos. A palavra Hebraica traduzida por “reverendo” é "yare" e significa 'digno de veneração, venerável; majestoso'. Nunca nenhum homem deveria tomar este título para si, pois trata-se de um termo só aplicável ao Senhor Jesus Cristo. Só Ele é digno de veneração; só Ele é majestoso. Além disso, a única vez que este título ocorre nas Escrituras, não se refere a um homem, mas a Deus.
 
     “… santo e reverendo é o Seu nome” (Salmo 111:9, ASV, AV).
 
     O uso da palavra "reverendo" tem suas raízes nas práticas anti-bíblicas da Igreja Católica Romana. Não há vestígios deles no chamado Velho Testamento. Abraão Moisés, Aarão, Daniel, ou qualquer dos demais profetas, sacerdotes ou levitas, jamais usaram rótulos semelhantes. Muito menos os usaram Paulo, Barnabé, Epafras, Timóteo, Tito, etc.. A atribuição destes títulos é abusiva, como foi abusiva a atribuição do título que deram ao nosso Senhor Jesus Cristo (Mateus 10:25).
 
     O versículo que usa o termo “reverendo” também usa o termo “santo”. O facto de algumas religiões referirem-se aos seus líderes, como "santo padre [ou, pai]", ou dirigirem-se-lhes como "sua santidade", mostra que não percebem que tais títulos são reservados apenas à Deidade. (Em Atos 3:14 Jesus Cristo é referido como "o Santo".) Ora, o mesmo se passa com reverendo.
 
     O único exemplo em que vemos alguém tratar outrem por título seguido de nome é no Inferno, o que não é boa referência para quem segue esta práxis tão estranha às igrejas de Deus. Foi o rico perdido que o fez:
 
     “E, clamando, disse: Pai [ou, Padre] Abraão, tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama” (Lucas 16:24).
 
     O ser humano é propenso em desviar-se dos mandamentos de Deus. Por exemplo, o Senhor disse ao Seu povo terreno, Israel, para não fazerem e adorarem imagens de escultura (Êxodo 20). O que vemos nós a seguir? Com o decorrer do tempo vemos eles encherem a terra com os seus ídolos (Isaías 2:8). 
 
     O Senhor Jesus Cristo disse com muita clareza um dia:
 
     “Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi …” (Mateus 23:8).
 
     O que aconteceu depois? Os crentes adotaram e multiplicaram uma infinidade de títulos!
 
     Job dá-nos uma grande lição a este respeito. Diz ele:
 
     “Falarei para ficar aliviado, abrirei os meus lábios para responder.
 
     “Não farei aceção de pessoas; CHAMAREI CADA UM PELO SEU NOME, porque não sei adular.
 
     “A não ser assim, o meu Criador não me suportaria por muito tempo” (Job 32:21-23, Versão dos Capuchinhos, 8ª Edição, 1978).
 
     Talvez alguém conteste tudo o que atrás foi dito citando Romanos 13:7. Este versículo não diz que devemos honra, a quem honra?
 
     “Portanto dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo: a quem imposto, imposto: a quem temor, temor: a quem honra, honra”.
 
     Diz. É verdade que diz. Porém esta injunção não é para se aplicar na igreja local. Paulo, aqui, fala dos nossos relacionamentos na sociedade, fora do domínio da igreja – relações com as autoridades, obrigações sociais, impostos, tributos.
 
     Como é evidente, na sociedade, fora da igreja, devemos honrar com honra a quem esta é devida. Por exemplo, ao dirigirmo-nos a um gabinete de engenharia para falarmos com um crente que é engenheiro, como é óbvio, não diremos – não devemos dizer - que queremos falar com fulano tal, mas com o senhor Engº fulano tal.
 
     Na nossa vida social é assim que devemos proceder. Porém, na vida espiritual é diferente.
 
     O Senhor Jesus disse um dia que a fé é incompatível com a receção de honra humana.
 
     “Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, e não buscando a honra que vem só de Deus?”
 
     Meditemos bem nisto, pois também este é um dos costumes das igrejas de Deus que devemos preservar e fomentar. 
 
(Continua)
 
- C.M.O.

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